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Rodrigo Ventura realizou uma volta pela América do Sul, de moto, percorrendo 10 países ao longo de 412 dias, com início no dia 11 de março de 2007 e término em 01 de junho de 2008. Confira a vigésima sétima parte:
9 de dezembro de 2007
O último mês foi um pouco, vamos dizer assim, complicado. Atravessei o Chile, entrei na Bolívia e até no Brasil eu fui. Bati novos recordes: de deslocamento em um dia, 1.200Km, indo de Pucón (Chile) a Mendoza (Argentina); e de altitude, 4.930m, na perigosa travessia de San Pedro do Atacama (Chile) a Uyuni (Bolívia). Agora estou em Cochabamba, na conturbada Bolívia, rumo a La Paz. Mas chega de enrolar e vamos ao que interessa...
A ilha de Chiloé tem cores fortes que fazem da paisagem algo marcante. O verde intenso da grama e das árvores é contrastado pelo amarelo vivo de um tipo de planta trazido pelos alemães na época da colonização. Fiquei hospedado em Castro, capital da ilha, localizado bem no centro desse grande pedaço de terra. Castro é uma cidade movimentada, mas os povoados próximos são o melhor sinônimo para a palavra tranqüilidade.
Tranqüilidade essa perturbada apenas no verão, quando a ilha é invadida principalmente por chilenos vindos da capital Santiago. Por estar no centro da ilha, Castro é um ótimo lugar para usar como base e sair para conhecer lugares como o Parque Nacional de Chiloé. Uma área protegida e muito bem cuidada pelo governo chileno. Na quarta-feira, antes de deixar a ilha, liguei para saber onde estava meu amigo argentino e, como eu pensava, tinha seguido, no mesmo dia em que desembarcamos em Puerto Mont, para a Argentina. Já estava em casa. Minha próxima parada então era Pucón.
Estive em Pucón pela primeira vez em 2005 e estava louco para rever a cidade e o Villarica, o primeiro vulcão que conquistei o cume. Saindo da ilha, em direção a balsa que leva ao continente, fui parado pela polícia chilena, pois tinha feito uma ultrapassagem em faixa contínua. A ultrapassagem foi feita com toda segurança, mas mesmo assim estava errado. Conversando, consegui mais uma vez me livrar da multa e fiquei parado por mais de meia hora conversando com os policiais. Queriam saber coisas sobre a viagem, Argentina e Brasil. Ficamos amigos!!!
Já na balsa, a chuva chegou. Quando entrei na estrada ela aumentou e ficou bem forte. Entrei em Puerto Mont para abastecer e comer alguma coisa. A entrada da cidade, em obras, estava completamente alagada e tive que passar com muito cuidado. A chuva não deu trégua até Pucón e cheguei completamente encharcado. O vulcão estava encoberto pelas nuvens e fiquei na esperança de uma melhora de tempo no dia seguinte para que pudesse vê-lo. Minha mochila, mesmo com a capa de chuva, estava molhada e constatei que não tinha uma única roupa seca.
Minha idéia era ficar duas noites em Pucón, pois, no dia seguinte, queria ir até as termas da cidade. As águas são quentes e relaxantes, justamente o que precisava depois de tanto frio, porém choveu forte durante todo o dia e não tive opção a não ser ficar no hotel. Nesse dia tomei uma grande decisão: ir ao Brasil, São Paulo, para competir no 5º Campeonato Brasileiro de Trekking e dar uma passada no Rio para matar as saudades da minha família, da Carol e dos meus amigos.
Aproveitei o dia para planejar meus próximos dias, pois marquei minha passagem para o dia 14/11 saindo de Santa Cruz de La Sierra. Teria apenas 20 dias para cruzar o Chile, vencer o Atacama, entrar na Bolívia e chegar a Santa Cruz. Tinha que planejar e planejar muito bem. Minha primeira decisão foi pular o sul do Chile, afinal, já conhecia a região. No dia seguinte, quinta-feira dia 26/10, parti para bater o meu recorde de deslocamento em um único dia. Saí bem cedo de Pucón ainda com chuva e a medida que avançava para o norte o tempo melhorava aos poucos.
Por volta das 17h já tinha rodado mais de 800Km pela boa Panamericana e passava por Santiago. Parei para comer alguma coisa e segui. A idéia era chegar em Mendoza antes da meia noite, com um deslocamento de mais de 1.200Km em um único dia. Passei pelos estreitos túneis e pelo perigoso caracol, interminável sequência de curvas, que me levou ao Passo do Cristo, a mais de 3.000m de altitude. Quando entrei na Argentina a noite já tinha caído e meu desafio era cruzar os Andes à noite. Todo cuidado era pouco.
Pelas minhas contas seria noite de lua cheia e me intrigava o fato de não estar conseguindo vê-la. Ao descer um pouco vi surgir atrás de uma montanha uma linda bola de luz. Era ela. A maior representação do feminino sagrado. Era a lua que iluminaria meu caminho até Mendoza. Do meu lado esquerdo a maior montanha de pedra das Américas, o Aconcágua, refletia a luz da lua em seu pico nevado. Parei a moto por diversas vezes. Ficava arrepiado. A energia ali era muito forte e me sentia protegido. Apesar nos caminhões que me passavam "tirando fino" a toda velocidade, não estava com medo. Estava protegido.
