O dia amanheceu lindo, após o tempo feio na noite passada. Às 7 horas da manhã, fomos anunciados pelo sistema de som do navio que o dia estava bonito, então eu acordei. Mas, Trevor, meu colega, já tinha levantado e estava lendo um livro. Cumprimentou-me, em tom de brincadeira, com uma boa tarde. Eu estava gostando muito do meu colega de cabine.
Quando fui me levantar senti uma dor violenta que nem consegui me mexer, estava com dor na coluna, lá no lombar. Apavorei-me! Lembrei que havia dado um mau jeito no dia anterior, quando arrumava as cosias no hotel, mas tinha passado, pois não tinha sentido nada mais durante o dia. No entanto, agora não estava podendo me mexer! Não acreditava, logo agora que estava começando a expedição e eu não poderia aproveitar. Cada tentativa que fazia para me mexer era uma dor violenta, falei disso com meu Trevor, que sugeriu chamarmos o médico.
Procurei ficar mais um pouco na cama e Trevor foi tomar café. Cheguei até a chorar, não pela dor, e sim por imaginar que não iria poder participar da expedição. Eu tinha que melhorar, cheguei a rezar para isso! Então fui forçando aos poucos, mesmo com muita dor, sentei na cama. O Trevor voltou e disse que o médico estava no restaurante, se eu quisesse poderia chamá-lo, mas eu resolvi ir até lá. Me movendo lentamente, fui ao banheiro lavei o rosto e escovei os dentes, qualquer movimento que eu fazia, doía muito. Em seguida, fui do 4° para o 3° andar pelo elevador, chegando lá, falei com o medico, que me disse para ir a cabine que ele iria me examinar.
Comi algo, voltei para a cabine e deitei um pouco. A movimentação fez com que a dor diminuísse, mas certos movimentos ainda eram dolorosos. Assim que chegou, o médico foi me examinando para verificar onde era a dor, inclusive fez alguns exercícios com as minhas pernas. Depois disso, me explicou o que poderia ser: segundo ele, era uma pressão que iria melhorar com os dias, então me deu remédio e disse para me movimentar.
Após isso, conversamos um pouco. O médico é bem jovem, mora em Las Vegas, EUA e atua em Pronto Socorro. Adora andar de moto e realizar moto viagem, ai falei para ele sobre o INEMA e as viagens que tem na America do Sul. Ele era bem amistoso, e ai já começou uma amizade muito legal. Ele e o Trevor trocaram muitas informações e eu fiquei ali, ouvindo eles falarem.Nesse momento eu já estava mais aliviado, pois poderia realizar as minhas aventuras e participar da expedição.
Fomos para o convés, a frente do navio, para observar o mar, na esperança de ver as baleias e os pássaros. Seguíamos de navio que estava paralelo as montanhas, com isso podíamos observá-las ao longe.
Como havia visto muitos pássaros e as baleias em St Johns, fiquei um pouco frustrado, em não ver muitos pássaros a volta do navio, pois tinha expectativa de ver muitos pássaros e muitas baleias. Mas, o pessoal vibrava quando aparecia um pássaro. Algo novo para mim foi poder ver algumas manchas de neve nas montanhas e alguns icebergs bem distante, parecia uma miragem. Assim, um senhor do Canadá me explicou o que eram as miragens, como se formavam, fiquei interessado, com isso ele me explicou bastante coisas sobre o fenômeno. Ele era amável e muito simpático, estava sempre acompanhado pela esposa que era uma simpatia, parecia estar sempre sorrindo, eles me contaram que ano que vem, dia 20 de junho vão fazer 50 anos de casados. Ele me lembrava do meu Avô materno, e ali era outro amigo que eu começava a ter.
Era muito interessante ver a empolgação do pessoal, pois quando aparecia um pássaro, todos os interessados por eles, colocavam seus binóculos e ficavam observando, entre eles, o mais empolgado era o canadense Tony.
Pelo sistema de som, foi anunciando uma palestra obrigatória, com isso todos desceram para o Auditório.
Assistimos a palestra obrigatória sobre o urso polar, pois estávamos na área dele e tínhamos que saber o que fazer em caso de um encontro. Durante a palestra também nos falaram que tínhamos segurança, pois estávamos acompanhados por atiradores em cada bote, além disso, havia três aborígenes que iriam nos acompanhar, quando chegássemos em Labrador.
Explicaram-nos como funciona a segurança e que iríamos visitar lugares onde poderia existir o urso, falaram sobre a agilidade dele, tanto na terra, quanto na água; que eles eram capazes de saltar até 2.5m de dentro da água para fora. Também nos falaram que quando estávamos em terra, iriam primeiro avaliar para ver se não havia a presença de ursos polares ou ursos pretos, depois disso, posicionariam os atiradores para dar a cobertura. Além de cada Zodiac (bote inflável) teria um atirador. Mas, em caso de um encontro com algum urso, o local seria evacuado imediatamente e que não poderíamos ficar andando sem ter um guia armado com a gente. Caso o encontro fosse irremediável, os guias teriam que atirar no urso para matar, mas ninguém queria que isso acontecesse.
Nesse momento, um dos passageiros perguntou porque não usavam armas com tranqüilizantes? E a líder da expedição explicou que o uso de tranqüilizantes em geral se faz de cima com helicópteros ou em uma ambiente protegido, mas isso não era o nosso caso, além disso, o efeito pode levar alguns minutos. O uso da arma seria para evitar um ataque imediato, preservando a vida de uma pessoa, no entanto, o sucesso seria não termos esses incidentes. Depois disso, houve mais alguns questionamentos sobre os ursos polares, sua época de procriação, de quando eles teriam mais fome e seriam mais agressivos.
