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O aventureiro Rodrigo Ventura faz uma volta pela América do Sul com sua moto que começou em março de 2007 e entra por 2008. Confira a trigésima parte desta aventura:
16 de janeiro de 2008
Em Arequipa consegui um hostel muito legal o único problema é que estava infestado de gringos mal educados, mas faz parte. Hostel tem seus prós, mas também tem seus contras. Na noite de Natal não tive muito que fazer já que, como o dono do lugar é inglês, a comemoração foi marcada para o dia 25 à noite e não dia 24 como temos o costume. Pouco antes da meia noite subi para o terraço de onde tinha uma visão privilegiada da cidade iluminada. As pessoas comemoravam com fogos de artifício, colorindo assim a noite de Natal. Fiquei ali sentado por mais de meia hora.
Pela primeira vez estava passando o Natal longe da minha família e não tenho vergonha de dizer que não foi nem um pouco fácil. Dia 25 à noite foi o jantar de Natal, mas já não estava me sentindo bem e por isso não pude aproveitar muito. Tinha calafrios, dor no corpo e um grande mal estar. Estava ficando doente. No dia seguinte acordei mal, ou melhor, praticamente não dormi. Mesmo assim decidi que sairia de Arequipa e seguiria com a expedição. Os calafrios não cessaram mas, para minha sorte, ao sentar na moto e dar a partida, tive a sensação de não estar sentindo mais nada. Estava bem para viajar.
Cheguei sem problemas em Chivay, 150km de viagem. A cidade fica em um lindo vale e para chegar subi e desci grandes montanhas. Só para que você possa ter uma idéia, na descida final coloquei em ponto morto e baixei por 20Km a uma velocidade de 60Km/h. Quase um Down Hill de moto. Em Chivay consegui um hotel bem barato e tratei de deitar um pouco, pois já estava me sentindo mal outra vez. Coloquei o termômetro e a febre estava alta. Alguma coisa que comi? Será que foi a água? Não sabia, mas me preocupei muito quando me dei conta de que estava fazendo todos os sintomas de malária: mal-estar, calafrios, muita dor muscular e dor de cabeça.
Pra piorar, quando fiz as contas, descobri que tinham 11 dias (o período de incubação varia de 12 a 16 dias) que tinha descido de bicicleta pela Estrada da Morte na Bolívia, uma região muito favorável a doença. Esperaria passar a noite e, caso no dia seguinte não tivesse melhor, iria ao médico. Para minha alegria acordei sentindo muita dor estomacal e foi fácil chegar a conclusão de que algo que comi não tinha me feito muito bem. O alívio era tanto que posso dizer que foi a melhor dor de barriga que tive da minha vida! Tirei então o dia para descansar e relaxar nas piscinas de águas termais da cidade.
No dia seguinte, já me sentindo um pouco melhor, fui conhecer o Cânion Del Colca, a segunda maior atração do Peru. A estrada beira o cânion durante quase todo o percurso que leva até um ponto de observação de condores chamado Cruz Del Condor. A paisagem é realmente linda e vale o sacrifício de levantar cedo para tentar ver o vôo dos condores.
O único problema é que esqueceram de avisar aos condores que deveriam aparecer. Consegui ver apenas uns três, porém muito longe. Nada comparável a oportunidade que tive quando estava do Cânion Del Atuel na Argentina, quando dois enormes ficaram voando exatamente sobre minha cabeça. Na volta para a cidade fiz esse vídeo para que você possa ter ao menos uma idéia do que é andar de moto na beira de um dos maiores cânions do mundo.
Voltando do cânion, por volta das 12h, decidi cair na estrada naquele mesmo dia em direção a Cusco. Contrariando todos os conselhos dos moradores, optei pela estrada de terra que sai de Chivay e vai em diagonal na direção de Cusco. Caso não fizesse isso teria que dar uma volta enorme até chegar na cidade de Juliaca e de ali subir para Cusco. Uma distância infinitamente maior.
A tal estrada era realmente horrível. Estava em péssimas condições. Com muita terra e pedras soltas, além de enormes e consecutivos buracos, não conseguia passar de 50Km/h. Fora isso a estrada me levou a mais de 4.600m de altitude em pouco tempo. Uma boa subida, levando-se em conta que Chivay está a mais ou menos 2.500m do nível do mar. O que compensava o esforço era o belo visual já que, mais uma vez, estava atravessando a cordilheira.
Em um determinado ponto tive que praticamente sair da estrada e cruzar um enorme vale para poder seguir pela outra estrada que me levaria ao meu destino. O detalhe é que, pelo meio desse vale, atravessava um rio e teria que cruzá-lo. Justo no momento que estava passando, um caminhão veio no sentido contrário e o motorista resolveu parar dentro do rio, fazendo sinal para que eu seguisse pelo outro lado. O problema era que o outro lado era o lado mais fundo, mas só descobri ao praticamente mergulhar com a moto.
A água gelada chegou na altura do meu joelho mas minha princesa mais uma vez mostrou sua valentia e atravessou como se estivesse em uma boa estrada de asfalto. Essa moto consegue me surpreender cada vez mais. Em outros pontos a estrada era tão estreita que só dava espaço para um veículo. Numa dessas partes, bem numa curva, um caminhão quebrou e fui obrigado a achar uma passagem por fora da estrada, sendo que de um lado era um precipício e do outro um morro. Óbvio que optei pelo segundo. Não faltou emoção!
