Com a previsão de bom tempo, nada melhor que um bom programa de domingo na serra. Como ainda não tinha certeza do trajeto, alternativamente, pensei em comparecer ao Laçador e fazer o tradicional treino bate-volta entre Porto Alegre e Portão.
Como estava muito frio, não pensei em sair muito cedo (ou sair pelo menos depois das sete). Na noite de sábado, acabei deitando um pouco tarde, de modo que minha hora de saída dependeria do estado que eu acordasse. E o trajeto também.
Antes de deitar, fiz uma averiguação nos equipamentos. A speed, com um pneu murcho, precisava de troca da câmara e, para que tudo ficasse certo, um rodízio dos pneus.
Acabei desistindo da empreitada e também de ir no treino do Laçador. Fiz uma boa janta à base de macarrão e no fim, fiquei mexendo no computador em casa e nem vi as horas passarem. Deitei sem muitas cobranças. Resultado, acordei somente às 7h30min.
Como tudo estava mais ou menos arrumado, me vesti, fiz uma higiene básica e logo fui saindo, para não perder tempo. Demorei apenas vinte minutos. Estava frio e os primeiros minutos de pedalada foram bem desconfortáveis.
Ao invés da speed, optei pela Mountain Bike, que não deixa de ser ágil, mas é bem confortável. O destino inicial estava traçado: Nova Petrópolis, já que gosto muito da cidade e o trajeto que leva até ela, a BR 116 é ótimo para pedalar.
Como para sair da cidade, preciso subir a Salvador França, a subida ajudou a aquecer e quando cheguei ao topo, sem nem sentia mais o frio. Por volta de 08:15 eu passava pelo Laçador e tomava a direção do Vale dos Sinos.
A BR 116, até a saída para Estância Velha, na sua “parte feia”, pouca coisa oferece em termos de paisagem e mesmo a pedalada não é das melhores, devido ao trânsito e grande sujeira da estrada.
Com a MTB, o trabalho fica mais fácil e não precisamos ter muito cuidado para desviar de mínimos obstáculos, caso que a speed exige. Mas tudo bem, eu queria mesmo um pouco mais de tranqüilidade.
Cheguei pouco depois de Novo Hamburgo com pouco mais de 40 km rodados e a boa média de 28 km/h. Foi a primeira parada, quando lembrei que não tinha colocado óleo na corrente (sorte que eu sempre levo comigo) e que não tinha tomado café!
O café foi uma barra de cereal e depois, para completar, um Power Gel e água! A corrente foi sendo lubrificada enquanto comia. Segui em frente. Logo estaria chegando ao Viaduto de Estância Velha. A primeira escalada da serra foi em Ivoti, pouco depois das 10h.
Pensava que se não conseguisse chegar à Nova Petrópolis, iria pelo menos à Picada Café, que fica no pé da serra, 11 km abaixo do meu destino inicial.
Sem parar mais, segui pedalando e batendo alguma foto sobre a bicicleta mesmo. Nas primeiras subidas, até perto de Morro Reuther, forcei bastante nas subidas, pedalando em pé quase todas elas. Por volta de 11h eu chegava em Morro Reuther.
No mirante, mais uma parada, sendo que ali fiquei uns dez minutos. A camisa estava encharcada e nessas alturas, os manguitos já estavam no bolso. Pausa para fotos, água e vamos de novo!
Mais adiante, é o acesso à cidade. Desta vez, por curiosidade, entrei à direita (sentido de quem sobe) em uma rua que me chamou a atenção quando da minha última passagem ali, mês passado. Uma bela rua, inicialmente asfaltada, que possui algumas casas muito bonitas.
Detalhe: a maioria delas, sem cerca, com belos jardins, todas envoltas no verde. Nos fundos, tudo que há de bom: a bela vista serrana que se vê do mirante, de onde podemos ver as cidades como Ivoti e Dois Irmãos, além de alguns morros ao fundo e a linha do horizonte que se perde na imensidão. Tudo isso faz parte do quintal dessas famílias.
Nas casas, as pessoas reunidas, conversavam. O sotaque alemão é típico. O cheiro de churrasco indicava que a carne devia estar quase no ponto! Passando essa rua, segui em frente, para descobrir que logo ela começa a descer e se torna uma ladeira íngreme de chão batido.
Não volta para a BR 116 e entra em um trecho bem arborizado e com forte aclive. Mais abaixo, outras casas, um bairro. Tudo mais simples, mas muito bem conservado e limpo. Na rua, me informo onde essa rua levaria. Ela se bifurca em duas partes e ambas levariam a Dois Irmãos. Como não estou descendo, mas subindo, o jeito é voltar à BR 116.