Em seguida, parte do pessoal foi para o Convés e outros para o topo do navio. Nesse momento, já avistamos a cidade e alguns barcos saindo. O Barco ancorou em frente a baia. O vento soprava e levantava pequenas ondas. Eu estava impressionado com poucos pássaros, ai o Tony explicou-me que nessa época, os pássaros viviam onde existia mais alimento e que não era comum ver muitos pássaros. Inclusive , disse-me que Labrador é um local de poucos animais, poucos pássaros e poucas pessoas.
Vi o pessoal lançar ancora e preparar os botes, nisso nos chamaram para o almoço.
No almoço, já me sentia melhor! Talvez, devido a com a empolgação e o remédio a dor foi passando. Conversamos animadíssimos sobre a idéia de irmos para terra e ver onde os vikins moravam. Todos atendentes do restaurante eram russos e coordenados pela gerente do Hotel Meg, uma americana. Após o almoço, a líder da expedição nos falou o que estava planejado para a tarde: Iríamos de Zodiac até o porto de St Anthony's, onde seguiríamos por 30 km de ônibus até a vila dos Vikins, onde havia um sitio arqueológico. Lá tinha museu, um shopping e duas vilas para conhecermos, além de um porto Vikin. Para esse passeio, teríamos dois ônibus para nos levar.
Após o almoço, todos foram se vestir com roupas para o frio e a prova de vento e chuva, em geral roupas para a neve. Isso tudo, para evitar que a água gelada que levanta do bote e das ondas nos molhasse, também se caso caíssemos na água gelada, as roupas nos protegeria, por mais tempo, até sermos resgatados.
Estava feliz da dor ter passado! Fui para frente do navio, acompanhar o pessoal embarcar nos zodiac, acompanhei a fila até os últimos embarcarem, depois fui no último bote. Observando tudo, fiquei me lembrado dos procedimentos de land da Antártica, pois tinha o mesmo sistema: todos com roupas para chuva ou neve, calçando botas de borracha cano longo, e o salva-vidas sobre a roupa, as mochilas nas costas ou a tira colo, mas com as mãos livres.
Uma pessoa controlava o fluxo para ter no máximo 2 pessoas na escada, ela ficava no topo da escada com a lista de chamada e marcava o nome de quem tinha embarcado. Também havia um marinheiro russo no final da escada, perto da água, que auxiliava as pessoas na entrada no Zodiac. Ele e o piloto do bote pegavam o pessoal pelos braços, na forma de cumprimentar, outra pessoa a mão no braço da outra, isso para dar mais segurança e evitar que o pessoal caísse na água, apesar do movimento das ondas.
Quando a fila estava quase no fim e eu havia tinha tirado um monte de fotos, passei no quarto peguei minha mochila com equipamentos para tirar fotos, e mais a filmadora pequena, uma hv30 da Canon com uma wide, e desci para colocar o colete e as botas. Eu tinha separado as botas no dia anterior e deixado em lugar separado para encontrar facilmente. A fila tinha terminado, então desci com o pessoal da TV e outros que tinham mais dificuldade para andar, fiquei impressionado com a força de vontade desses pessoas – um exemplo de vida!
No caminho fiz poucas fotos, mas filmei quase todo o trajeto. O pessoal me alertou sobre o problema de molhar as câmeras. Mesmo assim arrisquei, uma vez que, a máquina fotográfica poderia ser molhada, desde que não seja mergulhada na água. Já, a filmadora era pequena, devido a isso ficava fácil de protegê-la.
Adorei o trajeto, pois tanto as casas, quanto os barcos de pescas eram coloridos. Além disso, o sol deixava tudo mais colorido. Quando chegamos, uma equipe ajudou para que todos saíssem do bote com segurança. Ali estava a líder atenta a tudo.
Havia um dos ônibus nos esperando. Tiramos os coletes salva-vidas e os colocamos preso em uma corda ali no porto, muitos tiraram suas roupas para neve e alguns trouxeram seus calçados para as caminhadas. Eu só tirei a jaqueta, mas fiquei com as calças de usar na neve e as botas, pois tinha que ter cuidado com meu pé que estava com a unha encravada. Isso ocorreu porque, no inverno, usei uma bota de esqui apertada todos os dias, o que acarretou a perda de uma unha, que me faz passar “trabalho” por seis meses. Além disso, uma semana antes de viajar, começou a doer, pois encravou. Mesmo assim, decidi não mexer e fazer a viagem, no entanto, bastava tocar no dedão, para eu dar um grito (heheh).
Pela vila de St Antony's, havia muitas placas divulgando visita às baleias, além disso, vimos um asilo, muito legal para idosos. O caminho era maravilhoso, mesmo de dentro do ônibus eu tirei muitas fotos.
O trajeto para a vila Vikin era de aproximadamente de 30 Km, fiquei impressionado com a beleza que via durante o caminho. Eu não parava de tirar fotos, mesmo com o as janelas do ônibus fechadas. Com certeza, se fosse de carro levaria a tarde toda, pois havia muitas coisas lindas, como casas, barcos e paisagem em geral. Também observava as pessoas trabalhando para recuperar suas casas, após o ultimo inverno, mas eles já estavam preparando lenha para o próximo.
Estávamos em uma das partes mais remotas da ilha de Newfoudland e chegando na primeira comunidade de Vikins na América do Norte, que existiu há mil anos.