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Confira o relato de Nei Maldaner, que chega à cidade de Whati, NT, Canadá. Pela estrada de gelo dos lagos congelados. Foi uma aventura cheia de momentos eletrizantes, realizada em 5 de abril de 2008.
O caminho que saía da cidade de Behchoko, era a cerca de 10 km da Highway. Quando eu estava a uns 7 km, decidi ir até Whati. Esse foi um dos lugares que eu tinha ouvido falar a respeito.
É interessante, porque à Whati, no inverno, se chega de carro, e durante o resto do ano, só de avião. Isso, porque lá não existem estradas, mas sim muitos lagos que não são interligados.
Conferi o combustível, e vi que estava pela metade. Então andei mais uns 2 km e decidi voltar à cidade para abastecer antes de ir a Whati. Neste momento era em torno de 17h, e até às 21h, quando aconteceria o pôr-do-sol, eu chegaria lá. Me planejei para voltar até a meia noite.
Deu tudo certo. Voltei, abasteci e conversei com pessoas para pegar dicas sobre como ir a Whati. Segui feliz da vida por que estava me aventurando novamente. Eu percorreria 160 km de estradas, sobre gelo e neve.
Me falaram que o posto de gasolina ficava funcionando até as 23h, mas eu pretendia já ter voltado até esse horário. Seria uma boa experiência, na ida com sol e na volta no escuro. Ainda poderia pegar a aurora boreal.
Fui até a estrada e segui em direção à Edzo. Passei pela entrada da vila, e logo entrei na estrada de gelo, que se chamava Winther Road. Ali dizia em uma placa Winther Road Open. O sol brilhava como uma estrela e parei diversas vezes para fazer fotos, olhar e analisar a paisagem.
Meu peito explodia de alegria, por estar vivendo aquele momento. No final do lago maior, onde ficava a cidade Behchoko e Edzo, havia algumas elevações contrastando no horizonte. Também pelo caminho, vi sinalizações que alertavam para buracos no gelo.
Provavelmente o gelo estava começando ceder, pois estava no final do inverno. Fiquei sabendo que o uso da estrada este ano foi prorrogado porque ainda estava muito frio, com temperaturas sempre abaixo de 15 graus negativos. Estávamos no dia 5 de abril, desta forma, por mais uma ou duas semanas, poderia se andar sobre estas estradas.
Andei muito, passou por mim dois carros em todo trajeto.
No meio do caminho encontrei um posto chamado ENR, que era para checagem das atividades de caça e pesca. O nome da pessoa que estava lá era John. Ele me falou se eu não tinha caça, poderia seguir. Também comecei a falar um pouco com ele, ele foi muito engraçado e fiz várias perguntas sobre o local e sobre os animais.
O fiscal me respondia com brincadeiras, disse que não havia búfalos ou caribous por ali, mas que havia zebras, e ria muito. Um amigo dele também estava ali, e em frente ao posto, dois Snowmobiles estavam estacionados.
Fui convidado para entrar e tomar um café. Eu entrei, e vi que dentro da cabana havia uma cama, cozinha e um balcão de atendimento, tudo junto. Também vi uma lareira, que era tipo um fogão, e deixava o lugar bem quente e aconchegante, para um frio de uns -20°C que estava lá fora.
Na parede da cabana tinha um mapa com informações, John me explicou que eu teria que pegar a esquerda lá adiante e depois novamente. E disse que eu chegaria a Whati, em provavelmente mais 45 minutos.
Eu agradeci pelas dicas e falei que tinha um GPS, e nele havia a estrada de inverno. As informações do GPS combinavam com o que John me falava. Neste momento veio um carro que estava caçando. Enquanto um deles entrou na cabana para registrar as caças, fiquei conversando com o outro rapaz, que me falou onde se encontram os caribous.
Segundo ele, em uma região mais acima, bem perto do lago Rae Lakes. Eu planejava ir ver os caribous, e para isso iria alugar um avião com esqui, que faria pouso em um destes lagos. Ele também me falou que pela metade da manhã, os caribous e outros animais iam para os lagos, mas durante o resto do dia permaneciam nas matas. E que no verão sobem para acima da linha das árvores lá nas trundas.
Após conversar com os fiscais, segui adiante, mas parei algumas vezes para curtir o local, e comecei a filmar novamente. Na filmagem, eu comentava sobre o lugar e demonstrava minha alegria por estar ali, andando sobre lagos congelados. E notei falta de animais, pois naquela região não se encontrava nenhum.
