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Nei Maldaner em sua passagem por Ulukhaktok (Holman), NT, Canadá em abril de 2008. Local considerado um dos mais remotos e originais do Canadá. Com temperaturas inferiores a 20° negativos.
Já era de tarde. Saí do hotel com um céu lindo e claro, sem nuvens, seco, porém frio. Pelo jeito como o pessoal se vestia, os termômetros deveriam estar marcando menos de 20 graus negativos. Eu estava vestido com as roupas de snowmobile, e preparado para suportar bem até uns 40 graus negativos.
Em frente ao hotel, havia alguns snowmobiles estacionados, eram do pessoal que estava almoçando ali. A cada minuto, mais e mais snowmobiles passavam rápidos, com ou sem caroneiros. Por ali também passou um caminhão, que recolhe os sanitários. Deve ser o único caminhão na vila.
Segui em frente para olhar a cidade, bem em frente, vi uma igrejinha, e passei por lá. Mas como a igreja estava fechada, Observei-a de fora, os detalhes, o sino, o telhado e continuei seguindo pela vila em direção oposta ao mar, bem ao centro da meia lua que a vila formava de frente para o mar. Passei por mais duas ruas, e a vila terminou. À minha esquerda, pude ver uma escola bem grande, e ao lado, descobri dois iglus, não acreditei no que estava vendo, eles eram quase da minha altura.
Fui conferir os iglus, ver como eles eram feitos, ambos tinham duas entradas, uma de cada lado. Aliás, uma das entradas ficava abaixo da linha normal da neve, provavelmente era para evitar a entrada de vento ou neve. A entrada era bem justa tinha se rastejar. Dei uma conferida por dentro, uma parte era mais baixa do que outra, era onde as pessoas se sentavam.
Então continuei minha exploração pela cidade, depois eu viria para filmar e entrar ali. Atrás da cidade havia um morro, decidi ir até lá para obter uma vista amplificada da cidade. Este morro ficava bem atrás vila, e assim daria para ver a forma de meia lua da vila.
Fiquei impressionado com as formas feitas pela neve ali atrás, eu soube que uma semana antes, acontecera uma tempestade de vento, provavelmente por isso estas formas na neve. Lindissimas, então tirei algumas fotos. Em partes onde o angulo das rochas eram verticais dava para ver as rochas. Com isso havia pedras cobertas por vários fungos, principalmente vermelhos, acho que aquilo era cobre ou algo parecido.
Parte da neve era fofa outras mais duras, tinha horas que afundava até o joelho. Mas com calma fui subindo, escolhendo melhores caminhos.
Subi até o topo do morro parando várias vezes, para observar e tirar umas fotos daquelas formas esculpidas pela natureza. Pena que estava me faltando uma lente wide, que eu tinha deixado na mochila. No proximo dia, eu voltaria para lá. Chequei ao topo do morro, podia observar toda a cidade de cima, e oceano ao lado e na frente.
Ali de cima eu vi um morro na minha esquerda e outro maior à minha direita. Pensei em ir a estes morros para conferir a vista de lá. Porém, neste mesmo instante, vi muitas crianças saindo do colégio em direção a uma inclinação, percebi que todos levavam uma lamina para fazer tobogã.
Mudei meus planos decidi ir lá ver eles brincarem na neve.
Tive muito cuidado ao subir e descer o morro, porque entre as pedras poderia haver buracos na neve, tipo gretas. Então resolvi descer devagar, com mais segurança.
Até que cheguei a uma parte, quando dei uma descida de bunda, foi muito legal! Desci do morro e fui em direção às crianças. Ainda quando cruzei nos iglus, dei mais uma olhada neles, era muito interessante observá-los.
Quando cheguei à lomba, que era o tobogã, a criançada estava na maior festa, e eram supervisionadas por duas professoras. Comprimeitei a professora e ela me explicou que era uma aula de atividades físicas, e nada melhor do que usar o meio ambiente.
Era incrível ver as velocidades em que elas desciam, a lâmina de plástico fazia as crianças andarem mais rápido ainda. Iam de dois a três juntos, na maior festa. As vezes na descida derrubavam outro que estava subindo.
