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Rodrigo Ventura realizou uma volta pela América do Sul, de moto, percorrendo 10 países ao longo de 412 dias, com início no dia 11 de março de 2007 e término em 01 de junho de 2008. Confira a vigésima nona parte:
2 de janeiro de 2007
Ir ao Rio foi a melhor coisa que poderia ter feito. Matei as saudades de pessoas muito especiais e, além disso, me diverti muito. Inicialmente tinha me programado para ficar 10 dias, mas acabei ficando um pouquinho mais. As coisas em Sucre esquentaram e em um sábado, enquanto estava no Rio, 3 morreram e 300 ficaram feridos durante uma manifestação na praça principal. Pra completar a polícia tinha fugido da cidade e se recusava a voltar, sendo assim achei melhor esperar as coisas acalmarem para voltar e continuar com a expedição. Enquanto isso, no Rio de Janeiro.
No dia 02 de dezembro, um domingo à noite, peguei o vôo de São Paulo para Santa Cruz de La Sierra. Foi difícil me despedir mais uma vez, mas a expedição não podia parar e, desde que decidi ir ao Rio, sabia o quão dolorido seria esse momento. No dia seguinte peguei o ônibus para Sucre e tive a "sorte" de conseguir um ônibus ainda pior, com direito a ficar mais de uma hora na estrada enquanto o motorista e seus "ajudantes" tentavam consertar o vazamento da mangueira da direção hidráulica.
Quando cheguei na cidade, apesar do clima tenso, as coisas estavam mais tranqüilas, ou pelo menos pareciam estar. Fui na oficina levar as peças de reposição que tinha trazido do Brasil e por lá recebi a triste notícia que minha companheira de viagem teria seu motor aberto, pois, depois de carburada para altitude, não estava com a força que deveria estar. Tudo que eu sempre sonhei na vida foi abrir o motor da minha moto em uma oficina na Bolívia, mas pelo menos os caras eram super profissionais e sabiam muito bem o que estavam fazendo.
Na sexta, dia 07, minha Princesa ficou pronta para voltar para a estrada e me preparei para sair de Sucre no dia seguinte. Enquanto arrumava minhas coisas ouvi gritos na rua. Era uma grande passeata começando. Não resisti e, apesar dos resultados da última manifestação, peguei a câmera e fui fotografar. Pelo menos dessa vez a polícia não chegou perto e tudo transcorreu na maior tranqüilidade.
A estrada de Sucre para Cochabamba não era das mais tranqüilas. Pra começar, posso dividi-la em 3 terrenos: asfalto, terra e paralelepípedo. Fora isso, em alguns pontos, é tão estreita que apenas um carro consegue passar e, na maior parte do tempo, os abismos são de tirar o fôlego. Em contrapartida a paisagem é belíssima e vale a viagem. Já Cochabamba, não é lá essas coisas.
De Cochabamba fui para La Paz, que de "paz" mesmo só no nome. Uma cidade grande e com um trânsito de enlouquecer. Ladeiras e buzinas para todos os lados, além, é claro, dos motoristas mal educados. Apenas depois de uma hora sobrevivendo pelo trânsito da cidade consegui achar um hotel com garagem e um bom preço.
Para quem gosta de adrenalina, ir a La Paz significa descer a famosa "Estrada da Morte" de bicicleta. Eu, obviamente, não podia resistir a mais essa dose de emoção e me joguei nesse alucinante "Down Hill" até a cidade de Curicó, descendo de 4.640m do nível do mar para 1.295m em apenas 64 Km de estrada. Adrenalina pura!
A aventura é digna de bis, não só pela adrenalina, mas pela paisagem, um lugar realmente belíssimo. Hoje a "Estrada da Morte" já não é mais tão perigosa, pois, com a nova estrada, os carros, ônibus e caminhões já não se arriscam mais pelas suas curvas e seus abismos. Mesmo assim, durante a descida de bicicleta, todo cuidado é pouco. Não muito tempo atrás, dois aventureiros morreram ao errar uma curva. Caíram numa ribanceira com suas bicicletas e a aventura terminou por ali. Mas, apesar do risco, é um passeio que vale muito a pena e eu não só aconselho como "dou a maior força".
Em La Paz deixei a moto guardada e fui conhecer a cidade caminhando. Suas subidas, seus mercados, seu agito de cidade grande me instigaram a andar por dois dias seguidos para conhecer o máximo que podia. Um dos lugares mais apreciados pelos moradores da cidade e pelos turistas, é a segura "Plaza Murillo", onde muitos sentam nos bancos e aproveitam as sombras das árvores para descansar um pouco.
Saindo de La Paz minha próxima e última cidade boliviana era Copacabana, a beira do grande lago Titicaca. Para chegar em Copacabana, que fica em uma península, tive que pegar uma balsa, ou melhor, uns pedaços de madeira presos em um motor velho, para atravessar o lago. O dia estava ensolarado e a travessia de balsa foi a melhor forma de receber as boas vindas do sagrado Titicaca, o maior lago de altitude do mundo.
Copacabana é uma cidade pacata e cheia de hippies nas suas poucas ruas. Na cidade, nada melhor do que sentar na beira do Titicaca e saborear uma boa e fresca truta pescada no lago enquanto o sol se põe. Maior tranqüilidade impossível! De Copacabana peguei um barco para a Ilha do Sol, a sagrada ilha Inca, território de rituais e sacrifícios feitos para o deus Sol. Os Incas se consideravam filhos do Sol e sacrificavam suas mais belas virgens oferecendo seus corações ao astro rei. Desci do barco no extremo sul da ilha e fui caminhando até a pequena vila onde passei a noite.
