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Expedições Solitárias 2007/2008 - 26ª Parte Dias belos

Rodrigo Ventura realizou uma volta pela América do Sul, de moto, percorrendo 10 países ao longo de 412 dias, com início no dia 11 de março de 2007 e término em 01 de junho de 2008. Confira a vigésima sexta parte:

24 de outubro de 2008

Em Ushuaia aproveitei para descansar e passear pelo "fim do mundo". Eu e o Dario precisávamos de um dia de total descanso e aproveitamos a segunda-feira chuvosa para isso. Na terça fomos conhecer melhor essa pitoresca cidade chamada Ushuaia. Primeiro fomos ao Glaciar Martial de onde tivemos uma vista privilegiada da cidade e do importante Canal de Beagle. Já que estávamos por ali não resistimos e fizemos o passeio de barco pelo canal. A sensação de navegar por um lugar que eu só conhecia através dos livros de geografia do ginásio foi muito melhor do que o passeio em si.

Mas o mais bonito da cidade ainda estava por vir, o Parque Nacional Terra do Fogo. O parque é imenso e muito bem cuidado. Oferece uma imensidão de trilhas de onde se pode observar de perto e com total tranqüilidade a fauna e a flora local. O melhor de tudo foi que, por estar em baixa temporada, o parque ainda não estava cobrando a entrada. Dentro do parque cheguei no final da "Ruta 3", a estrada mais austral do mundo. Essa rodovia começa em Buenos Aires e corta toda a Argentina até chegar por aqui.

Depois de tirar 200mil fotos em uma placa e praticamente alugá-la colocando e tirando as motos para ver como ficava melhor, fomos fazer uma pequena trilha para ver o motivo pelo qual os castores são considerados uma praga na região. Os castores dessa parte do continente desenvolveram um tipo de pêlo muito duro para resistir ao frio e por isso, deixaram de ser caçados já que sua pele não serve para enfeitar as madames de plantão. Sendo assim esses pobres animais se multiplicaram em progressão geométrica e agora destroem o parque. Nos disseram, inclusive, que se paga uma recompensa de 15 pesos por castor. E aí??? Se candidata???

Antes de deixar Ushuaia fiz mais esse vídeo para mostrar pra você um pequeno pedaço da cidade.

A próxima parada foi a cidade de Punta Arenas no Chile. A viagem foi longa, pois mais de 600Km, duas aduanas, uma balsa e um tatu que o Dario cruelmente atropelou, separam as duas cidades. Isso sem falar no frio que estava no dia. Achei que ia congelar pela milésima vez. Em Punta Arenas existem basicamente dois pontos turísticos: 1. A estátua de um tal índio que fica na praça e todo turista tem que beijar o dedão do pé do índio para algum dia voltar a Punta Arenas (não preciso nem dizer que passei longe da estátua, certo?); 2. A zona franca onde se compra bons produtos pela metade do preço, inclusive carros e motos (e eu lá tenho dinheiro pra isso?).

Sendo assim fomos para Puerto Natales, a cidade base para quem pretende se aventurar pelo Parque Nacional Torres Del Paine. Na cidade compramos mantimentos e pegamos informações do parque. Nos hospedamos em uma pousada e ficamos muito amigos do Otto, o simpático dono que fazia de tudo para que nos sentíssemos em casa, além de nos fazer um preço bem camarada.

Quando entramos no Parque Nacional Torres Del Paine, de cara já fiquei maravilhado com as cores dos lagos e as torres ao fundo. Diminuí a velocidade e fiquei em pé na moto com uma cara de criança quando recebe um presente daqueles. Acho que nunca tinha visto tanta diversidade de verdes como vi nas águas do parque.

O parque oferece várias opções de circuitos, seja de carro ou a pé. Os mais conhecidos são o Circuito Grande com 10 dias de trekking pesado, porém habilitado apenas no verão, e o W, o mais procurado. O W é um percurso que varia de 3 a 5 dias de caminhada onde cada perna da letra é um vale diferente.

A primeira perna que nos aventuramos leva até a base das torres. O caminho é de aproximadamente 8 horas, ida e volta, com duas fortes subidas sendo que uma, a última, é um trepa pedra de primeira qualidade. Depois de vencermos a ladeira de pedra recebemos nossa recompensa. Chegamos a base das torres e lá encontramos um enorme lago verde. O dia estava nublado, mas mesmo assim conseguimos vê-las perfeitamente.

O lugar é tão calmo que não resistimos a ficarmos sentados nas pedras apreciando a vista. Aproveitamos para fazer um lanche e um inusitado convidado surgiu para dividir o pão.

