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Rodrigo Ventura realizou uma volta pela América do Sul, de moto, percorrendo 10 países ao longo de 412 dias, com início no dia 11 de março de 2007 e término em 01 de junho de 2008. Confira a vigésima oitava parte:
Continuação do dia 9 de dezembro de 2007
Estava na hora de enfrentar meu maior desafio: a travessia de 3 dias de San Pedro até a pequena cidade de Uyuni na Bolívia, passando por uma região desértica que chega a ultrapassar 4.900 m de altitude. Chegar na fronteira com a Bolívia já não foi tarefa fácil, pois já estávamos a mais de 4.000m de altitude, mas pelo menos fui muito bem recebido pelos simpáticos funcionários da aduana. Essa é a única aduana que vi cobrar taxa de entrada, 15 bolivianos, pouco menos de R$ 4,00.
Como o risco da travessia é muito grande, fechei um acordo com uma agência que leva turistas para fazer o percurso de 4 x 4. No acordo eles ficariam responsáveis por levar toda minha bagagem, me dar apoio em caso de problemas, comida e abrigo ao longo dos três dias. O acordo foi quase todo respeitado, quase, pois eles não me esperaram durante a travessia e como a moto não conseguia andar bem devido a altitude, fiquei sozinho na maior parte do tempo. Sem estrada demarcada, placas ou sinais indicando o caminho, por pouco não fui dominado pelo medo.
Controlar o medo é um dos maiores desafios que enfrentei. Mesmo com todas as belezas naturais da região sabia que um pequeno erro poderia me custar a vida, por isso não podia me distrair um minuto que fosse. A tensão era grande. Laguna Verde e Laguna Colorada dentro da Reserva de Fauna Andina Eduardo Avaroa foram os atrativos do primeiro dia. No segundo dia, o dia mais difícil e perigoso, o vulcão Ollague a 5.865m de altitude, localizado exatamente na fronteira entre o Chile e a Bolívia, foi um atrativo a parte. A fumaça encobria seu cume indicando que está em plena atividade.
No terceiro dia cheguei ao imenso Salar de Uyuni. O salar ocupa o lugar de um enorme lago que cobria o altiplano meridional até cerca de 12 mil anos atrás. No salar, apesar de um terreno totalmente plano, não podia me descuidar. Estava com pouco combustível e me perder era morte certa. Em 2001 um grupo atravessava o salar em um caminhão que quebrou. Tentaram completar o percurso a pé, porém se perderam no meio do salar e com a chegada da noite todos morreram congelados. Mesmo com todo risco, a grandiosidade e a magia desse lugar são incríveis.
Os detalhes dessa difícil travessia que, com toda sinceridade, mudou minha forma de enxergar o mundo, vão ficar pro futuro. Não é hora de contar tudo, pelo menos ainda não. O que importa é que consegui vencer mais esse desafio e a expedição Pelas Curvas da América seguiu o seu rumo. Na pequena Uyuni o desafio foi conseguir abastecer a moto para seguir viagem. A gasolina está em falta no sul da Bolívia e tive que passar um dia de um lado para o outro até conseguir, depois de muita confusão, abastecer minha princesa.
Pelas informações que obtive na cidade, sabia que ainda tinha mais um arriscado percurso pela frente, a estreita, sinuosa e mal conservada estrada que liga Uyuni a Potosí. Nessa estrada de subidas íngremes cheguei a 4.220m e, com todo peso da minha bagagem, fui obrigado a retirar o filtro de ar da moto para conseguir passar.
Potosi, a quase 4.100m do nível do mar, é considerada a cidade mais alta do mundo. De ruas apertadas e grandes ladeiras, não é muito fácil andar de moto pela cidade, ainda mais com a pouca paciência dos motoristas bolivianos. Consegui um bom hostel em uma casa colonial por apenas R$ 7,00. Nada como o câmbio boliviano para ajudar meu orçamento, pude até me dar ao desfrute de comer fora. Assim que cheguei, ao caminhar pela cidade, busquei uma agência para poder fazer o passeio das minas. Conhecer as minas de Cerro Rico, pelo que li, é uma das experiências mais inesquecíveis de quem visita a Bolívia, porém tinha que ter sorte com a agência e tive.
Na sexta, melhor dia para visitar, fui com o Chasqui, guia da Greengo's Tour para as minas. O dono da agência me separou do grupo e disse que podia ficar o quanto tempo quisesse dentro das minas. Pra completar me disponibilizou o seu melhor guia, já que o Chasqui foi mineiro por quase três anos e conhece a maioria dos trabalhadores por lá.
A experiência realmente foi fascinante. Caminhei com dificuldade pelos apertados corredores, subi e desci por perigosas escadas e respirei o asfixiante ar daquele lugar. Vi o quão duro é o trabalho daqueles homens. Descobri que nas galerias mais escondidas trabalham crianças para ajudar no orçamento familiar. Infelizmente o trabalho infantil ainda é algo comum na Bolívia. Vi um homem lavar as mãos com a própria urina, já que essa é a única água realmente pura dentro da mina. Chorei ao conversar com os heróis das minas, principalmente com o Gregório que, para criar seus seis filhos, trabalha há quase dez anos ali. Posso afirmar que ganhei uma lição de vida, e que lição.
De Potosí fui para Sucre, a cidade boliviana considerada patrimônio histórico da humanidade, principalmente pela sua bela arquitetura colonial. Aproveitando que cheguei na cidade em pleno final de semana, tirei o domingo para conhecer a feira dominical dos índios de Tarabuco, um povoado distante 70Km de Sucre. As cores fortes dos tecidos ao redor da praça dão um colorido todo especial a feira que fica lotada de turistas.
Na segunda deixei a moto numa oficina de Sucre, a bagagem no hotel e com minha mochila peguei o ônibus para Santa Cruz de La Sierra, de onde sairia meu vôo para São Paulo. Foram 14 horas de uma interminável viagem. Ônibus caindo aos pedaços, sujo, poltrona apertada e uma estrada de moer os ossos. Cheguei em Santa Cruz na terça pela manhã e meu avião sairia na madrugada de quarta-feira, porém, os funcionários do aeroporto resolveram fazer uma greve de 24 horas exatamente na quarta-feira.
Tive que dormir na cidade e meu vôo foi transferido para quinta-feira. Para minha felicidade a greve durou apenas as 24 horas previstas e na quinta segui para São Paulo. De lá peguei um ônibus para Socorro, local onde seria realizado o 5º Campeonato Brasileiro de Trekking. Não fomos bem no campeonato, mas depois de três dias e três provas, Os Primatas conseguiram nossa melhor colocação em brasileiros, 23º dentre 70 equipes. Já estava feliz só pelo fato de estar participando do campeonato e o resultado, pelo menos dessa vez, para mim era secundário.
De lá fui para o Rio, mas isso e o meu retorno para a conturbada Bolívia, eu conto no próximo relato. Prometo que dessa vez não vai demorar muito. Até lá...
Fonte:
Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Cidade:
San Pedro-EX-Chile Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Publicado: Fernanda Cristina Gonzales Ferreira Date: 09/12/2008
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