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O aventureiro Rodrigo Ventura faz uma volta pela América do Sul com sua moto que começou em março de 2007 e entra por 2008. Confira a trigésima sexta desta aventura:
O melhor de Cartagena são suas ruas apertadas do centro histórico, também conhecido como a Cidade Murada. Para evitar as constantes invasões de piratas ingleses e franceses, os espanhóis muraram a cidade de Cartagena e hoje esse é o grande atrativo da cidade. A arquitetura e as cores das casas também são fascinantes e em algumas praças pude ver esculturas, inclusive uma gordinha de Fernando Botero.
De Cartagena saem os barcos que levam até Las Islas Del Rosário. Um belo passeio por algumas ilhas do Caribe... e pela Playa Blanca "de águas azuis" de Baru, onde também é possível chegar por terra.
A Semana Santa chegou e as estradas colombianas ficaram entupidas de carros, por isso resolvi ficar em Punta Canoa e relaxar durante o feriado. A casa bem a beira do mar era o ponto ideal para passar esses dias e descansar um pouco da estrada.
Meu quarto ficava no andar de cima e ao acordar a vista que tinha era um "Bom Dia" perfeito.
Na segunda-feira depois da Semana Santa me despedi do José, o caseiro, e dos meus 3 fiéis companheiros. Estava na hora de voltar para a estrada. Minha primeira parada era o Parque Nacional Tayrona, onde iria acampar. No caminho passei num mercado e comprei comida para poder cozinhar. Na entrada do parque descobri que a moto deveria ficar no estacionamento e teria que encarar uma trilha de uma hora até o camping.
A trilha não seria nada se não tivesse um sol de rachar e se não tivesse que levar mais de 50Kg de peso: mochila de roupa, mochila de equipamento, bolsa de comida, barraca, lona e saco de dormir. Meu anjo da guarda trabalhou muito bem e, logo depois de sufocantes 10 minutos caminhando, passou um morador com uma mula e ofereceu o animal para levar minhas coisas. Foi um alívio e tanto.
O Parque Tayrona é um dos mais visitados na Colômbia e durante a Semana Santa esteve lotado, mas também não é pra menos. Muito verde, praias paradisíacas e tudo isso com muita segurança. Eu acampei na praia de Arrecifes, a mais concorrida, mas durante os feriados, quem quiser mais tranqüilidade, pode ir para outros camping's em outras praias.
A praia de Arrecifes é muito perigosa para banho, por isso diversas placas orientam o turista a caminhar pela areia até chegar em outra praia e de lá pegar uma trilha até La Piscina. La Piscina é uma praia longa e sem ondas, já que é totalmente protegida por corais. O caminho dura em torno de 30 minutos, ou seja, bem rápido para chegar num lugar tão bonito.
No dia seguinte voltei pela trilha e dessa vez não tive ajuda, tive que carregar meu peso. Pelo menos era bem cedo e o clima estava fresco o que me ajudou a fazer o percurso em 45 minutos. Terminei destruído, mas consegui.
Já na saída do parque entrei na reserva de gasolina, mas não me preocupei, pois a Colômbia é bem servida de postos de gasolina, ou pelo menos era. Só depois descobri, da pior forma possível, que desde a última briga com a Venezuela, a zona fronteiriça sofre com a escassez de gasolina. Fiquei totalmente sem combustível quando estava a 30Km da cidade de Riohacha.
Quando já me preparava para descer da moto e começar a empurrar, meu anjo da guarda mostrou mais uma vez que estava atento e me mandou duas motos da polícia. Um dos policiais se prontificou a me rebocar e assim fomos até a cidade. Tudo bem que o cara era louco e me levava a mais de 90Km/h. Foram momentos bem tensos, pois, qualquer erro dele ou meu, jogaria as duas motos no chão. Em Riohacha consegui gasolina no mercado negro, única forma de abastecer, e segui em direção a Cabo de la Vela.
Para Cabo de la Vela deixei a estrada principal e, depois de 40Km por uma estrada secundária, entrei numa estrada de terra. Os primeiros 50Km foram tranqüilos, mas os 20Km finais foram intermináveis. A terra deu lugar a areia e manter o controle da moto, cansado como já estava, foi difícil. Cheguei ao meu destino na metade da tarde. Outro paraíso. Acampei na beira da praia e, para tomar banho, tive que comprar um balde de água doce. O povoado não tem água encanada e nem luz elétrica, ou seja, completamente isolado.