Nossa idéia era fazer o W completo, porém terminei o primeiro dia com muitas dores no joelho que operei no ano passado. A falta de exercício físico também comprometeu e tanto eu, como o meu amigo, estávamos exaustos no final do dia. Nos assustamos com o nosso cansaço. Da forma que estávamos, não poderíamos continuar e arriscar a continuidade da nossa principal expedição, por isso resolvemos desistir.

Acho que essa foi a primeira grande frustração da expedição. Saí de casa com a idéia de fazer o W e agora estava sendo obrigado a desistir. No dia seguinte, enquanto saíamos do parque, o coração apertou e não consegui segurar as lágrimas. Estava frustrado. Estava triste. O filme da cirurgia e da complicada recuperação que tive, passou na minha mente por completo. Nesse momento prometi que irei voltar e dessa vez preparado para o W ou quem sabe até mesmo o Circuito Grande. Mas o que importa é que irei voltar.

Essa parte do Chile não tem ligação rodoviária com o restante do país, sendo assim tivemos que voltar para a Argentina para subir um pouco mais. Paramos então na charmosa El Calafate onde fomos conhecer o estonteante Glaciar Perito Moreno com suas paredes de gelo que chegam a medir 60 metros de altura. Fizemos também o passeio de barco que chega bem perto das paredes de gelo. Os estrondos dos blocos de gelo se rompendo e caindo eram assustadores e ao mesmo tempo fascinantes.

Dentro da água estava um enorme bloco recém caído do glaciar e, para nos mostrar, o capitão do barco fez questão de não só se aproximar, mas também empurrar o bloco durante alguns minutos.

No dia seguinte, uma quinta-feira, fizemos nossa primeira tentativa de deixar a cidade. Foi apenas uma tentativa, pois, depois de 100Km, quando já estávamos no rípio da "Ruta 40" patagônica, passei em algo parecido com uma lombada e em seguida entrei em um buraco com a moto. Aparentemente não tinha sido nada demais, porém, como resultado, a corrente que já estava um pouco frouxa pulou. Parei a moto e consegui colocá-la no lugar sem muitas dificuldades. Tudo pronto para seguir??? Achei que estava, mas me enganei.

Quando saí vi que só tinha a 1ª e a 2ª marcha. E as outras 4??? Não tinha a mínima idéia de onde estavam. E agora José??? Já tinham nos dito que em El Calafate não havia oficina de motos. Se em El Calafate não tem, em El Chaltém é que não vai ter, pois o lugar é minúsculo. Decidi então que voltaria para El Calafate. Com apenas duas marchas a volta foi complicada.

Quando já tinha passado da metade do caminho fiz algo inusitado, dei um chute na tampa do motor, no lugar onde fica a alavanca de câmbio, e tentei colocar a 3ª. E não é que deu certo? Fiz o mesmo e passei a 4ª. Mais uma "porradinha" e entrou a 5ª. A 6ª não quis entrar, mas pelo menos assim já chegava a 100Km/h.

Ao entrar na cidade fui direto para o posto de gasolina na tentativa de descobrir pelo menos uma oficina ou seja lá o que fosse. Perguntei ao frentista e recebi um belo "conheço não senhor". Quando eu já estava procurando a faca pra cortar os pulsos, o motorista de uma caminhonete que estava abastecendo entrou na conversa me perguntando o que tinha acontecido. Expliquei a situação e me disse que era de Rio Gallegos mas conhecia o único mecânico da cidade.

E o melhor, tinham acabado de se falar pelo telefone. Ele refez a chamada e explicou ao Mono (apelido do mecânico - significa macaco em espanhol), o que estava acontecendo. Levamos a moto para a casa do Mono onde, nos fundos, funciona sua oficina. No dia seguinte recebi a triste notícia de que a corrente, ao saltar, fez o favor de deformar a tampa do motor. Algo extremamente difícil de acontecer, para não dizer impossível. Pra piorar essa tampa tem o número do chassi da moto, ou seja, trocar dá um belo trabalho burocrático, ainda mais estando em outro país.

Foram dois dias de suspense até que em pleno domingo, no meio de um final de semana prolongado, recebemos a ligação do Mono dizendo que podia pegar a moto. Nem acreditei!!! Ele me explicou que aplicou calor na tampa e conseguiu reduzir a deformação. Dessa forma teria novamente os meus câmbios. Aproveitei também para trocar a relação da moto e seguir mais tranqüilo daqui pra frente.

Depois desse susto fomos para El Chaltén, outro paraíso de trekking. Queríamos ver o grande Fitz Roy e fazer um dia de trekking na montanha, porém, na chegada da cidade, fomos surpreendidos por uma forte nevasca acompanhada de ventos de quase 100Km/h. O mau tempo fez com que desistíssemos da idéia e, no dia seguinte, seguimos a viagem para atravessar o que seria o trecho mais perigoso da expedição até agora: o trecho de rípio solto e com fortes ventos da temida "Ruta 40" patagônica.