Curtindo ao máximo cada instante daquele momento mágico, comecei a entoar uma música que é cantada no centro espírita da minha avó que diz assim: "Uma estrela no céu guiou nosso pai, guiai esses filhos caminhos de paz..." O céu estava limpo, estrelado e quando olhei para cima vi, pela primeira vez em toda minha vida, uma estrela cadente cruzar os céus passando bem em cima da minha cabeça, seguindo no sentido da estrada que me levaria a Mendoza. Fiquei emocionado. Parei a moto, pois as lágrimas não me deixavam mais enxergar a sinuosa estrada. Entreguei-me a emoção. Estava em paz. Não tenho como descrever o que sentia naquele momento.
Cheguei em Mendoza exatamente à meia-noite e fui direto encontrar meu amigo Dario que estava em uma festa no hostel. Ficamos na festa e brindamos o término de nossa aventura e a grande amizade que ficou. Passei o sábado sendo paparicado pelos seus pais e descansando, pois domingo seria dia de mais uma esticada em mais de 700Km até La Serena, no Chile.
A viagem para La Serena foi tranqüila, atrasada apenas pelos procedimentos burocráticos da fronteira Chilena. Impressionante como não possuem um procedimento único e cada fronteira tem um método diferente. La Serena é uma cidade bonita, mas o mais bonito da região fica para leste, a 70Km da cidade, o Valle Del Elqui. Um imenso e fértil vale no meio da cordilheira, muito utilizado para o cultivo de uva e produção do Pisco, a principal bebida chilena.
Seguindo para o norte vi a paisagem mudar bruscamente, afinal já estava na região do deserto mais seco e mais alto do mundo, o deserto do Atacama. Saindo de La Serena a idéia era viajar menos de 400Km até Copiapó, mas chegando na cidade não consegui hotel. Era a semana de chegada dos trabalhadores das lavouras e como eles se hospedam por no mínimo três meses, os hotéis mais baratos guardam os quartos para esses trabalhadores.
Estava cansado mas não tinha dinheiro para hotéis mais caros, por isso arrisquei seguir mais 70Km, chegando a noite na pequena Caldera. Por lá consegui um hotel barato e no dia seguinte pela manhã passei num lugar chamado Bahia Inglesa antes de voltar para a estrada. As praias de Bahia Inglesa são as mais fotografadas de todo o Chile, graças as águas transparentes e a areia branca.
Margeando o litoral, segui pela Panamericana em direção a Antofagasta, última parada antes de San Pedro do Atacama. A Panamericana no norte não é tão boa quanto no sul, mas pelo menos fiquei livre dos pedágios. Na pequena Chanaral resolvi arriscar e sair da estrada principal, pegando uma estrada de terra que, pelo litoral, cortava o Parque Nacional Pão de Açúcar. Uma região deserta de tudo: fauna, flora e gente.
Cheguei no final da tarde em Antofagasta depois de ter passado por lindas paisagens do deserto. Antofagasta é a maior cidade do norte chileno e, como toda grande cidade, é um lugar confuso. Mal podia imaginar que 10 dias depois da minha passagem ela sofreria com um terremoto de grau 8 que causaria bons estragos. Consegui um hotel para passar a noite e no dia seguinte, antes de ir para San Pedro fui conhecer o principal atrativo, La Portada, um portal de pedra esculpido pela natureza no meio do mar.
Deixei o nível do mar para começar minha subida para o altiplano, uma enorme planície de altura média em torno de 3.500 metros que vai do Chile ao Peru, cortando toda Bolívia. Minha princesa começou a sentir os efeitos da altitude e chegamos com certa dificuldade a San Pedro. Na cidade busquei um camping para economizar um pouco de "plata" e assim poder conhecer os diversos atrativos da região. O primeiro lugar que fui conhecer foi os Gêiseres Del Tatio a 4.300m de altitude.
O maior espetáculo acontece com o nascer do sol, quando as colunas de fumaça chegam a grande altura e embelezam ainda mais o lugar.
No outro dia fui conhecer a pequena Toconao, uma comunidade localizada ao lado de um dos mais belos oásis do deserto, a Quebrada de Jere, um cânion fértil que rasga o deserto com paredes de mais de 20 metros de altura. A única forma de conhecer a Quebrada é caminhar por dentro do rio. Eu não resisti e fui muito bem recompensado pela natureza.
Pra encerrar a série de passeios em San Pedro do Atacama fiz minha segunda visita à lua. Fui conhecer o Valle de La Luna chileno. O melhor do vale é a oportunidade de apreciar o pôr do sol em um lugar especial. Para chegar nesse lugar tive que caminhar pelo alto de uma enorme duna de areia e olhar para baixo naquele momento não era das melhores coisas a se fazer. Depois de atravessar a duna cheguei em um pequeno mirante de onde pude apreciar um lindo entardecer. Tive a sorte de estar em San Pedro do Atacama exatamente no início das comemorações pelo 27º aniversário da comunidade.
Fonte:
Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Cidade:
São Pedro do Atacama-EX-Chile Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Publicado: Fernanda Cristina Gonzales Ferreira Date: 09/12/2008
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