Descobri uma festa em comemoração a um nativo da ilha que tinha conseguido se graduar. Só não entendi bem se era no colégio ou na faculdade, mas o que importa é que eles tinham motivo para festejar. No dia seguinte escolhi a trilha que passa pelos pontos mais altos da ilha e segui para o norte, podendo contemplar assim os dois lados daquele grande pedaço de terra.
Depois de muito sobe e desce, finalmente cheguei na parte norte da ilha e a primeira ruína Inca é a própria mesa de sacrifício. Logo depois da mesa fiquei impressionado com as ruínas de um antigo templo. Um verdadeiro labirinto construído em um dos mais belos lugares da ilha.
Saindo das ruínas desci até o povoado do lado norte e peguei o barco de volta para Copacabana. No dia seguinte segui rumo a fronteira com o Peru. Na saída da Bolívia fiz a imigração sem problemas, mas, na hora de fazer a aduana da moto, surgiu um pequeno problema. Quando entrei na Bolívia pelo deserto, na fronteira com o Chile, não tinha ninguém no posto da Aduana e fiz apenas a imigração achando que, na Bolívia, a imigração já serviria para mim e para a moto. Estava enganado, tinha que ter feito a aduana.
O policial disse que teria que apreender minha moto até que eu regularizasse a situação. Conversamos um pouco e ele disse que me liberaria para voltar e sair da Bolívia pelo mesmo lugar que tinha entrado. Quando ele disse isso eu juro que pensei que era melhor ele apreender logo a moto. Seguimos conversando sobre a expedição, sobre futebol, sobre a Bolívia e no final, depois de quase uma hora de papo, ele disse que me deixaria passar mediante uma pequena "contribuição social". Disse a ele que estava muito apertado de dinheiro e que tinha no máximo 2 dólares.
Até agora eu não sei de onde tirei a cara-de-pau para oferecer míseros 2 dólares, mas o importante é que ele aceitou e me liberou em seguida. Ufa... Foi por pouco! Entrando no Peru (sem gracinhas com o duplo sentido), tratei de fazer todos os procedimentos, migração e aduana, afinal, não quero ter mais problemas. A estrada estava boa e cheguei bem a Puno. Fiquei hospedado bem no centro e foi fácil conhecer a cidade a pé. Dizem que Puno é uma das cidades mais perigosas do Peru, mas o que vi foi uma cidade tranqüila e muito bem policiada.
A maioria das pessoas que páram em Puno faz isso para poder conhecer as ilhas flutuantes de Uros e as ilhas do norte do Titicaca, Amantani e Tequile. Eu não era diferente nesse aspecto, por isso, no dia seguinte, peguei uma excursão de dois dias pelo Titicaca. Assim que entrei no barco conheci um casal muito simpático de São Paulo, o Rafael e a Camila, o que rendeu grandes papos e uma boa amizade.
A primeira parada do barco foi em uma das ilhas flutuantes de Uros. As ilhas são feitas de uma planta chamada "totora", planta essa que também é utilizada para a construção das casas, de brinquedos, de artesanato, de barcos, para fazer fogo e ainda é comestível. Eu provei uma e achei que quase não tem gosto, meio sem graça, mas até que não é ruim. Nessa ilha podemos, depois de receber uma explicação detalhada sobre sua construção e manutenção, caminhar e conhecer o interior das casas. Geralmente cada família tem duas pequenas casas, uma que funciona como cozinha e dispensa e a outra como quarto e sala.
A tarde chegamos em Amantani, uma ilha que não possui hotéis nem restaurantes, por isso ficaríamos hospedados na casa de uma família local que também seria responsável pela nossa alimentação. Eu, Rafael e Camila ficamos com a mesma família. Pessoas humildes e muito atenciosas. Nos serviram um almoço feito no fogão a lenha que estava simplesmente delicioso e a noite uma bela janta também não ficou para trás. Os moradores da ilha organizam uma festa à noite para os turistas, que recebem roupas típicas para poderem participar.
Eu e o Rafael colocamos o poncho e o gorro que nos emprestaram, já a Camila teve que colocar as saias, blusa e o lenço utilizado pelas mulheres da ilha. A festa foi rápida, em torno de duas horas, mas não faltou animação. Dormi muito bem com o silêncio e a tranqüilidade da ilha. No dia seguinte levantamos cedo, tomamos nosso café da manhã e fomos para o porto onde nos encontraríamos com nosso guia e com as demais pessoas do grupo. Confesso que, no fundo, a vontade era ficar pelo menos mais uns dois dias na ilha. Um verdadeiro paraíso no meio do lago...
Seguimos para Tequile, uma ilha muito mais comercial e estruturada, com hotéis, restaurantes, internet e muito comércio, principalmente de artesanato local. O interessante é como os costumes mudam de uma ilha para outra. Em Tequile, por exemplo, os responsáveis pelos trabalhos artesanais manuais, como bolsas, gorros e camisas, são os homens, ao contrário de Amantani, onde as mulheres levam sua lã e suas agulhas para todos os lados. No final do dia voltamos para Puno, mas antes navegamos mais uma vez pelo meio das "totoras".
Com o Natal se aproximando escolhi a cidade de Arequipa para passar essa data especial. Arequipa é uma das mais belas cidades peruanas, perdendo apenas para Cusco. Com um rico acervo arquitetônico e cercada por montanhas e vulcões, faz parte do roteiro da maioria dos turistas que chegam ao Peru, mas também é verdade que muitos dos turistas utilizam Arequipa para conhecer o Cânion Del Colca, um dos mais profundos do mundo. Mas isso, o meu Ano Novo em Cusco e a sonhada chegada a Machu Picchu, eu deixo para o próximo relato. Até lá.
Fonte:
Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Cidade:
Rio de Janeiro-RJ-Brasil Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Publicado: Fernanda Cristina Gonzales Ferreira Date: 02/01/2008
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