Apesar de ser um paraíso, por ser muito isolado, Cabo de la Vela não é um dos lugares mais seguros. Vários moradores me alertaram para tomar cuidado com a barraca e com a moto. Cheguei a dormir com o canivete aberto ao meu lado e a moto na entrada da barraca, para dificultar qualquer tentativa de algum mal intencionado. Como não consegui relaxar no lugar, passei apenas duas noites e voltei para a estrada para, finalmente, entrar na Venezuela.
Não tive problemas para fazer a saída da Colômbia mas, na entrada da Venezuela, me informaram que para entrar deveria ter um seguro de responsabilidade civil para a moto. Óbvio que não tinha. Pensei rápido e resolvi arriscar. Com a maior cara-de-pau do mundo, entreguei o Bilhete de Seguro DPVAT da moto.
O DPVAT tem validade apenas no Brasil e somente no ano de vigência do documento, no caso 2007, ou seja, não serve para nada. Como os funcionários das fronteiras não entendem nada do que está escrito nos nossos documentos, bastou mostrar que estava escrito "Bilhete de Seguro" para o funcionário emitir a autorização que me fez rir muito, já que está escrito: "Seguradora - Seguros DPVAT". Pelo menos assim pude entrar.
Perdi muito tempo com os trâmites burocráticos e apesar de ter saído de Cabo de la Vela as 06 da manhã, seria muito difícil chegar a cidade de Mérida, na serra venezuelana, ainda de dia. Parei então em Maracaibo para dormir. Assim que entrei na cidade fui abordado por um policial de moto que me perguntou para onde iria. Quando disse que ainda não sabia ele se prontificou a me escoltar até um hotel, pois, segundo ele, dificilmente eu conseguiria achar um lugar para ficar sem ter a moto roubada antes. Quando me deixou no hotel me pediu para guardar a moto na garagem e tirá-la apenas quando fosse sair da cidade.
Acatei seu conselho e o máximo que fiz foi dar um passeio a pé pelo feio centro da cidade, tomando o cuidado de deixar relógio no hotel e levar a carteira na cintura e com pouco dinheiro. No dia em que estava por lá, o centro estava fortemente protegido pela polícia e pelo exército. Dois grandes caminhões chegavam com containeres carregados com algo que deveria ser muito importante, pois até os pedestres foram obrigados a desviar de caminho para que não se aproximassem da carga. Parecia até uma operação de guerra.
No dia seguinte saí bem cedo de Maracaíbo e, com um sol bem forte, fui para Mérida. Existem duas entradas, uma por montanhas que chegam a mais de 3.000m e outra totalmente plana. Como estava cedo, meu plano era ir pelas montanhas, mas andar pelo labirinto de estradas venezuelanas sem se perder é impossível. Primeiro que a quantidade de velhos V8 pela estrada é enorme, já que o litro de gasolina custa R$ 0,04. Isso mesmo, R$ 0,04 por litro da melhor gasolina, a 95 octanos sem chumbo.
Segundo que são muitas estradas, divididas em auto-pistas, principais, secundárias, terciárias e de terra. E terceiro que em nenhuma bifurcação existe uma bendita placa dizendo que direção tomar. Com esses fatores "a meu favor" acabei entrando na estrada plana. Ganhei bastante tempo, mas perdi a paisagem. Decidi então que, ao sair de Mérida, sairia pelas montanhas para finalmente poder conhecer a zona dos Páramos.
Mérida é uma cidade estudantil, por isso uma cidade jovem e cheia de vida. Além disso Mérida aparece duas vezes no Livro dos Recordes, primeiro pela Heladeria Coromoto, uma sorveteria com mais de 700 sabores, entre eles, cebola, queijo, macarronada e o meu predileto, cerveja, e em segundo lugar pelo teleférico mais largo e mais alto do mundo, saindo de 1.600m e chegando a 4.765m do nível do mar através de 4 estações. Em alta temporada é quase impossível conseguir conhecer o teleférico, mas em baixa temporada é bem fácil fazer o passeio e chegar ao "Teto da Venezuela".
