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MotoViagem a Atacama e Noroeste da Argentina 2005/2006 - Parte II

Ligia Fascioni realizou mais uma aventura, que se iniciou no dia 25 de dezembro de 2005, partindo de Florianópolis rumo ao Atacama e Nororeste da Argentina. Confira a 2ª parte da viagem:

3 jan 2006 Paso San Francisco

O Paso San Francisco (Pasos são estradas que cruzam a Cordilheira) é um dos menos freqüentados por causa do grau de dificuldade para atravessá-lo, mesmo de carro. São quase 500 km entre Copiapó, onde tem o último posto de gasolina, e Fiambalá, na Argentina, onde tem o próximo posto. As motos precisam levar combustível extra, pois exceto as aduanas não há nada (nem uma sombra, nem uma árvore, nem uma borracharia) entre os dois pontos. Assim, tivemos que levar comida também, e muita água. Os primeiros 300 Km não são asfaltados e a estrada só abre nos meses de janeiro e fevereiro, quando a neve derrete. Saímos às 6h30 da manhã, com o dia ainda escuro, e às 10 horas já estávamos a 4.200 m de altitude. Ficamos nesse platô até as 6 da tarde, quando começamos descer (o ponto mais alto é 4.720 m).

O começo já foi deslumbrante, pois vimos o sol nascer entre as brumas das montanhas e desfiladeiros gigantes. A qualquer momento parecia que iríamos ver o Papa-Léguas fugindo do Coiote (bip-bip!). Mas a estrada era muito ruim, fazia muito frio, e tivemos que parar algumas vezes para reabastecer as motos. Houve 3 quedas, e teve que parar todo mundo para levantar as motos caídas (pesadíssimas, principalmente se lembrar que a gente estava a mais de 4 mil metros e as cabeças já estavam explodindo com a falta de oxigênio). Tudo tinha que ser feito bem devagar e os reflexos estavam bem lentos. Ainda bem que anjos de guarda adoram passear e estavam lá a postos, de maneira que ninguém se machucou e nenhuma moto foi avariada seriamente. Gastamos muito tempo nas aduanas argentina e chilena com o festival de papéis em três vias e vários carimbos, numa operação inexplicavelmente complicada. Os corpos estavam cansados com tantos solavancos e falta de oxigênio, algumas pessoas vomitaram, quase todo mundo passou um pouco mal (eu só senti um pouco de fraqueza quando me empolguei e saí correndo, é difícil se controlar num lugar assim).

Mas tanto desconforto valeu à pena. Agora vem uma tentativa de descrição do que a gente viu. Se bem que nada do que eu possa contar ou fotografar vai conseguir transmitir a mais vaga idéia do que foi a experiência.

As montanhas eram altas e com formas impensáveis. Como bem descreveu um dos nossos amigos, uma verdadeira orgia geológica. O relevo era pintado de cores pastéis como se estivessem todos os tons misturados em uma paleta, e iam do lilás ao ocre, do verde água ao rosa (as máquinas fotográficas não conseguiram captar tantas nuances). A sorte é que estávamos todos de capacete, porque foi difícil de segurar o queixo. A cada curva uma surpresa. Famílias inteiras de vicunhas (parentes do camelo, mas um pouco menores e sem corcunda, com um pêlo amarelado) eram vistas cruzando os caminhos, assim como cabras, cavalos e burros. Era tudo tão surreal e árido que a impressão é que a gente estava na lua, numa versão technicolor, como naqueles filmes em preto-e-branco coloridos artificialmente. Uma verdadeira aberração que culminou na aduana chilena, um galpão instalado às margens de um salar gigante (Salar Macuringa). Os salares são formações geológicas que acontecem porque um dia a Cordilheira dos Andes já foi coberta pelo oceano. Com o tempo, a água secou e só ficou o sal. É um lago de sal, branquinho de doer os olhos. Uma visão!

Continuamos nos encantando até que nossos corpinhos exaustos (já estávamos viajando havia 8 horas) chegaram à inacreditável Laguna Verde, no topo da montanha mais alta da travessia. Gente, eu nunca vou conseguir descrever o que é sair de uma curva e ter a Laguna Verde diante dos olhos! Qualquer esmeralda ficaria com vergonha diante daquilo! Um ciano completamente puro, as máquinas fotográficas não lhe fizeram justiça. A Laguna, daqui a alguns milhares de anos vai virar um salar. A água está secando e essa cor fantástica é por causa da altíssima concentração de sal e outros minérios. A gente molha a mão na água e, quando ela seca, transforma-se numa luva branca de sal. Um pouco mais adiante flagramos uma convenção de flamingos cor-de-rosa em seu passeio vespertino. Na aduana havíamos cruzado com um casal de malucos belgas que estavam em duas motos e nos contaram que haviam acampado na Laguna Verde e que tinham pegado 10 graus negativos durante a noite. Na hora a gente duvidou seriamente do equilíbrio mental deles, mas agora dá para entender aqueles sorrisos estranhos. Ver o sol nascer aqui deve ser o equivalente a um êxtase místico.

E você acha que acabou? Pois é, a gente já estava bem cansado e satisfeito, e só querendo um banho e uma cama quentinha. Mas que nada...

Foi só começar a descer e, na primeira curva, já na parte asfaltada, nos deparamos com um mundo amarelo-ouro. Sério! As montanhas todas cobertas com touceiras de matinhos completamente amarelos. A gente só via os capacetes se batendo, ninguém queria acreditar. Mas o que é isso, será que as belezas não vão acabar? A gente não agüentava mais, já estávamos há mais de 12 horas viajando! Os olhos simplesmente não conseguiam acreditar no que viam! Imagine um mundo inteirinho amarelo, com vulcões coloridos ao fundo. Não dá! Parecia realidade virtual. Quando descemos a estrada e quase fomos atropelados por uma família inteira de vicunhas também amarelas, foi demais para mim. Desatei a chorar, comovida. Não imaginava que pudesse haver um lugar assim no mundo. Nem o mais delirante dos diretores de arte poderia criar uma coisa dessas.

Fonte: Ligia Fascioni
Cidade: Paso San Francisco-EX-EX
Fotos: Ligia Fascioni
Publicado: Mariana Bittencourt Fraga
Date: 22/02/2008 <%insert_data_here%>

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  Evento 8801 - MotoViagem a Atacama e Noroeste da Argentina 2005/2006

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