Elas vestiam suas roupas de inverno, lindas, as crianças e as roupas. eu estava explodindo de alegria, adoro crianças, ainda mais felizes assim, lindas, e com aquelas roupas coloridas, com aqueles capuzes de pele.
Fiquei ali com eles, tirando fotos e conversando com as professoras. Logo, algumas crianças vieram brincar comigo: um menino colocava seu chapéu em minha cabeça, eu devolvia e ele de novo colocava em mim. ria demais. Uma menininha colocava neve na minha mão. Eu dizia que não que era gelado, brincando, ai ela ria demais e vinha e colocava novamente. Quando vi, estava eu ali, me divertindo no meio de toda a criançada, estava tudo muito 10!
Todos se aproximavam e perguntavam meu nome, e depois ficavam me chamando para ver eles descendo no tobogã. Foi um momento demais! Me senti muito bem ali.
Em uma descida, uma das crianças bateu seu joelho contra um trenó velho que estava lá embaixo. Eu levei um susto e sai correndo para ajudar, e chamei as professoras. Uma delas perguntou para a criança, onde doía, a criança chorando, mostrou o joelho.
Como a professora viu que não era nada grave, deu um beijinho no machucado e a criança parou de chorar. Achei isso muito 10, e percebi que as crianças são todas iguais.
Se passou um bom tempo até terminar a aula e todos irem para suas casas. As professoras recolheram as lâminas, e eu decidi seguir até o outro morro, que ficava no lado esquerdo da vila.
A vila estava deserta, porém, de vez em quando um snowmobile cruzava por mim. O frio era muito, eu estava bem agasalhado, mas sentia frio nas mãos e no rosto, tinha deixado a luva e a bala clave no hotel. Mas decidi conhecer o morro da esquerda mesmo assim.
Eu observava cada casa, a estrutura delas, quase todas tinha um segundo andar. Ou seja, um porão e acima o segundo andar, deveria ser por causa da neve. Tudo ao redor da casa coberto pela neve, só os snomobiles que não estavam. Quando cheguei ao final da rua, vi uns cachorros atados lá embaixo, sobre o mar congelado.
Decidi me aproximar daqueles cães, eles eram diferentes dos cães de corridas, eram os Huskys. Estes cães são mais fortes e não usados nas corridas mas sim para carga e para caça e no meu gosto são mais bonitos. Também avistei uma série de barcos afundados na neve. Achei aquilo muito interessante, me lembrei do pessoal que gosta de barcos, deveria ver aquilo. No caminho até os cães, comecei a afundar o joelho na neve fofa. Fui com prudência, pois não sabia como era o terreno.
Como estava difícil chegar até eles, decidi fazer a volta e ir em direção ao morro. No meio das casas, via muito quadriciclos cobertos e afundados na neve, além de alguns snowmobiles. As casas eram simples, e ninguém aparecia, nem na janela ou na porta.
Os cães ficaram olhando eu me afastar, e começaram a se movimentar e latir, paravam e me olhavam, como se pedissem para eu ir até eles. Para minha sorte, vi outros cães na direção ao morro, eu adoro cães.
Então me aproximei, eles se movimentavam, olhavam para mim, e davam alguns uivos. Pelo jeito de agir, pareciam mais lobos do que cachorros. Fiquei lá um tempinho observando-os, vendo as diferenças entre eles, principalmente em seus olhos. E depois continuei a minha caminhada para o morro da esquerda. Os cães pulavam pra lá e para cá, latiam e paravam para ver se eu voltava. Segui em frente em direção ao morro.
Quando notei, eu já estava caminhando sobre o mar congelado, provavelmente o morro era uma ilha ou uma ponta. Ali pude ver as ondas congeladas, eu mal acreditava, achei o máximo! Prometi voltar ali no proximo dia e tirar melhores fotos, com uma lente wide.
Adorei aquelas formas, eram lindas demais. Novamente, eu afundava até o joelho. Procurei contornar aquelas ondas lindas, para não estragá-las, principalmente porque queria fotografá-las no outro dia. Fui subindo até chegar ao morro.