Na terça-feira dia 01 de abril, saí de Mérida. Depois de bastante tempo de bom clima, o dia amanheceu com muita chuva e a neblina baixou. Em plena cidade a visibilidade não era de mais de 50 metros. Com esse cenário ponderei minha decisão e, por segurança, desisti de conhecer a perigosa estrada que atravessa o final, ou o início, da gigantesca Cordilheira dos Andes. Tendo tantas vezes atravessado a cordilheira, queria muito fazer esse caminho para que a expedição Pelas Curvas da América pudesse se despedir dos Andes, mas, com o clima que estava, isso seria uma clara tentativa de suicídio. Só me restou voltar pela mesma estrada que tinha utilizado para chegar a Mérida.
Saindo das montanhas o tempo melhorou muito e por isso optei por não ir a Coro por Maracaibo, mas sim por Barquisimeto. A estrada é cheia de curvas e bem menos movimentada. Acabei perdendo a entrada da estrada que me levaria a Coro e perdi um precioso tempo, por isso dormi em Barquisimeto por uma noite. A cidade é muito feia e depois de dar uma volta pelo centro achei melhor aproveitar meu tempo descansando no quarto do hotel. No dia seguinte saí cedo e continuei pelas curvas que me levariam a bela cidade de Coro.
Fiquei encantado com o Centro Histórico de Coro. Por ser muito bem conservado, Coro é a única cidade venezuelana considerada pela UNESCO como Patrimônio Histórico da Humanidade. Parei em um hostal super legal e de lá fui conhecer a bela Península de Paraguaná. Na península encontrei uma linda salina cor de rosa, a Laguna Colorada. A cor é graças a forte concentração de iodo do lugar.
Na península também conheci uma família de venezuelanos muito simpáticos, o Omar, a Ingrid e sua filha a Stephanie. Eles são de Caracas e acabamos fazendo uma bela amizade. Como no dia seguinte eles também iriam para Chichiriviche, combinamos de pegar a estrada juntos e assim eu pelo menos teria a certeza de que, ao menos dessa vez, não me perderia.
Minha idéia era voltar da península a tempo de ver o pôr-do-sol nos Médanos de Coro. Médanos em espanhol que dizer dunas, e esse é um dos lugares mais visitados dos turistas que chegam a cidade. Um pequeno, porém muito bonito, deserto formado de grandes dunas que separa a cidade do mar. Mas não consegui. Meu pneu dianteiro furou quando estava atravessando uma das cidades da península e perdi algum tempo para consertá-lo. Quando cheguei nas dunas o sol já tinha partido e me deixava uma luz bem tênue, suficiente apenas para fazer algumas fotos.
No dia seguinte tinha marcado com o Omar as 10:30 na entrada da estrada e assim teria tempo de ver o amanhecer nas dunas. Teria mas não tive. O pneu dianteiro da moto amanheceu vazio e tive que ir outra vez a uma "cauchera" para consertá-lo. Terminei tudo as 10:00 e tive apenas o tempo de correr até as dunas para poder subir em uma delas e conhecer o deserto de areia. Os ventos eram bem fortes!
Na companhia dos meus amigos não tive dificuldades para chegar a Chichiriviche. O primo do Omar tem uma pousada na cidade e ele me convidou para ficar em um dos quartos. Mordomia total, com direito a TV a cabo, geladeira e até ar-condicionado.
Chegamos na pousada as 13:30 e foi o tempo de tomar um banho e o Omar já estava me chamando para ir conhecer as praias. A praia da cidade é feia e poluída, mas a grande maravilha fica por parte das "diversas praias" das "diversas ilhas" que fazem parte do Parque Nacional Morrocoy. Pegamos um barco e fomos para uma das ilhas, Cayo Sal, onde passamos a tarde nos refrescando nas águas azuis do mar caribenho.
Agora estou em Caracas e sendo muito bem tratado pelo Omar e sua família, mas isso e minha visita a Choroni, eu deixo para o próximo relato. Uma coisa tenho que dizer: Venezuela é um país incrível!!!
Fonte:
Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Cidade:
Cartagena-EX-EX Fotos: Rodrigo Ventura - Expedições Solitárias Publicado: Thainá Costa da Silva Date: 14/04/2008
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