Dia-a-dia de pesquisa na Ilha da Trindade:
Eu e Luis Felipe, o outro pesquisador que veio comigo, chegamos à ilha após três dias de viagem saindo do Rio de Janeiro a bordo do Navio Hidrográfico Sirius da DHN (Diretoria de Hidrografia e Navegação) da Marinha do Brasil. A primeira vista da ilha foi impressionante, o azul do mar chegava a dar tonteira, as formações rochosas da ilha impressionam pela grandiosidade e formato, parecendo papelão rasgado.
Aqui fomos recebidos pelos pesquisadores que iríamos "render". Eles nos passaram os últimos detalhes das atividades a serem realizadas, os materiais de trabalho, as acomodações e fizemos as trilhas para conhecer as praias onde iríamos monitorar as tartarugas.
O nosso trabalho aqui é monitorar o comportamento reprodutivo da tartaruga verde, que consiste em passar as noites em determinadas praias para acompanhar as subidas e desovas das tartarugas. Correr as praias todos os dias pela manha ou tarde para a contagem de rastros de tartarugas que não flagramos, e abrir ninhos que estão próximo a data de nascer para contagem de cascas dos ovos para estimar quantos filhotes nasceram.
As segundas-feiras passamos na praia das Andradas que é a mais próxima das instalações. Terça na praia da Tartaruga onde temos o maior número de ocorrências, chegando a 30 tartarugas na areia durante o pico da temporada. Quarta feira é nosso dia de folga, pois é o dia da pizza aqui na ilha, regrado a muitos refrigerantes.
Na quinta voltamos a ativa na praia do Túnel, que é a praia com o menor numero de ocorrências e a mais sinistra por ter uma areia vermelha e morros altos em todo o seu entorno. E finalmente sexta na praia do Príncipe, que em quesito beleza é a que eu considero mais bonita, e ser a única praia virada para o lado do continente americano.
As noites nas praias não são fáceis, saímos para elas por volta das 16h30min h ou 17:00 h da tarde, pois escurece muito cedo aqui na ilha, as 17:00 h já esta quase tudo escuro, e ficamos nas praias até as 05:00 h da manha, quando começa a amanhecer e as tartarugas param de subir.
Durante a noite pegamos chuvas, ventos, lua nova onde conseguimos ver um céu tão repleto de estrelas que não da pra explicar, ai na cidade vocês nunca irão ver um céu assim, uns nascimentos de lua cheia incríveis, noites com muitas tartarugas que nos deixam malucos de tanto trabalhos e as pernas doendo de tanto andar na areia atrás delas, e noites de pouco movimento que nos deixa entediados por não ter muito que fazer e o tempo não passa.
Mas tudo isso compensa quando você acompanha uma fêmea depositando seus ovos, que parecem bolas de ping pong, no ninho feito com tanto cuidado e dedicação apesar de todo o tamanho da tartaruga.
E acompanhar o nascimento de filhotes tão pequenos e indefesos que antes mesmo de chegarem à água tem que passar por caranguejos e aves tentando predá-los, e ao chegar ter que fugir dos peixes famintos. Mas apesar de tudo fico muito feliz em poder ajudar na preservação e conservação de um animal que ainda corre o risco de extinção.