O sol já se aproximava do horizonte, então procurei parar o mínimo possível, para chegar a Whati ainda de dia. Mesmo assim, estava dirigindo com cuidado, pois os lagos sobre onde eu andava, eram muito lisos e faziam muitas curvas. A maioria dos lagos a estrada de gelo não tinha camada de neve, deixando mais lisa ainda. Freiar nem pensar. Eu ja tinha uma experiência disso neste dia.
Deu saudades da Land Rover, pois com ela eu poderia andar com mais tranqüilidade e até fazer umas proezas. Mas como estava com carro alugado, tinha que tomar cuidado. Além do mais, eu não confiava muito naquele 4X4, porque em outro dia eu já tinha derrapado feio. E no dia também.
Felizmente não aconteceu nada, mas eu estava com cuidado redobrado. Era muito lindo ver o sol entre os pinheiros enquanto eu andava.
De repente, entrei em uma parte, onde o lado já estava descongelando, aí eu me preocupei mesmo. Vi que a estrada estava firme, mas o laguinho acima não estava muito congelado. Fui rápido, cruzando a parte mais perigosa, e segui direto para a cidade.
Na volta eu pretendia tirar umas fotos. O GPS estava me dizendo que a cidade era logo ali. Em seguida, a estrada se alargou mais uns dez metros, era muito bem feita. Comecei a ver terrenos cercados, e quando vi, já estava entrando na cidade.
A primeira casa era pequena, e tinha uma tenda de índio bem em frente. Ficava linda com o sol por trás, além disso, ela era rodeada de pinheiros. Parei para olhar como era feita, vi que, assim como muitas outras, seu topo era aberto. Deveria ser para sair a fumaça, quando se fizesse fogo internamente.
Lembrei das casas de índios guaranis do Brasil, que faziam o teto de taquara quebrada para que a fumaça saísse e não entrasse chuva, aqui era parecido. Depois eu iria descobrir como eles faziam para não entrar neve. Talvez seja o seu ângulo, por ser pontuda entraria tão pouco que não haveria problema.
No meio da rua vi duas pessoas jogando Hokey. Conforme fui me aproximando, o jogador tirou a goleira da estrada para eu passar, me olhou meio espantado e não falou nada. Comprimentei ele e ele respondeu. e continuou jogando. Continuei seguindo, até que vi um lugar com três bandeiras.
Deveria ser a prefeitura ou algo relacionado. No outro lado, avistei dois grandes pavilhões, que acho que era o Multiplex que existe em cada cidade, era um ginásio enorme.
Comecei a ouvir um barulho de muitos snowmobiles andando, até que apareceu muitos, indo e vindo, alguns aceleravam muito. Então vi uma coisa que me marcou demais.
Vi um jogo de futebol acontecer na neve, em uma quadra de neve e gelo, com duas goleiras e algumas pessoas jogando. Fiquei surpreso, pois jamais esperava isso. Em um lugar remoto, no norte do Canadá, onde só há estradas no inverno, vi pessoas jogando futebol.
Antes de outra coisa, fui fazer o reconhecimento da cidade, pois ainda havia sol. Vi muitas casas com Snowmobiles na frente, e os carros estavam enterrados na neve. Me perguntei: Se eles não usaram o carro no inverno, como usar no verão, quando não têm estradas? Então para que carro?
Foi rápido, já tinha girado pela cidade duas vezes. Resolvi ir ao lago que banhava a cidade. Lá, o sol já estava amarelo, e logo tocaria o horizonte.
No caminho, encontrei o pessoal que estava jogando bola, eles já tinham parado. Então parei e falei com eles, disse que era do Brasil e perguntei se eles gostavam de jogar futebol. Mas nessa hora, a gurizada só estava tirando onda com um deles.
Eu estranhei um pouco a cidade, pois não era tão amistosa quanto as outras. Algumas pessoas passaram por mim e nem me cumprimentaram. Decidir ir à ponta da cidade, um lugar que ficava de frente para o lago.
Fiquei ali filmando o pôr- do- sol e tirando fotos. Era interessante ver os barcos congelados, enterrados na neve. Os carros também coberto por muita neve. Só snowmobiles estavam em frente as casas que mostram aparência de uso.