E que subida! O roda dianteira da bicicleta ameaçou levantar algumas vezes. Fiz muita força até o topo da lomba, decidido a não me render a ela. O pneu slick 1.50 patinava nas curvas. A brincadeira me consumiu meia hora.
Uma vez de volta ao asfalto, saí de volta à BR e retomei o caminho inicial. Se o tempo ajudasse, voltaria “por dentro” para conhecer o caminho. Agora, mais uma subida forte e depois, alguns trechos que mesclam subidas e retas, que me levariam á Tenda do Umbu. Cheguei lá por volta de 12h10min, fazendo então mais uma parada. A tenda agora tem almoço, na faixa de R$14,00 por pessoa, recém inaugurado.
Abrindo mão da refeição, peguei um suco e me dediquei consumir uma barra de cereal, fazendo do mesmo o acompanhamento. A tenda estava movimentada. Um motoqueiro veio falar comigo, pois teria passado por mim pouco antes.
Reclamou que a pista molhada, em uma entrada e curva lhe deu um susto, causando uma “saída de traseira” da pista. Recomendou cautela e se impressionou quando comentei que passei dos 65 km/h em uma descida, duvidando que um pneu tão fino desse a estabilidade necessária para tanto.
Feita a “refeição”, para não esfriar, segui em frente. Agora, vem um trecho muito bom, sinuoso, rápido, com muitas curvas, que exige alguma habilidade. Entrei no meio de uma fila de carros e acompanhei o fluxo.
No final, mais algumas curvas e por um erro meu, quase saí da estrada! Passado o susto, segui em frente. Estava quase chegando em Picada Café, cujo pórtico foi atingido precisamente às 12h44min. Dali, fui subindo, entrei no parque municipal para fotografar o antigo moinho e após, iniciar a escalada de 11 km até Nova Petrópolis.
A primeira subida veio por volta das 13h. Dali em diante, foram 39 minutos sem trégua, para que eu chegasse no topo da lomba sentindo as pernas e com a camisa novamente encharcada!
Estava em Nova Petrópolis, com 103 km e média de 23 km/h. Logo na chegada, uma parada em um mercado e comprei um iogurte, que foi consumido ali mesmo.
Após, fui ao centro, próximo ao Shopping do Imigrante (se bem me recordo era esse o nome), onde há uma rótula com uma pracinha. Muitos alongamentos depois, passa um senhor que me pergunta se era eu que estava pouco antes na Tenda do Umbu.
Confirmei e esse me disse que achou legal o fato de eu estar pedalando por ali. Sentei na praça por uns vinte minutos, aproveitei para um “auto-retrado”, calçando o celular em uma pedra saliente em meio à grama e correndo para fazer pose! Brincadeiras à parte, eu precisava de um descanso para iniciar meu retorno.
Mais uma vez retornei ao mercado que havia passado. Comprei bananas e enquanto ajeitava as coisas para sair, uma moça veio falar comigo. Ela também participava de pedaladas, mas pelo que entendi, mais na área de corrida de aventura.
Tínhamos conhecidos em comum em Porto Alegre e Caxias do Sul. Breve conversa à parte, esta me relata que está parada há dois anos e sente falta das pedaladas, que deram lugar à corrida rotina e os compromissos do dia-a-dia, mas que pretende voltar uma hora dessas.
Depois desse breve momento, fui no banheiro de um posto de gasolina (onde fui muito bem atendido, mesmo sem ter consumido nada) e comecei meu retorno, pedalando calmamente rumo à saída da cidade, que me levaria novamente à BR 116, dessa vez descendo os mesmos 11 km da subida, trecho que sempre promete muita adrenalina.
Logo na primeira curva, a primeira descida e quando a bike rompe a faixa dos 50 km/k olho para trás e vejo uma Blazer que segue me acompanhando. Dei o lado, mas o motorista não veio. Pedalando morro abaixo em 44 x 11, veio mais uma curva e desta vez, preciso entrar na pista.
Sinalizei com o braço e olhei para trás, o mesmo deu sinal de luz e então tomei o meio da pista e segui, curva após curva, ocupando toda a pista no meu sentido para fazer os contornos no limite, aproveitando a cobertura do meu “carro de apoio”.
A média de velocidade era 65 km/h e nas curvas, alguma redução, para compensar o traçado. Meu medo era, como sempre, da imprudência dos motoristas. Não dos que desciam, mas dos que subiam, caso alguém se arriscasse a ultrapassar.
