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Viagem ao Coração da América 2005/2006 - 24° dia

De 17 de dezembro de 2005 a 14 de janeiro de 2006 Alexandre Sampaio e seus amigos viajam pelo coração da América do Sul, rumo ao Caribe. Confira como foi o 24° dia de viagem contado pelo aventureiro:

24º Dia - 09 de janeiro de 2006 - Presidente Figueiredo - Manaus - Castanho - 291 Km

Pegamos a estrada em um dia agradável, os poucos Kms que nos separavam de Manaus foram fáceis de vencer, na entrada da cidade paramos no Bonna Vitta e regatamos os pneus off road, que havíamos deixado guardados para o próximo trecho de estrada de chão. Pela referência do GPS chegamos até a Braga Motos, concessionária Yamaha, onde terminava a viagem para nossos amigos Jaime e Jânio. Eles optaram por deixar as motos para retornarem encaixotadas, enquanto voltam de avião, a emoção da despedida foi grande, depois de tantos dias juntos na estrada.

Aproveitamos a passagem pela agência para trocar o óleo das nossas motos, a XT 660 e a Fazer 250 vinham agüentando bem o ritmo da viagem, apenas a XT 225 estava reclamava um pouco da vida, com problemas no disco de freio dianteiro e o defeito elétrico na chave de ignição, o pessoal da agência não tinha a chave para trocar, mas tinham o disco, o que já resolveu um grande problema.

Antes de sair da agência, conseguimos contato com o pessoal que representa Rinaldi Pneus em Manaus, que através da Veipeças, conseguiu mais um pneu dianteiro HB37 para a XT 600. Embora o pneu dianteiro da Fazer estivesse em bom estado, na XT 600, o peso maior da moto provocou um desgaste prematuro, era preciso outro pneu para vencer com segurança a distância de asfalto que nos separava de Bento.

Depois de passarmos na Veipeças, pegamos a orientação da onde pegar a balsa que nos atravessaria para o outro lado do Rio Amazonas, na ponta da BR 319. Chegando ao porto, só tinha balsa as 17:00 horas, como ainda era cedo, almoçamos comida típica ali no porto mesmo. Peixe, farinha, baião de dois, banana verde frita e refrigerante de guaraná.

Ainda faltava 3 horas para a balsa sair, então voltamos até uma borracharia para trocarmos os pneus lisos por pneus de cravos SH31 da Rinaldi, que trouxemos para os trechos de estrada de chão. A balsa Encontro das Águas saiu as 18:00 horas, com o dia caindo, mas o comandante com tranqüilidade chegou ao outro lado do rio após 2 horas de travessia, na noite fechada. Na travessia, o Paulo, morador de Manaus, puxou assunto com o Edson, falou muito sobre o tempo em que tinha um posto de combustíveis a margem da BR 319, onde abastecia até 1.000 caminhões por semana, em 1.980, e que hoje está no meio do mato, no trecho interditado da estrada.

A BR319 é um mito para nós que moramos no sul do Brasil, uma estrada dos sonhos de integração norte sul de um país continental. Construída pelo regime militar, e aberta ao tráfego no fim do governo Geisel, foi obra da engenhosidade e determinação de um planejamento militar. Mas com a abertura no governo Figueiredo, não sobreviveu as conspirações e interesses dos balseiros dos rios Madeira e Amazonas.

Quando foi aberta, em 1978, ela ligava com asfalto perfeito Porto Velho até Manaus, porém seu Tendão de Aquiles era o limite de carga nos caminhões, em torno de 15 Ton de peso total, devido as dezenas de pontes de madeira, com capacidade de carga limitada devido ao solo fraco da região.

As estacas de madeira, que sustentam as pontes, normalmente estão sobre terreno arenoso, e mesmo descendo dezenas de metros, não conseguem grande resistência neste terreno, a solução viria com investimento na estrada, utilizando estacas de aço e concreto. Suas margens sofriam intensa erosão das chuvas, por não ter vegetação de proteção logo que foi inaugurada, o que também dependia de manutenção.

Construída sobre um divisor de águas entre o Rio Purus e o Madeira, as coxilhas por onde passa ficam secas o ano todo, independente das cheias dos rios amazônicos. Alguns rios que corta, como os Rios Luna e Igapó Açu ligam os rios Purus e Madeira, podendo suas águas correrem para ambos os lados, de acordo com o que estiver mais cheio.

Nas baixadas possui centenas de tubos de ligação entre os dois lados, pois é incerta a direção em que a água irá passar de um lado para outro da estrada. Porém esta estrada meche com uma das fontes de renda e poder mais antiga da região, os balseiros, que perdiam parte do movimento para a estrada. Os mais famosos como Amazonino Mendes e Gilberto Mestrin, são lembrados por todos que vivem ao longo da estrada, como os principais culpados pela triste situação.

Uma distância de 600 Km, onde um caminhão gastaria em torno de 300 litros de diesel, ou R$ 600,00, mas por ter sido sabotada, impõe a vigem por balsa, onde é preciso R$ 3.000,00 pela viagem. A partir dos anos 80, uma série de construtoras contratadas para dar manutenção na estrada, fazia o contrário, pelos caminhos da burocracia e do desvio das verbas publicas, deixava a estrada abandonada, em muitos lugares chegaram a arrancar o asfalto, alegando que fariam o asfalto novo e melhor, o que nunca aconteceu.

Por isso que Paulo e tantos outros que apostaram nesse sonho, tiveram que abandonar a BR 319 e se dedicar a outras atividades, hoje Paulo é advogado em Manaus e viaja para o outro lado do rio para ver como vai sua fazenda, voltou a passar algumas vezes pelo antigo posto, mas a passeio, para aventurar na abandonada BR 319, como numa vez que tentou a travessia de Honda CB 400 e levou 9 dias na aventura.

Após os 25 Km de travessia do Rio Amazonas, pegamos um asfalto em boas condições por mais 101 Km até Castanho, como chamam os locais, ou Careiro, como aparece em alguns mapas, embora fosse noite fechada e sem lua, não tinha movimento na estrada, que segue em longas retas. Chegamos em Castanho, abastecemos as motos e as reservas, seriam 584 Km sem posto de combustível, cidades ou fazendas, neste trecho é preciso ter certeza que se tem o combustível suficiente, eu carregava 11 litros no tanque mais uma reserva de 25 litros, a Fazer 250 tinha seu tanque de 20 litros cheio, e a XT 225 tinha seu tanque de 11 litros mais 15 litros em galões, o suficiente para vencermos mais de 600 Km com as 3 motos.

Ficamos em um hotel simples e confortável, e saímos para jantar, como já eram 23 horas de uma segunda feira, haviam poucos lugares abertos, achamos uma lancheria, que nos serviu um bom prato feito de comida típica e cerveja Cerpa, que tomamos assistindo ao filme Carandiru, na tela quente da Globo. Impossível não ficar estupefato com os contrates deste Brasil, as margens da BR319 assistindo a um filme que mostra o pior do sistema penitenciário nacional.

Fonte: Alexandre Sampaio
Cidade: Careiro-AM-Brasil
Fotos: Alexandre Sampaio
Publicado: Thainá Costa da Silva
Date: 09/01/2006 <%insert_data_here%>

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  Evento 3556 - Viagem pela América do Sul

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