O Por do sol estava incrível. Aquela bola de sol vermelha, diferente do Brasil, que é mais amarelada. Curti cada minuto do por do sol, filmei todo ele.
As pessoas passavam ali perto, pois tinha uma trilha de snowmobile, olhavam para mim e seguiam para trilha acelerando.
O sol estava entre as nuvens, e eu usei minha lente de 800 mm para fazer uns closes, enquanto a filmadora registrou todo o por do sol.
Assim que ele se pôs, decidi que era hora de voltar, seria uma longa viagem e eu queria passar pela parte descongelada antes de escurecer.
Quando eu estava saindo da cidade e fui fazer uma foto minha para ter de lembrança, chegou um Snowmobile com um menino e uma menina, perguntando de onde eu era, expliquei a eles, e eles se despediram.
Enquanto eu tirava fotos, um cachorro chegou em mim muito alegre. Mas estava muito frio, e eu não queria tirar o tripé para fazer uma boa foto. Além disso, eu precisava seguir logo o caminho de volta.
De acordo com o GPS, eu estava a 168 Km de Yellowknife e a 71 Km de Behchoko, e chegaria de volta às 23:40. Mas isso foi calculado sem eu parar nenhuma vez, o que seria praticamente impossível.
Enquanto voltava já escurecia, e quando cheguei, parte do lago estava descongelado. Parei, fiz fotos, e joguei um bloco de gelo para ver se estava derretido. Aí vi que havia uma camada de gelo com água sobre ele.
Passei de carro e vi que não poderia deslizar, pois o lago que ficava abaixo da estrada, afundava. Então andei com o carro na valeta de gelo, ele deu uma deslizada, mas consegui passar, foi muito tenso. Na vinda, foi mais fácil, mas como na volta, parei e fui devagar, assim ele desliza mais fácil.
Na passagem foi temerosa, ele deu uma deslizada, e encaixou na valeta, isso foi bom asism passei, acelerando um pouco. Ufa !!!
A partir daí, eu passava por subidas e descidas, e cruzava pelos lagos.
Parei diversas vezes. Era muito legal ver aquele momento, para mim é um momento mágico, após o por do sol o céu fica um azul turqueza incrível.
Quando eu cheguei à cabana de fiscalização já estava tudo escuro. Voltei a falar com o John e o amigo dele. Parei para tirar algumas fotos e logo fui conversar com eles.
O cara era muito divertido, morava ali. Perguntei a ele quantas pessoas vivem no local, ele disse que além dele, só uma, sempre na brincadeira. Sentei um tempo ali e o ouvi falar sobre o lugar, agora um pouco mais sério. Ele explicou sobre a região, no mapa. Aí acabou a luz, e foi ligar o gerador.
Decidi seguir viagem, pois levaria muito tempo para chegar a Yellowknife. Segundo o GPS, a previsão sem parar, era para a 1h da madrugada. Eu já tinha perdido uma hora nas paradas e conversas. Mas valeu a pena, porque eu estava gostando muito.
Não andei muito, pois depois de meia hora, olhei para fora do carro e vi as aurora boreal. Fotografei um pouco e segui viagem. Após andar mais um pouco, parei e vi que a aurora estava incrível, com alta intensidade. Fiquei ali tirando fotos por mais de duas horas. Ela estava constante, nunca tinha visto isso.
Mantinha a luz do carro desligada, pois assim não atrapalhava minhas fotos e a visão da Auroa, mas com isso tinha q desligar o carro, e também ficava frio rapidamente dentro do carro. Mas valia a pela pela beleza. Mas eu sentia frio, não dava para ficar sem luvar e sem a balaclave.
Duas vezes apareceram carros, eu corria até o meu carro e ligava a luz para sinalizar o carro. Estava lindo demais ver a aurora. Esqueci do tempo, e que ainda tinha 140 km para ser percorrido.
Tentei filmar, mas não deu certo, porque faltava um tripé, mas eu o usava para minhas fotos. E o frio tmbém não deixava eu fazer muita coisa. Estava bem vestido, não sentia frio no corpo, nos pés. Mas incomodva nas mãos e no rosto. Meu nariz, as faces e o queixo pareciam que estavam anestesiados.
De repente, surgiu uma luz da aurora com intensidade muito forte, e muito colorida, como eu nunca tinha visto nos meus quase dez dias em Yellowknife. Muito colorido, eu gritava de alegria, mas mesmo assim sentia o frio e o carro não estava ligado, por causa da luz e para poupar combustível.