Na outra curva, desponta um ônibus. Atenção redobrada à fila de carros atrás dele. Ninguém saiu e eu seguia descendo. Em uma situação dessas, frear é perigoso e caso alguém apareça na contramão, o jeito é buscar o canto e tentar não cair nas valetas com pedras. A Blazer sempre me acompanhando, mas um pouco mais perto, me dizia que não era conveniente errar ali.
Na curva que antigamente tinha uma grande fonte e hoje fica uma tenda que vende frutas da época e pinhão, algumas rachaduras no asfalto. Para tirar delas, fui obrigado a ir mais para o canto e por ser uma curva longa, cumprir seu traçado deu trabalho.
Na outra reta a Blazer passou e outro carro, respeitosamente tomou a função de carro de apoio, me acompanhando até quase o final da serra. Nas retas, ele vinha mais parto, nas curvas, eu abria, aproveitando que tinha mais estabilidade e espaço para contorná-las.
Passados doze minutos, eu estava chegando em Picada Café. Agora, vinham os trechos planos e algumas subidas que me levariam novamente à tenda do Umbu. Quando fui chegando perto da mesma, o trânsito foi ficando lento, com média de menos de 60 km/h ou menos.
Muitas motos, a maioria de grande cilindrada. Um grupo de motoqueiros que passou por mim na descida estava ali. Muitos carros, muitas pessoas. Vale ressaltar que a Tenda do Umbu é um ponto tradicional de encontro de motoqueiros há muitos anos.
A “magrela”, como muitos a chamam, desperta olhares curiosos de algumas pessoas próximas, ainda mais quando ao lado das irmãs maiores, motorizadas e cheias de cromados e adesivos esportivos. Você se sente corrompendo o sistema!
No mundo da cultura do carro, muita gente questiona o porquê de abrir mão da sua funcionalidade e conforto para “passar trabalho” e ficar “cansado” depois de tantas horas na estrada. E só quem faz entende a resposta.
Encostei a bike do lado de uma Suzuki de 1400 cc e fiquei ali, tomando água, comendo cereal e aproveitei para mais um gel, curtindo a música ao vivo. Particularmente o mundo das duas rodas também me atrai e espero que, quando não puder mais pedalar, possa curtir uma boa estrada sobre uma destas...
Passam-se quinze minutos e, novamente, sob o pretexto de “não deixar esfriar”, volto para a estrada, dividindo espaço com motos que chegam e saem. Agora o tempo era curto. Passava das 16h e eu pretendia chegar em Novo Hamburgo antes da noite.
Faltariam uns 30 km, mas eu contava com a ajuda de algumas descidas, que viriam após Morro Reuther. Mas para descer, é preciso subir! Cheguei em Morro Reuther às 17h06min e nem pensei em pegar o caminho alternativo para Dois Irmãos, que eu havia descoberto pela manhã.
Já pedalando morro abaixo, entrei no meio dos carros que desciam e seguimos em fila indiana pela seqüência de curvas. Com o aumento do fluxo e com a pressão do retorno do final de semana, não é muito bom contar com a boa vontade dos motoristas. Sem contar que o perfil do motorista muda de região para região. Por volta de 17h20min vejo o sol se pondo atrás de um morro. Eu estava em Dois Irmãos.
Pequenas subidas, muitas descidas depois, estava em Ivoti. Mais uma parada, pois bateu a fome. Comi bananas e uma barra de cereal. Não mencionei ainda, mas as barras de cereal desta vez eram as da marca Dolgener. São certamente mais que o dobro de uma barra convencional e não deixam aquela sensação de comida artificial. São muito mais saborosas! Depois delas, as “outras” são as “outras” E só!
Enquanto isso, um congestionamento se formava diante de mim e se estendia pela estrada. Estava tudo lento desde Estância Velha até Ivoti. Pensei que poderia ser algum acidente. Começava a escurecer, mas ainda sem a necessidade de farol.
Quando cheguei nas últimas descidas é que me dei conta que, antes do cruzamento com a RS 239 existem duas sinaleiras. Elas é que congestionavam a estrada. Mas não só elas. Cheguei na parte feia da BR 116 por volta de 18:20 e a partir daí, a única coisa boa é que tem mais luz!
A BR permanecia congestionada a cada semáforo e com trânsito lento. Deixei o acostamento e comecei a trafegar entre os carros, já que é comum os motoristas “cortarem” o engarrafamento pelo acostamento e nessas horas, o ciclista é uma parte vulnerável.
