25/03 – Quarto dia
Saímos do Bebedouro Novo as 7:50 e logo de cara uma subida de uns 300m em menos de duas horas. Hoje o dia prometia e a montanha começava a mostrar suas outras facetas – acho que nos precipitamos em classificá-la como fácil...
Para evitar desencontros ganhamos um rádio para monitorarmos o andamento do restante do pessoal. Deu certo e nos sentíamos livres e independentes. Grande vantagem, sair correndo na frente e depois ter que esperar – Bem coisa de criança! Íamos na frente e aguardávamos o pessoal chegar, geralmente cerca de 10 ou 15 minutos depois.
Chegamos a Laje próximo do meio dia, debaixo da maior chuva que pegamos durante todos os outros dias da viagem. Como até então as chuvas eram a noite e sem maiores problemas eu havia deixado meu poncho com o carregador – jamais deixe o seu poncho com o carregador, ele nunca está perto de você, e se estiver até abrir o jamanchi dele a chuva acabou...
Como a chuva era muito forte e a temperatura já não era mais tão tropical assim achamos melhor esperar na “sombra” de uma arvore. Não, não era a única arvore, logo não corríamos o risco de virar torresmo. Estávamos a 1550m e 18°C. Cerca de 45 minutos depois chega o restante do pessoal, estávamos molhados, com frio e ansiosos para sair o quanto antes dali.
Estava chovendo bromélias na nossa cabeça devido aos fortes ventos. A nossa decisão de parar foi acertada, visto que menos de cinco minutos de caminhada depois a trilha acabava numa cachoeira – que não existiria se não fosse tão forte assim as chuvas. Este foi sem dúvida o ponto mais perigoso da excursão, pois seria necessário subir cerca de 10 m o leito do rio para só depois atravessa-la! Um escorregão e o tombo ia ser feio, uns 30 m pelo menos.
Após a travessia veio mais uma subida extenuante, desta vez “piorada” pelas chuvas. Diversas vezes ficávamos em dúvida se era uma trilha ou um rio, tamanho o volume de água que corria morro abaixo. Foram mais duas horas neste perrengue.
Incrível como a mãe natureza foi generosa com a disposição das pedras, raízes, galhos, pareciam escadas com corrimão as vezes. Ou será que estávamos começando a ter alucinação por causa do cansaço? Para mim está claro uma coisa, a montanha resolveu nos testar por acharmos ela fácil.
Após a cachoeira a vegetação mudou subitamente devido a altitude e umidade constante. A impressão é que estávamos constantemente dentro de uma nuvem.
Estavam todos exaustos, a chuva, a lama, frio e a última hora no atoleiro antes do acampamento foram para testar qualquer cabra macho furado de bala, como diz meu amigo Marco Aurélio.
A nossa janta foi feijão cozido a muito custo e contra a vontade do frio e da chuva, arroz cozido com macarrão (uma bagunça) e Tang de laranja. O cansaço de todos é nítido, principalmente da galera da organização. Amanhã atacaremos o cume, tomara que a chuva dê uma trégua!