Décimo Terceiro Dia
por Sérgio Holanda:
Saímos de Apuí às 7:40hs em direção a Humaitá. As informações eram que a estrada estava boa até o quilometro 180 (é assim que o pessoal da região se refere a trechos da estrada).
Ao chegarmos no KM 180, paramos para abastecer e fomos surpreendidos por uma chuva torrencial, que mal permitia enxergar a 10 mts do carro, além de ventos fortíssimos que balançavam os veículos, trovões e raios cortando o céu.
Como ainda era cedo e tínhamos mais umas 5 horas de luz (embora chovesse muito), resolvemos seguir viagem, afinal, mesmo devagar seriam alguns quilômetros ganhos.
A chuva transformou a estrada em uma enxurrada de água e lama. Os perigos, além das pontes, eram os trechos estreitos e com grandes buracos nas laterais, fora arvores caídas e barreiras. Mesmo assim fomos nos deslocando em segunda marcha a 20km/h ou menos.
Após 10 km na chuva o pneu da Land Rover furou. Trocamos embaixo de muita água, acompanhados ainda por belos trovões a raios que caiam nas proximidades. Nesse momento, muita tensão foi aliviada com o trabalho em grupo.
Depois disso foi a vez do Troller de Muniz também furar mais um pneu e com isso chegar a escore de três pneus furados, contra um de Carlinhos (Troller) e um de César (Land Rover).
Após alguns quilômetros entramos em uma reserva indígena, que cobrou por veículo R$ 20,00 para liberação (lembrando que estávamos em uma estrada Federal). A chuva cessou no meio da reserva, e pudemos seguir para Humaitá com mais algumas paradas (para ajeitar a carga de teto do Troller de Themoteo e o aerofólio que caiu).
A chuva cessou no meio da reserva, e pudemos seguir para Humaitá com mais algumas paradas (para ajeitar a carga de teto do Troller de Themoteo e o aerofólio que caiu).
Já era noite quando chegamos ao KM 60, onde nos informamos com um grupo de carreteiros sobre as condições da estrada e que teríamos um local de apoio a 35 km de Humaitá.
No caminho de Humaitá fomos parados por dois senhores, em frente a uma fazenda. Eles nos pediram para levar até o KM 35 um material para um trator quebrado. Assim o fizemos, ainda que sobre protestos de alguns do grupo (achavam que poderia ser uma emboscada ou outra coisa do gênero.
Mas temos a dizer que em todas as cidades após Uruará, não tivemos nenhum comentário negativo sobre segurança. Ao contrário, mesmo sendo terra sem lei, por onde passamos não encontramos o menor problema). Mas voltando ao trajeto, seguimos para o KM 35 e lá alguns integrantes cansados (era 20:30hs) não quiseram continuar os 35 km finais até Humaitá.
Por isso, pernoitamos em uma casa com uma mercearia, que serve de apoio aos motoristas que ficam por ali aguardando o dia amanhecer para continuar seu trajeto, já que os atoleiros e as águas na estrada deixam o trecho propício a incidentes com os veículos.
Na casa tínhamos um banheiro a disposição, café quente e uma varanda enorme para quem quisesse dormir. Alguns foram para as redes, outros colocaram colchões no chão e os demais dormiram no carro.
As 22:00hs o gerador foi desligado e o céu ficou branco de tantas estrelas. Fomos dormir ao som das águas de um pequeno rio que passava por trás da casa e iluminados pelas estrelas. Parecia que estávamos em outro mundo. Seguimos noite a dentro até o cantar do galo.
Décimo Quarto Dia
por Sérgio Holanda:
Começava outro dia e já ouvíamos o som dos caminhões sendo ligados para partirem em direção a uma estrada perigosa e altamente desgastante, mas essencial para esse povo sofrido que precisa dela todos os dias.
Saindo do KM 35 em direção à Humaitá, fizemos doações a uma comunidade ribeirinha e seguimos viagem. Nos últimos 27 km do caminho até a balsa que atravessa o Rio Madeira, fomos agraciados por muitos atoleiros e até brincamos um pouco. Parecíamos crianças com seu brinquedos.
Após os atoleiros nos deparamos com mais de 5 km de água do Rio invadindo a estrada. Com isso o trajeto passou a ser extremamente perigoso. Quem ficava atolado, era retirado por um trator e um Volvo 6x6 e ficava ilhado aguardando as águas baixarem.
Como não tínhamos essa opção e estávamos ali para transpor essas dificuldades, seguimos em frente. O Rodrigão foi de zequinha procurando o melhor lugar para passar e a Hilux logo atrás servindo de boi de piranha.
O restante do comboio ficava aguardando para poder seguir.As travessias de água foram divididas em várias, totalizando 5 km. Isto com trechos de até 1 km dentro d’água e com correnteza.
O veículo que nos surpreendeu foi a TR4. Mesmo com o Lift ainda era o veículo mais baixo, mas isso não o impediu de atravessar com maestria os atoleiros e as águas, claro que o piloto faz diferença. Mas o jipinho surpreendeu!
Mesmo em trechos onde a água chegou a 1 metro de profundidade e a estrada sendo comida pelo aguaceiro, a TR4 transpôs com valentia. Palmas para a TR4 e pro Julio Pinho!
Na última travessia de água, antes da balsa, a situação piorou. Ninguém se atrevia a passar e a correnteza quase leva o Rodrigão rio a baixo. A água cortava com tanta força a estrada, que levou parte dela e fomos obrigados a passar por cimas de algumas pequenas arvores e rezar bastante para não sermos levados pela correnteza.
Deu tudo certo, graças a Deus e a Rodrigão, mas de uma coisa temos certeza, ninguém do grupo jamais esquecerá este trecho que ressaltamos - ninguém está passando -.
Em Humaitá resolvemos fazer uma limpeza nos veículos (alguns com água dentro como a TR4 e a Land e todos com muita lama nos pneus) em um lava jato. Iremos pernoitar aqui. Como ainda era cedo, aproveitamos o dia para revisar os veículos, descansar um pouco e comemorarmos o aniversário do Muniz.
E também a partida do Jeison e do Nataniel, que na manhã de domingo seguem para casa em Nova Mutum (a ida até Manaus para eles seria uma contra-mão grande. O intuito principal da dupla de gaúchos que moram no Mato Grosso era conhecer a Transamazônica e hoje finalizamos essa etapa de nossa aventura).
O Jeison e o Nataniel farão muita falta ao grupo, principalmente pela alegria e simpatia dos dois irmãos. Infelizmente o tempo é curto. A saudade da família é grande e vão partir. Mas deixarão saudades aos novos amigos e companheiros de aventura. Esperamos encontrá-los mais vezes em nossas aventuras, e o convite para irem a Recife já foi feito em termos de intimação.
Boa sorte Jeison e Nataniel. Vocês são mais do que amigos, são companheiros e pessoas de alma boa. Lembrem de que qualquer problema é só “sarltar de banda!” (piada interna), como dizem pelas bandas de lá.
Notícias de última hora:
Infelizmente, devido a problemas de comunicação em Manaus ocasionados pela forte chuva na região, os relatos do último trecho da expedição (Humaitá - Manaus) ainda não foram transmitidos.
Mas em conversa com os participantes, tivemos informações que este foi o trajeto mais difícil até agora, contando com diversas pontes quebradas pelo caminho, muitas atoladas, carros quebrados. Inclusive, por 2 dias os participantes tiveram que dormir na floresta.