No meio disso tudo, ainda tinha que fugir dos cachorros que corriam atrás da moto. Um deles, se aproveitando que tive que diminuir muito a velocidade para fazer uma curva, chegou a avançar na minha perna. Com os dentes a mostra ele babava por um pedaço de carne. Ninguém merece! Mas o pior ainda estava por vir. Um belo temporal. Comecei a ter a sensação de que a brincadeira estava ficando mais arriscada do que deveria. Decidi parar na pequena cidade de Yauri para dormir.
Como já estava debilitado pela infecção, a chuva produziu um resultado não muito agradável. Cheguei na cidade com uma forte sensação de gripe, dor no corpo outra vez e um pouco de febre. Tratei de tirar a roupa que estava encharcada e me enfiei embaixo das cobertas depois de preparar um pequeno coquetel de remédios.
No dia seguinte a chuva tinha parado e, apesar de ter que colocar a roupa molhada para viajar, pelo menos sabia que ela não ficaria ainda mais molhada. O pior de tudo é colocar as botas molhadas. Para ajudar, coloquei a meia de neoprene, diminuindo assim a sensação de pés molhados. Felizmente esse trecho da estrada estava bem melhor e em boas partes contei com a companhia de asfalto. A beleza continuava e, logo depois de uma curva, dei de cara com um enorme lago a mais de 4.000m de altitude. Viva a natureza andina!
A beleza da estrada compensava todo o sacrifício e, antes de chegar na estrada principal, a "ruta" que estava me levou pelo interior de um "hermoso" vale beirando um lindo rio. Logo depois disso estava na estrada principal e pude seguir sem problemas para Cusco.
Assim que cheguei na cidade conheci 4 motociclistas brasileiros, Rigon, Wilson, Valdecir e o Henio, que também estavam chegando em Cusco naquele momento. Eles tinham saído de Joinville no dia 22 e, a passos largos, já estavam em Cusco onde passariam o Ano Novo. De Cusco a idéia era seguir até a Venezuela e de lá retornar para o Brasil. Uma viagem de 4 amigos em pouco mais de 40 dias.
Tirei meus primeiros dias em Cusco para descansar e recuperar a saúde. A infecção e a gripe tinham realmente me derrubado. Estava mal. Caminhava pela cidade, sentava no banco da Plaza de Armas e ficava vendo o movimento. Quando já me sentia um pouco melhor comprei o bilhete turístico e fui conhecer vários museus interessantes. Consegui comprar minha passagem de trem para Machu Piccho apenas para o dia 03/01, por isso teria mesmo que esperar.
Assim como passar o Natal longe da família foi difícil, passar o Ano Novo longe dos amigos e da Carolina não foi nada fácil. O Ano Novo em Cusco é animado, mas mesmo assim não estava muito para festas. Passei a meia noite na Plaza de Armas com uma multidão, na maioria estrangeiros, que ficava girando ao redor da praça. Algo meio estranho pra mim.
O primeiro dia do ano amanheceu com um lindo sol mas logo deu espaço para uma forte chuva. A primeira do ano. Tirei o dia para ler e descansar. Já estava melhor da gripe porém, nem de longe, estava 100%. No dia seguinte peguei minha princesa e aproveitando a aparente melhora do tempo, fui conhecer o Vale Sagrado. A primeira parada foi na fortaleza de Saqsaywaman.
Na verdade o lugar teria sido construído pelos Incas para ser um templo, porém, devido a sua ótima localização, os espanhóis acharam estar diante de uma grande fortaleza. Atravessei o Vale Sagrado passando por diversos lugares históricos até finalmente chegar na Fortaleza de Ollantaytambo, até então a mais bem conservada ruína Inca que tinha conhecido. Na fortaleza, que na época dos Incas tinha uma forte função administrativa controlando o acesso a cidade sagrada de Machu Picchu, pude apreciar também a técnica utilizada pelos Incas para desviar a água dos rios abastecendo assim suas cidades. Os caras eram realmente muito bons.
No caminho de volta uma forte chuva me pegou e cheguei a Cusco com muito frio. Não estava preparado para tanto frio e, ao chegar no hotel, passei uma hora tremendo embaixo das cobertas antes de me recuperar. Com o chegar da noite comecei a ficar ansioso afinal no dia seguinte realizaria mais um sonho, conhecer a cidade sagrada de Machu Picchu. Muitas vezes disse que iria chegar a Cusco de moto para poder conhecer a cidade sagrada e muitos duvidaram, me chamavam de louco. Mas agora aí estava... Tinha conseguido!
No dia seguinte acordei antes do despertador tocar e fui para a estação de trem. A viagem de 4 horas foi muito agradável graças a bela paisagem e ao ótimo papo com uns brasileiros que conheci. Um deles estava descendo de carro do Texas com um amigo americano e iria até o Brasil. O outro era o Alexandre, um cara muito gente fina de Niterói que veio ao Peru para conhecer Machu Picchu e para visitar a Mayte, uma peruana que conheceu no Rio de Janeiro.
Chegando em Águas Calientes, ou Machu Picchu Pueblo como agora é chamada a cidade, tomamos um ônibus que subiu por uma estrada de terra bastante íngreme até a entrada da cidade sagrada. Acho que demorei a me dar conta de que realmente estava ali, tinha chegado a Machu Picchu. Estava simplesmente extasiado. Cada ruína, cada paisagem me chamava a atenção. Não parava de olhar.
Um sorriso brotou no meu rosto e foi difícil desfazê-lo, estava realizado. Ushuaia, Ruta 40, Carretera Austral, Deserto do Atacama e agora Machu Picchu. Só tenho a agradecer por tudo isso que conheci ao longo da expedição Pelas Curvas da América.
Fonte:
Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Cidade:
Arequipa-EX-Peru Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Publicado: Fernanda Cristina Gonzales Ferreira Date: 16/01/2008
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