Eu sempre tive vontade conhecer os Lençóis Maranhenses, mas não no esquema tipo “CVC”. Eu queria ir com minha moto, curtindo as paisagens, pelo litoral, dunas e trilhas.
Iniciei a viagem em 2006, quando sai de Salvador a bordo de uma XT 600 com um amigo de Sahara 350. Nosso plano era sair de Salvador e ir até os Lençóis Maranhenses de moto, indo o máximo de tempo possível pelas praias. Conseguimos ir até Jericoacoara nesse esquema.
De lá tivemos que voltar porque meu companheiro de viagem recebeu um telefonema da irmã, dizendo que ele tinha passado no concurso da Petrobras. De certa forma, foi até bom viu? Eu iria sofre muito com a XT com pneu liso e carregada naquela areia toda, sem contar que meu amigo não era muito fã de areia.
Quis o destino que uma revista semanal caísse em minhas mãos noticiando que o governador de Minas, o Aécio Neves, tinha ido de Jericoacoara aos Lençóis Maranhenses de moto off Road. Fiquei pensando, se ele foi, eu também posso ir! Comecei a pesquisar sobre empresas que faziam este tipo de passeio. Encontrei a Dust Off Road ( www.dustoffroad.com.br), de SP.
Liguei para eles, que são "super gente boa", e comecei o planejamento para a viagem. Formei um grupo de amigos aqui na Bahia que se interessaram pela viagem. Tudo certo! Seriam 4 pilotos: Eu, meu irmão e mais 2 amigos.
A Dust passaria aqui na Bahia, pegaria nossas motos de caminhão e levaria junto com as motos do pessoal de SP direto pro Ceará. Tudo marcado pra acontecer na semana do feriadão de 1 de maio.
No entanto, esqueceram de avisar pra uma pessoa: São Pedro. Choveu muito na região e a Dust foi obrigada a cancelar o passeio ou teríamos que fazê-lo de Jet Ski - Tristeza geral.
Mas, não me dei por vencido, renegociei minhas férias e decidi que iria de qualquer jeito à semana do feriadão de Corpus Christi. Devido a mudança de data, apenas eu e meu irmão continuávamos no pareo, nossos dois amigos já tinham compromissos agendados.
Conversei com meu amigo Ávila lá de Jijoca de Jericoacoara, que me recomendou que eu entrasse em contato com o guia Janilson, da Clip Ecoturismo (www.clipecoturismo.com.br). Eu iria rebocar nossas dois Tornados a bordo de um Corsa 1.0 por 1.500 Km de Salvador até Jericoacoara e lá encontrar o Janilson, que nos levaria até os Lençóis Maranhenses.
Eu perderia dois dias pra ir e dois dias pra voltar, sem contar o risco e o cansaço. Foi ai que o Janilson me sugeriu que eu alugasse as duas motos com ele - brilhante idéia! Nós iríamos de avião até Fortaleza, de lá pegaríamos um transporte pra Jeri e pronto, o sonho iria se realizar e se realizou!
Chegamos a Jijoca de Jericoacoara na noite do dia 16 de maio. Janilson já nos esperava na churrascaria do nosso amigo em comum, o Ávila (www.churrascariadoavila.com.br), com uma CRF 230 e uma TTR 230, novinhas em folha. Apossei-me logo da CRF, sobrando a TTR pro meu irmão. Janilson iria de Tornado, bem mais pesada.
A aventura começa na manhã do dia 17, sábado. Avila nos leva por algumas trilhas, até chegarmos em Tatajuba. De la pegamos a praia, estradas de areia e algumas dunas em direção a balsa que nos levaria a Camocim, ainda no estado do Ceará.
Abastecemos as motos em Camocim e fomos em direção as dunas da Praia do Maceió. Parece um mini Lençóis Maranhenses, muita duna alta e muitas lagoas de agua limpíssima, formada pelas fortes chuvas que caíram na região.
Andamos forte nas dunas, com as 230. As motos estavam nos surpreendendo, devido a sua força, toque e leveza. Pegamos uma trilha de areia fofa e mato fechado até chegarmos a Chaval, fronteira com o estado do Piauí.
De Chaval a Parnaíba - PI, pegamos só trilhas fechadas com muita areia, perfeitas! O Janilson acelera forte, tínhamos que torcer o cabo das 230 para acompanhá-lo. Pegamos pouquíssimos estradões e asfalto neste primeiro dia onde rodamos ao todo 270 Km. O Janilson conhece muito bem a região.
Chegamos a Parnaíba pelas dunas do Portinho, já no final do dia, mortos de cansados e de fome! Deixamos as motos em uma oficina para lavagem, lubrificação e aperto de corrente e fomos para uma churrascaria matar a fome.
No outro dia acordamos cedo, tomamos café, pegamos as motos na oficina, abastecemos e pegamos o caminho do porto dos Tatús, próximo a Parnaíba. Tivemos que cruzar a fronteira entre o PI e o MA de barco, pois as fortes chuvas derrubaram uma ponte que liga Parnaíba a Araioses, no Maranhão. O percurso que seria de 20 minutos de moto se transformou em 1 hora e meia de barco.
Chegando em Araioses, aceleramos em direção a Barro Duro. Neste trecho pegamos uns 80 Km de estrada de areia muito fofa, o que virava uma verdadeira trilha. Pegamos também um trecho de 11 Km de areia fofa e mato fechado andando dentro da cava formada pelos pneus das Toyotas Bandeirantes.