Curti cada passo daquela caminhada, olhei o sol, a vila, o mar, e os snomobiles cruzando com treno rebocados eram os caçadores, que chegavam e saiam. Vi pelo menos dois grupos saindo e um chegando com os snowmobiles rebocando um ou dois trenós de madeira. Nos trenos eles levam mantimentos e os cães.
Ali de cima, quando sentei, pude ver a primeira florzinha da primavera querendo sair, pois estava terminando o inverno, ou ainda era seca que ficou do outono. Subi até o topo, fiquei um tempo ali sentado, e me lembrei de fazer um símbolo, como a gente vê em muitos lugares, um símbolo de pedra. Então juntei as poucas pedras que estavam soltas, pois a maior parte delas estava coberta de neve.
E montei meu Totem. Bem ao estilo dos que eu tinha visto pelo Canadá, ficou bem legal. Tirei fotos de mim com ele, e fui descendo novamente. Eu poderia ficar o dia todo ali, mas queria explorar o outro lado.
Na passada de volta, cheguei aos cães novamente. Foi super legal, eles já estavam ficando meus amigos. Chegaram a se sentar, os latidos eram poucos, e bem amistosos. Depois segui para a vila que praticamente começava ali. Na vila, vi um menino tentando andar de bicicleta na neve - o que é uma raridade por ali, parei para conversar um pouco com ele.
Ali ao lado vi um cara arrumando um snowmobile, fui lá pra conversar, e aprendi sobre os problemas que acontecem com o veículo, e como eles os resolvem. Ele estava consertando o snowmobile com um papel de revista, pois não tinha a peça, que era uma junta. Foi fantástico. me lembrei dos mecânicos de Porto Alegre.
Com ele também aprendi sobre as caçadas. Ele perguntou se eu era caçador esportivo, eu disse que não. Mesmo assim, aprendi sobre esta prática, que é o principal sustento deste povo.
Eles caçam ou levam os caçadores, por 7 mil dólares por pessoa e por 2 semanas. E o destino é o Artico, pois todo mar é congelado alí até maio ou junho. O homem me falou que leva os cães nos snowmobiles. Me mostrou os cães dele que estavam ali no mar em frente a cidade. Eu e ele ficamos conversando muito sobre as caçadas e sobre a vida deles..
Continuei o caminho em direção a outro morro, atravessando a cidade. No percurso, encontrei algumas pessoas, que me viam e me cumprimentavam, os snowmobiles não paravam de passar por mim.
Estava entardecendo e logo iria comecar o pôr-do-sol,. O sol se movimentava lento. Já tinham me falado que no inverno não tem sol, que é noite o tempo inteiro, e cada dia que passava tinha mais tempo de dia e menos de noite, assim no verão é dia o tempo todo. Que show isso, eu já tinha tido esta experiencia de dia o tempo todo na minha viagem da antártica. Foi uma grande experiência.
Olhei para o céu e não vi nuvem alguma era lindo ver aquele céu límpido, sem poluição.
No caminho, passei no hotel, mas não havia mais ninguém lá dentro, e o bar estava fechado. Saí em direção ao sol, no outro morro. O sol andava rápido, e eu senti falta da minha lente grande de 800 mm que tinha deixado no hotel em Yellowknife, era muito grande para trazer e ficar tão pouco tempo, mas poderia tirar fotos do sol, bem de perto, ficaria lindo, pois estava muito redondo e vermelho.
Agora já começava o pôr-do-sol, mas ele era lento.Notei que ele não descia reto, e sim em diagonal.
Eu já tinha percebido isso lá em Whati, e aqui ficava claro. As nuvens no horizonte também marcavam o pôr-do-sol. A neve, que era branca, começava a ter tons diferenciados.
Fiquei ao pé do morro da direita tirando fotos e observando o sol se pôr. À minha frente, um monte de trenós velhos e abandonados parcialmetne cobertos pela neve. Enquanto o sol desaparecia no horizonte, decidi subir o morro para observar o sol lá de cima, e também a vista da vila.