Pensei em pedalar até Porto Alegre. Seriam quase 210 km, mas perto de São Leopoldo, comecei a sentir o cansaço e perda de rendimento. Chegaria, se preciso, mas seria um esforço desnecessário e mesmo prejudicial, de certa forma. Eu não havia feito também uma refeição decente.
Entrei em São Leopoldo, onde na esquina com a Av. Independência, desci da bike e caminhei calmamente até o trem, aproveitando a sensação de relaxamento em função de ter deixado a barulhenta 116.
Neste ponto, fechei exatos 170 km de pedal, com média final de 22,5 km/h, mesmo com as descidas. Apesar de parecer uma média baixa, foi difícil manter o ritmo em muitos trechos, sendo que nas subidas, a média horária era de 15 km/h.
Cheguei em Porto Alegre depois das 20h, depois de um bom cochilo no trem. Estava com frio. Perdi a estação e desci no Mercado. No Gasômetro, tudo vazio. Ainda cheguei em casa a tempo de tomar banho e correr no super, que fecharia 22h.
À noite, quebrando as regras de uma refeição leve, macarronada, omelete e empanado de frango. O sono foi reparador. Ainda hoje, enquanto escrevo este relato, sinto que não estou cem por cento recuperado.
Como diz um amigo meu que faz educação física, depois de uma banda dessas, são necessários pelo menos uns 3 dias ou mais para recuperação, cuidando do sono e da alimentação.
Nova Petrópolis via BR 116 é para mim um dos melhores trajetos para pedal e treinos. Belas paisagens, trânsito certamente mais cordial e calmo que na cidade. Claro que, no caso de um acidente, o risco é maior, mas acho que ali, pedalando com alguma cautela e não abusando muito, é difícil que algum acidente grave ocorra.
A fama de ser perigosa que tem a serra não demanda dela em si, nem das boas e bem sinalizadas estradas, mas da imprudência dos que nela passam. Mas no geral, os motoristas geralmente são mais cordiais e respeitam o ciclista e o contexto como um todo, pois quem está ali, mesmo de bicicleta, não está por acaso! Somos todos parte de uma relação, uma corrente, onde cada elo tem sua função.
Lamentavelmente, o equilíbrio natural das nossas regiões serranas tem sido quebrado pelo plantio e extração de madeira para corte. A extração desenfreada de madeira deixa suas marcas não só à beira da estrada, mas modifica a paisagem como um todo.
As moradias e o crescimento das localidades certamente geram novas demandas. Algumas indústrias também têm escolhido as regiões serranas para se estabelecerem, gerando empregos, desenvolvimento e mais comércio. Benefícios por vezes necessários e certamente bem vindos em muitos lugares, carentes de desenvolvimento.
Mas justamente é no caráter rústico e simples da serra que está seu charme e talvez sentido. Um contraste com as grandes cidades que nos leva a escolher certos lugares como refúgios da correria cotidiana.
Nos plátanos, nas hortênsias, que no verão enfeitam cada nicho à beira da estrada, ou mesmo nas folhas secas, que formam um tapete cinza à beira da estrada e que nessa época, prenunciam o inverno, encontramos beleza singular.
Num clima de diferentes estações bem definidas e contrastes marcantes, esperemos que lugares como esses possam sempre existir em contrapartida com as formas quadradas que simbolizam o “desenvolvimento” do qual nos referimos no início do texto como “parte feia” da BR 116.
A Rota Romântica é um tradicional roteiro turístico da Serra Gaúcha, onde se paga bem serviços típicos e lugares de uma cultura de conceito basicamente europeu. Ela sempre esteve ali, bela, natural e gratuita.
No entanto, para a maioria dos visitantes, é um lugar distante a ser descoberto nos finais de semana, como um roteiro de turismo impresso em panfletos multicoloridos e visto por trás dos vidros dos carros e ônibus ou de dentro dos bons hotéis, restaurantes e cafés coloniais.
Para quem vive na região, esta é mais que um roteiro turístico, é um estilo de vida, uma realidade à parte. Felizes aqueles que ali vivem e fazem desse clima e da qualidade de vida uma rotina diária.
Nessa hora, é que vemos que o próprio homem perde-se em seus rumos de vida, já que geralmente, buscamos nosso cotidiano, trabalho e o desenvolvimento na “parte feia”, esperando para no final de semana poder desfrutar os bons momentos da outra parte, que como mencionei, sempre esteve ali.
Às vezes as coisas mais simples e verdadeiras estão tão perto de nós que não somos capazes de vê-las!