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Rodrigo Ventura realizou uma volta pela América do Sul, de moto, percorrendo 10 países ao longo de 412 dias, com início no dia 11 de março de 2007 e término em 01 de junho de 2008. Confira a trigésima terceira parte:
Continuação do dia 21 de fevereiro de 2008
Consegui me livrar do primeiro. Os outros dois foram menos agressivos, até mesmo porque tenho absoluta certeza de que estava na velocidade indicada na placa, já que não queria ter mais problemas e perder tempo de viagem. Um deles disse inclusive que, por estar em "excesso de velocidade", coisa que eu certamente não estava, deveria pagar o que minha consciência mandasse. Peguei os documentos, guardei na carteira e disse a ele que minha consciência mandava não pagar nada. E assim voltei para a estrada. Foi desgastante, mas pelo menos consegui passar sem pagar um centavo que fosse.
No dia seguinte consegui chegar bem a Huanchaco, uma pequena e linda cidade a beira do Pacífico. O mais interessante da cidade em si são os pescadores que ainda utilizam os "cavalos" de totora para a pescaria. Uma tradição centenária. Nenhum deles usa qualquer tipo de motor, apenas a força do braço e a ajuda da maré. No álbum de fotos você poderá encontrar algumas fotos com esses interessantes meios de transporte.
Tendo Huanchaco como base, fui conhecer as ruínas de Chan Chan que representam o maior conjunto de ruínas feitas de barro de todo o mundo. O complexo de Chan Chan, formado por 15 cidadelas independentes, foi construído pela cultura Chimu por volta do século 13d.c. mas, infelizmente, grande parte foi destruída principalmente pelos plantadores de cana da região que desconheciam seu valor histórico. Foi encantador caminhar pelas ruínas e analisar cada detalhe. Salas de cerimônia, grandes praças, sala funerária e até um lago fazem parte do espaço aberto à visitação.
Seguindo para o norte, atravessei um enorme deserto e justamente quando passei por um pequeno povoado, ao fazer uma curva aberta a moto não respondeu e passei reto. Consegui frear a tempo e parar antes de sair da pista. Voltei a andar e senti que ela estava estranha, olhei para o pneu dianteiro e estava furado. Nem eu acreditei na minha sorte. Depois de quase duas horas atravessando o deserto, meu pneu furou justamente em um povoado e ainda mais, em frente a um borracheiro. Isso que eu chamo de proteção! Só pra você ter uma idéia, segue um vídeo do deserto. Devido ao vento, está sem som, mas as imagens falam por si só.
Nesse dia, já mais preparado e sem a polícia para me parar a toda hora, consegui atravessar os 650km até Mancora, cidade costeira considerada paraíso pela maioria dos peruanos. Eles fizeram tanta propaganda da cidade que estava com a expectativa muito alta, mas quando cheguei lá me decepcionei. A cidade fica a beira da rodovia Panamericana e a estrutura é terrível. A única coisa boa da cidade é a água quente do mar, já que a essa altura já não sofre mais influência da gélida corrente de Humboldt. Boa, porém traiçoeira.
Aproveitei para brincar com as ondas, descendo no bom e velho jacaré que aprendi com meu pai nas praias do Rio de Janeiro, e nessa brincadeira acabei resgatando três pessoas que não conseguiam se livrar da forte corrente. Em Mancora conheci também dois colombianos, Alejandro e Juan Pablo, que estavam viajando em suas BMW's. O Alejandro me ofereceu a moto para andar e foi uma experiência alucinante acelerar uma moto de 1.150cc na Panamericana. Também me ofereceu uma casa sua que está fechada em Cartagena, em uma praia deserta do Caribe. Disse que posso ficar por lá quanto tempo quiser. Ô sorte!
De Mancora fui para Zorritos, uma praia muito mais bonita, 80km ao norte. Passei uma noite por lá e, com o temporal que caiu, o quarto que estava foi invadido por "formigas assassinas voadoras". Acho que matei mais de 50 antes de dormir. Zorritos foi minha última noite em solo peruano e minha última noite de calor. No dia seguinte cruzei a fronteira para o Equador.
Cruzar a fronteira não foi muito fácil, pois cada processo fica em um lugar diferente e com isso tive que parar em cinco escritórios: emigração de saída peruana, aduana de saída peruana, aduana de entrada equatoriana, escritório regional da aduana equatoriana (para fazer uma autorização para a moto) e, finalmente, emigração equatoriana.