Na subida do morro, tinha partes que já não tinha neve, e uma trilha de quadriciculo provavelmente, no caminho passei por um pequeno cemitério. Olhando para cima consegui ver dois totens de pedra, um em cada morro, pois ali o morro se desdobrava em três elevações e eu via a primeira e a segunda a terceira não dava mais pra ver ficava atrás da segunda elevação. Com o sol se pondo, consegui ver a lua, era interessante, ela seguia o sol, e estava crescente.
Fui subindo e passei direto pela a elevação do meio, onde havia dois grandes símbolos, em forma de cone. Segundo me contaram, eram símbolos centenários.
Curti demais a subida, a visão era ótima, eu ficava olhando para todos lados.
Eram maravilhosas as tonalidades, e mudavam a cada momento, ficando tudo um tom azulado.
As luzes da vila começavam a aparecer, eu estava distante, então para mim, elas eram bem pequenas. Via o carro da policia da comunidade, que passara por mim quando estive tirando as fotos do pôr-do-sol, andar para lá e para cá.
Ali, nos símbolos em forma de cone, que eram feitos de pedra empilhada, fiquei analisando. Pareciam ser simples de fazer, mas foi muito bem montado, para ficar assim por anos e anos.
Tirei fotos deles e eu entre eles. Uma das fotos ficou muito boa eu saltando, que é minha mrca quando estou muito feliz tenho vontade de voar, saltar. Decidi não ir à terceira elevação, deixaria para o próximo dia. Iria para a primeira elevação. Fui fazer o caminho direto, e vi que por onde eu desceria para chegar à primeira elevação, era um declive cheio de neve e bem vertical.
Pensei em resvalar, mas não seria prudente. Fui de volta pela frente, descendo a elevação, contornei e fui a outra. Ali, a neve fofa fez novamente eu afundar até o joelho.
Eu fui com cuidado, era noite e o lugar era cheio de pedras cobertas por neve, lindo de ver, porém perigoso, pois a subida era vertical. Subi até chegar ao topo, mal acreditei que subi aquilo olhando pra baixo.
Também havia algumas pedras que formavam outro símbolo. Não fiquei muito tempo ali, pois comecei a sentir muito frio. Minhas luvas faziam falta, meu queixo e face também precisavam de proteção. Meu queixo ja estava adormecido, parecia anestesiado, as faces também. Foi difícil descer, tentei outro caminho e tive que me pendurar entre pedras.
Pensei: como eu consegui subir? Foi difícil, minhas mãos estavam muito geladas, os dedos já não dobravam direto, e eu estava com a máquina pendurada no pescoço, fui descendo com cuidado. Sai da elevação e desci morro abaixo, pude ver uma trilha de quadriciclo.
Dava para ver, pois ali a neve já tinha derretido em algumas partes do morro. Vi uma grande rede de pescar, semi coberta pela neve. Fui andando e cheguei ao cemitério novamente.
Assim que passei pelo cemitério, vi um vulto do outro lado e umas vozes gritando. Vi que era apenas alguém que tinha subido o morro no outro lado, e a mãe da pessoa estava gritando para ela, da vila na lingua nativa deles. Fiquei observando, tentando ver quem era, mas era muito escuro. Se fosse outro, diria que era assombração.
Voltei tremendo de frio para o hotel. Quando cheguei lá, vi ali na frente da vila muitos snowmobiles estavam chegando, vinham do mar e ficaram ali no mar congelado. Eram os caçadores chegando da caçada. Como estava escuro e meu flash estava quebrado, decidi pegar a filmadora e filmar a chegada deles.
Fonte:
Nei Eugenio Maldaner Cidade:
Ulukhaktok (Holman),NT, Canadá-EX-Canada Fotos: Nei Eugenio Maldaner Publicado: Ananda Franco Garcia Date: 08/04/2008
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Vista da Vila
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Enseada da esquerda
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Morro da esquerda
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Festa das crianças
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O menino está no ar, atropelado pelas gurias.
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Barcos...
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O mar
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Cacadores partindo.
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