Minha CRF não tinha protetor de mão, o que me fez levar muita porrada dos galhos que ficavam a beira da estrada. Tinha que ficar alternando as porradas, hora na mão direita, mudava de cava, hora na mão esquerda.N este trecho tínhamos que andar em alta, as vezes com o guidon da moto empenado nas cavas, muito bom!
Paramos para almoçar logo no inicio da estrada que nos levaria a Paulino Neves, em um restaurante a beira de uma lagoa. Mergulho básico pra matar o cansaço. Pegamos a estrada pra Paulino Neves, pra variar, muita areia e poças de água enormes. Chegamos em Paulino Neves e tínhamos um problema: Para chegarmos as dunas, que nos levaria até a praia e de lá, para Caburé, tínhamos que descobrir um caminho entre os verdadeiros rios formados pelas chuvas.
Quase uma hora depois, descobrimos que o único jeito era subir uma duna com um espaço muito curto pra pegar velocidade. Deu certo, as bravas 230 subiram na boa, conseguimos chegar em cima das dunas. Visual fantástico.
Andamos muito tempo na lateral das dunas, em frente ao mar. Qualquer acelerada mais forte e as motos iam jogando a traseira para baixo, pois os pneus ficavam com apenas uma pequena parte em contato com a duna. Qualquer vacilo era chão, quer dizer, areia.
Pegamos a praia com a maré bem cheia em direção a Caburé, na foz direita do Rio Preguiças. As motos sofreram neste trecho, pois tínhamos que andar com o cabo todo torcido pois só nos restava a areia fofa da praia para passarmos.
Chegamos a Caburé no final da tarde. Ficamos na pousada Porto do Buriti. Muito boa, na beira do rio, tem até piscina. Quem não dispensa um ar condicionado, ou um bom banho de água quente, esqueça Caburé.
Lá não tem energia elétrica, só gerador, que é ligado poucas horas a noite. Acordamos cedo e pegamos um barco já previamente agendado pelo Janilson para cruzamos o Rio Preguiças em direção a Atins, porta de entrada do Lençóis Maranhenses pelo litoral.
Em Atins também não tem gasolina. O Janilson conhece um pescador que foi até Barreirinhas pelo rio para comprar gasolina para nós, quando chegamos a gasolina já nos esperava em um vasilhame.
O Janilson é o cara. Ficamos na pousada O Rancho(http://www.ranchopousada.com/), do figuraça, Buna. Buna é artista plástico, faz peças em madeira que encontra na praia. A pousada do Buna tem piscina e energia elétrica, porém, como é monofásica, nada de ar condicionado ou chuveiro elétrico, só ventilador mesmo.
O café da manhã é muito bom, recomendo. Depois do check in, fomos conhecer a cachoeira do Bonzinho, que é formada pelas águas que escorrem dos Lençóis que estão abarrotados de água nesta época do ano. Uma cachoeira de água doce e quente na beira do mar, surreal.
Ficamos umas 3 horas curtindo a cachoeira, na maior prega. De lá fomos provar o já internacionalmente conhecido camarão da Luzia, no Canto do Atins. Quaisquer adjetivos que eu usar para tentar traduzir o sabor deste camarão será em vão. So provando mesmo!
Voltamos pra pousada do Buna, pra ouvir suas histórias. Buna é o Forest Gump do Atins, cheio de historias pra contar, maior figura. Ficamos na piscina, tomando umas.
No outro dia, entramos nos Lençóis Maranhenses pelas dunas, parando em cada lagoa para um mergulho naquelas águas limpíssima. De lá pegamos nossas tralhas na pousada e pegamos o barco de volta pra Caburé. Desta vez pegamos maré baixa de volta pra Paulino Neves. De Paulino Neves fomos para Tutoia. Ficamos em uma pousada a beira mar.
No outro dia, saímos bem cedo em direção a Araioses, onde o mesmo barco que nos levou, nos esperava. Chegamos a Parnaíba e fomos para as dunas que formam o Delta. Andamos muito nestas dunas. Chegamos a Parnaíba no meio da tarde, deixamos as motos na oficina para uma revisão e “reaperto” geral. O Janilson mandou fazer uma picanha deliciosa para nós na sua casa.
No dia seguinte, fomos pelas praias até a divisa com o Ceará. Andamos em 100 % das praias do Piauí, que tem um pequeno litoral, ao todo, 66 km de costa. Tinha apenas uma única barra de rio. O Janilson já tinha providenciado um pescador com seu barco para nos atravessar. O cara pensa em tudo. De la fizemos o caminho de volta pelas trilhas até Chaval, e de lá, até Camocim, pegando a balsa para Tatajuba. Na volta pra Jeri, passamos pela famosa duna do Funil.
Chegamos em Jijoca de Jericoacoara no meio da tarde, onde o Ávila já nos esperava com uma suculenta picanha argentina. Fim da nossa aventura que durou seis dias e mais de 1000 Km.
Se você não tem experiência em andar em areia, treine bastante antes de ir, você vai andar praticamente 100 % do tempo em areia fofa. Pegue um guia experiente que vai lhe levar pelo que há de melhor na região, nós recomendamos o Janilson da Clip Ecoturismo.
Tem vários guias que se dizem experientes, mas vão lhe levar por estradões e não por trilhas.
Fazer o que nós fizemos, não tem preço!