Foi um momento incrível, as Northern Lights estouravam como fogos de artifício, em cima da minha cabeça, com as árvores ao meu redor. Eu gritava de alegria. Vi uma luz na minha frente, mas ela não parecia se aproximar, então procurei colocar o carro em um lugar que não fosse na estrada. Foi bom que eu tinha aquela luz de por na cabeça e uma lanterna em minhas mochilas, foi bom para me organizar.
Fiquei ali por mais um tempo e depois fui para frente, onde havia um lago grande com um carro parado para ver a aurora boreal. Parei ali na frente e ele seguiu viagem, eu fiquei tirando mais fotos, e contemplando aquela paisagem celeste. Até dançava ao ver aquilo tão lindo.
Era uma sensação e visão forte. Foi quando eu escutei um barulho vindo do mato, ao meu lado. Usei a lanterna para tentar localizar, mas não vi nada. Provavelmente era um caribou. Fiquei um pouco atento pois abril em diante os ursos estavam acordando.
Segui adiante, e a aurora não parava. Eu já estava no lago em frente a Behchoko, onde fiz mais umas fotos. Fiquei envolvido com a aurora por três horas, ela não parava de aparecer. Eu estava com muita adrenalina, queria fazer uma boa foto da aurora comigo junto, mas não conseguia, por causa do foco, que não se acertava e do frio intenso.
Acho que com o vento, a temperatura chegava aos -30°C. Apesar da forte roupa, eu não agüentava mais ficar ao relento. Sem bala clave não dava para ficar, sem luvas também não. Nessas condições, normalmente a temperatura estava em torno de -20°C.
Deveria ser umas 3h da madrugada, decidi seguir viagem, e logo após entrei no asfalto - foi quando começou a me dar sono. Que fria, se eu parasse para dormir, ficaria sem combustível, além do mais, não havia acostamento para dormir.
Eu já tinha descartado fazer a cobertura da corrida de cães do dia seguinte. Como o importante era dirigir com segurança, resolvi parar, mas não achava um lugar para estacionar. Parei várias vezes, sai do carro, me agitava para não pegar no sono. Por diversas vezes me peguei quase dormindo, UI.
Foi um perigo, então decidi que era melhor parar e dormir. Felizmente achei um lugar para estacionar, parei ali, desliguei o carro, me ajeitei de qualquer jeito e dormi. Após umas três horas de sono, acordei todo dolorido, pois dormi de mau jeito. Além disso, o frio deixa a gente muito cansado, agora entendo os ursos (risos).
Já amanhecia, continuei em direção à Yellowknife, quando cheguei à cidade, o sol já estava nascendo. Como não tinha comigo nada no dia anterior, nem na noite, passei no Tim Horton e comprei os meus Honey Dips e um chocolate quente. Depois disso, fui direto para o hotel para dormir mais um pouco.
Eu tinha passado por muitas emoções no dia anterior, inclusive por três momento perigosos: a deslizada no gelo, a travessia do lago com partes descongeladas e a volta com sono.
Mas felizmente tudo ocorreu bem. Com o aprendizado que vamos adquirindo, cada vez mais somos capazes de evitar problemas assim.
Abaixo o link para o roteiro pelo google.
http://maps.google.com/maps?f=d&hl=pt-BR&geocode=&saddr=yellowknife&daddr=whati,canada&sll=63.14378,-117.27096&sspn=18.339273,69.082031&ie=UTF8&ll=63.00825,-116.596527&spn=0.56906,2.158813&t=h&z=10
Fonte:
Nei Eugenio Maldaner Cidade:
Whati, NT, Canada-EX-Canada Fotos: Nei Eugenio Maldaner Publicado: Ananda Franco Garcia Date: 05/04/2008
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Sobre o lago congelado
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Estrada entre um lago e outro
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Fiscalização
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John o fiscal me explicou o caminho.
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Caçadores de snowmobile
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John e amigo.
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John
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Bem sinalizado
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O sol baixava lentamente brilhando a minha frente.
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Quando não era lago era pinheiros.
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Cheguei na cidade antes do por do sol.
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Snowmobile por toda cidade, e frio -20
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Não acreditei, estavam jogando futeboll, e com 20 negativo.
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Fiquei curtindo o por do sol.
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Barcos...
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Snowmobile até para brincar
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