As estradas do sul equatoriano estão em péssimo estado como já tinham me avisado, mas pelo menos estão em obra e, ao que tudo indica, em breve estarão mais seguras. Quando entrei na estrada secundária para Cuenca, na região serrana, chegou à companhia do frio e da chuva. Ganhei a companhia de um carro com uma família equatoriana que, ao parar em um posto, disseram que estavam me protegendo e iriam comigo até Cuenca. O povo equatoriano é muito amável e nos poucos dias que estou pelo país já tive várias demonstrações disso. No caminho ganhei ainda um presente da natureza, uma enorme serpente atravessando a estrada bem na minha frente. Show!
Cuenca é considerada a cidade mais bonita do Equador, além disso, é a produtora oficial dos famosos chapéus panamenhos, imortalizados por personagens como, por exemplo, nosso saudoso maestro Tom Jobim. Receberam o nome de panamenho, pois, na época da construção do canal do Panamá, foram exportados em grande quantidade para proteger do sol os trabalhadores panamenhos.
Em Cuenca descobri que existem ainda várias qualidades de chapéu: normal ($15), semi-fino ($30), fino ($130) e superfino ($500). Um normal pode ser feito em algumas horas, um semi-fino leva uns três dias, já um fino, uma semana e um superfino, que pode custar até 10 vezes mais no mercado europeu, leva um pouco mais de um mês para ser elaborado.
Consegui um bom hotel e pude conhecer a cidade em pouco tempo. No domingo peguei um ônibus e fui conhecer algumas cidades próximas. Na segunda descobri na secretaria de turismo que Cuenca estava praticamente isolada do resto do Equador. Devido as fortes chuvas as duas estradas principais foram fechadas. Se quisesse sair da cidade teria que voltar pela estrada que vim, mas dificilmente chegaria muito longe, pois, próximo a Guayaquil, a estrada estava alagada.
Descobri também que o país está em Estado de Emergência. As chuvas normalmente começam em março e o mês de abril é o pior. Esse ano, devido ao fenômeno La Niña, o inverno equatoriano, como é chamado, começou mais cedo e com muita força. Várias pessoas estão desabrigadas e algumas mortes já foram contabilizadas.
Devido a situação climática, decidi reduzir minha estada no país. Estava disposto a conhecer a zona da selva e a costa, porém devo seguir pela serra em direção a Quito e de lá entro na Colômbia. A estrada de saída de Cuenca pela serra foi liberada no dia seguinte. Fui orientado a seguir com precaução para Riobamba, pois em muitos pontos apenas uma pista estava aberta. Saí de Cuenca na última terça e a viagem que era para durar 3 horas demorou 6 horas. A estrada estava muito perigosa devido aos inúmeros desabamentos.
Pedras e mais pedras apareciam na pista de uma hora para outra, boa parte do asfalto estava coberto de lama, e, em um dos pontos, houve um desabamento justo na hora em que passava. Por sorte estava com a moto bem no meio das duas pistas e as pedras não chegaram a me alcançar. O carro que estava atrás conseguiu desviar por pouco e vi pelo retrovisor a terra cobrindo a pista que tinha acabado de passar. Foram horas de tensão, frio e muita concentração.
Em Riobamba o grande atrativo fica por conta de um passeio de trem por "La Nariz Del Diablo". O trem sai as quartas, sextas e domingos. Cheguei à terça e tentei comprar passagem para a viagem de quarta, mas fui informado que as passagens geralmente acabam na primeira hora de venda. Minha chance seria a viagem de sexta, mas hoje, quinta-feira, quando fui comprar minha passagem as 07:30 da manhã, tinha um recado na estação de trem que graças as fortes chuvas e aos inúmeros desabamentos na linha do trem as viagens estavam temporariamente suspensas.
Só me restava então deixar a cidade e seguir para Baños, cidade famosa por suas piscinas de água termal, por ser base para a prática de muitos esportes de aventura e por ser a melhor porta de entrada para a selva equatoriana. Que São Pedro me ajude..
Fonte:
Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Cidade:
Huanchaco-EX-Peru Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Publicado: Fernanda Cristina Gonzales Ferreira Date: 21/02/2008
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