O vento estava assustadoramente forte e nos exigia um grande esforço físico para manter as motos no trilho feito pelos carros no meio do rípio solto. O trilho é o único lugar onde a moto consegue tracionar sem problemas, mas o difícil era conseguir se manter dentro dele com a ventania. Pior do que o vento forte constante eram as rajadas inesperadas. Estava a não mais que 70Km/h quando uma rajada me tirou do trilho.

Consegui controlar a moto e quando estava voltando ao trilho veio outra que me jogou de vez no rípio solto. A moto começou a serpentear e, enquanto eu me esforçava para não cair, veio a terceira rajada de vento. Parecia que era ainda mais forte e me jogou com toda força. Quando vi que iria cair só me restou adotar os procedimentos de segurança básicos: perna junta a moto para minimizar o risco de quebrar algum osso; mãos no guidão para evitar voar para frente; e pescoço levantado para não arrastar o capacete no chão. Caí!!!

Deitado no chão, com a moto em cima da minha perna esquerda, vi o Dario se distanciar. Enquanto tentava em vão soltar a perna, mantinha a esperança de que tivesse visto minha queda ou, ao menos, notasse minha ausência ao olhar pelo retrovisor. Não me viu. Estava sozinho. O vento não dava trégua e esse mesmo vento trouxe até o meu nariz um leve cheiro da gasolina que vazava do tanque pelo respiro.

Para piorar a moto estava ainda com a parte elétrica ligada e, como estava caído, não consegui alcançar a chave para desligá-la. Tinha que me soltar e rápido. Com a perna direita consegui fazer uma alavanca entre o chão e a moto. Não consegui levantar muito minha carregada companheira de viagem, mas foi o suficiente para puxar a perna. Desliguei a parte elétrica, estanquei o vazamento e tentei chamar o Dario pelo rádio. Bateria??? Adoro Murphy!!! Só consegui ouvir um rápido chiado antes do rádio desligar. Estava sozinho.

Para levantar a moto tive que tirar a mochila maior e o tanque extra de gasolina. Ao levantá-la vi que tinha quebrado o pára-brisa, o retrovisor direito e a seta esquerda. Notei também que o guidão estava um pouco empenado no lado esquerdo, mas nada muito significativo. Consegui colocar minha "princesa tortinha" de volta na estrada e quando já estava terminando de arrumar tudo para sair o Dario chegou.

Daí pra frente, até o vento acalmar, seguimos ainda mais devagar e quem estava na frente tomava o cuidado de não tirar os olhos do retrovisor. Falei da moto e esqueci de mim... A roupa que uso é bem resistente e com boas proteções, por isso não machuquei absolutamente nada. Claro que nessas horas o fator sorte sempre ajuda um pouco...

No final do dia chegamos a cidade de Perito Moreno. Devido a descarga de adrenalina no momento da queda, eu sentia dores em todos os músculos do corpo. Conseguimos um hotel barato e desmaiei depois de dois relaxantes musculares. No dia seguinte seguimos para oeste em direção ao Chile. Foram 60 duros Km até a fronteira.

Duros porque o vento ainda estava muito forte, tão forte que o lago tinha ondas boas o suficiente para a diversão de um surfista iniciante. Mas pelo menos o caminho era asfaltado. Quando cruzamos a fronteira notei que meu velocímetro tinha parado de funcionar. Possivelmente o cabo arrebentou e agora até conseguir outro vai demorar um pouquinho. A primeira cidade Chilena é a charmosa Chile Chico, principal porta de entrada ou saída dos que buscam a mística e sonhada Carreteira Austral. Na cidade tínhamos a opção de pegar uma balsa e economizar assim 400km da Carreteira. O Dario optou pela balsa e eu decidi seguir sozinho pela estrada.

Nos encontraríamos em Coyaque, uma cidade que está bem no meio da Carreteira, porém, devido ao forte vento, a balsa estava suspensa até "Deus sabe lá quando" e o Dario teve que se conformar em me acompanhar. Já nos primeiros quilômetros ele estava conformado. A paisagem dava a estrada o título de estrada mais linda que já conheci em toda minha vida. Lagos de todas as formas. Montanhas de todas as cores. Vales de tirar o fôlego e uma paz perfeita até demais.

- Rodrigo, finalmente encontrei um lugar que posso afirmar que voltarei! - me disse o Dario enquanto contemplávamos a vista de um lindo mirante.

Atravessamos todo o percurso com muita calma e cuidado para não perder um detalhe que fosse daquela obra perfeita da mãe natureza. O rípio estava infinitamente melhor do que o rípio da 40, reduzindo drasticamente o risco de derrapagem. Em um momento me afastei do Dario e me deixei sentir toda emoção de estar realizando mais esse antigo sonho: Atravessar a Carreteira Austral, a única estrada que passa por dentro da Cordilheira dos Andes. Chorei como um menino. Mas agora chorei de alegria.

Ainda no rípio me assustei quando vi o Dario em pé na moto olhando o pneu dianteiro. Quando me aproximei vi o que tanto meu amigo olhava: pneu furado. No meio do nada. A cidade mais próxima estava há pelo menos 180Km de distância.

Com muito trabalho e improvisando ferramentas de borracharia, depois de duas horas conseguimos trocar a câmara de ar e seguimos viagem. Pelas minhas contas, com esse imprevisto, chegaríamos na cidade por volta das 22:00, dirigindo pouco mais de uma hora sob a escuridão da noite (por aqui anoitece bem tarde nessa época). Andamos mais 80Km e com o brilho do dia diminuindo cada vez mais e uma chuva fina que aumentava a sensação de frio, chegamos no asfalto que nos levaria a Coyaque. Pensamos que ia ser fácil, mas o destino ainda nos reservava mais uma surpresa.

Faltavam apenas 18Km para chegarmos quando vi a moto do Dario sair de traseira duas vezes. Gelo na pista? Não... Era inacreditável, mas agora era o pneu traseiro que estava furado. Nossa única opção foi seguir bem devagar até a cidade e com isso chegamos em Coyaque as 23:50h da última quinta-feira, dia 18/10/2007. Na cidade conseguimos um pneu usado para a moto do Dario, pois o dele já estava destruído, e, como achei um novo com um bom preço, aproveitei para trocar o meu que também já tinha passado da hora.

No dia seguinte deixamos a cidade e a chuva nos acompanhou pelos 200Km até Puyuhuapi. A estrada continuou linda em nem a chuva conseguiu diminuir o meu fascínio pela Carreteira Austral. Dormimos na cidade e no domingo, com as roupas ainda molhadas e debaixo de muita chuva, percorremos os últimos 200Km da estrada até a pequena Chaitén.

Nessa época do ano existem apenas duas formas de sair da Carreteira Austral pelo norte: Via Argentina, pelo passo de Futalefú entrando um pouco antes de Chaitén (CH) e saindo na altura de Esquel (AR); ou de balsa de Chaitén até Puerto Mont (CH) em uma desconfortável viagem de 10 horas. Como depois queria ir para a ilha de Chiloé no Chile, escolhi a balsa. O Dario, apesar de já ter decidido não entra na ilha e seguir direto para o norte, também optou pela balsa. O duro foi esperar até a noite para pegá-la.

Estava chovendo, frio, nossas roupas estavam encharcadas e teríamos 7 horas de espera até embarcar. Por sorte achamos um lugar abrigado e nos protegemos da chuva. Tivemos como companhia: um pobre cachorro manco que, em homenagem ao Dario que já assistiu "Cidade de Deus" mais de cinco vezes, recebeu o apelido de Zé Pequeno.

As 21h finalmente embarcamos. Entrei na balsa crente que encontraria uma bela poltrona reclinável para dormir. Poltrona??? Acho que tive foi é sorte de encontrar pelo menos um lugar para sentar e uma mesa para apoiar a cabeça durante as intermináveis 11 horas de viagem (não sei o motivo, mas a viagem durou uma hora além do esperado). A balsa saiu às 21h e durante toda a noite os passageiros se apertaram em uma pequena e desconfortável sala na parte superior. Que noite... Confesso que estava esperando uma galinha voar e logo em seguida me atirava ao mar. Que noite...

Mas o que importa é que na última segunda-feira chegamos a Puerto Mont. O Dario seguiu para o norte e eu andei 60Km até encarar mais 30 minutos em outra balsa que me levou até a ilha de Chiloé. A ilha é enorme e, se por um lado tem cidades bem urbanas como Ancud e Castro, por outro tem lugares pitorescos, uma bela paisagem e o magnífico Parque Nacional Chiloé. No próximo relato eu mostro um pouco da ilha. Fica a promessa.

Ainda falta muita estrada para percorrer...

Fonte: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias
Cidade: Ushuaia-EX-Argentina
Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias
Publicado: Fernanda Cristina Gonzales Ferreira
Date: 24/10/2008 <%insert_data_here%>

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  Evento 8011 - Expedições Solitárias 2007/2008

   Aqui os Albuns e Fotos



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