Viajando pela Rota 436, que é o caminho para a Viking Trail, passamos por inúmeras placas diferentes, indicando a presença tanto de icebergs, baleias e águias, mas também de trilhas vikings e assuntos relacionados a eles.
Observando as casas pelo caminho pode-se notar que a maioria são preparadas para a época de neve, quase todas com uma plataforma elevada e com toda sua parte externa fechada.
A lenha armazenada ao lado da casa, secando e prontinha para o próximo inverno, indicava mais uma alternativa encontrada para driblar o frio incessante do inverno na região. Para chegar nessa vila viking, você pode vir da ilha de Newfoundland, por esse motivo vimos muitos motociclistas nessa área. Além disso, Via-se lindos barcos de pescadores na água ou pela grama, de tão numerosos que eram.
No inverno há uma tradicional estação de esqui chamada Viking Trail Ski Club, presente na ilha há 10 anos. Além de várias baías lindas, repletas de casas coloridas e barcos, vimos também algumas lojas de beira de estrada com uma infinidade de produtos artesanais de pescadores e de vikings. Uma coisa interessante e diferente, que notei no Canadá é que as casas, quando estão sendo reformadas, são revestidas inteiramente por um plástico.
Então avistamos uma linda ilha, toda coberta de verde, com um morro que embelezava seus traços. Estávamos chegando na vila Viking L'Anse aux Meadows e no porto Viking, chamado Norstead. Ali havia uma placa informando que o horário de visitação é das 9:00 até as 18:00, mas sempre é bom verificar antes de vir, pois nesses casos nunca sabemos se está realmente funcionando e não há tempo a perder.
Em meio a esta paisagem linda, um dos ônibus já estava lá, mas na hora que chegamos a luz do museu estava com problema. Para não perder tempo e conhecer mais a região, decidimos ir para outro lugar, mas quando estávamos indo o pessoal do outro ônibus avisou pelo rádio que a luz havia voltado. No museu, vimos barcos que não passavam somente a sua imagem de meio de transporte, mas também traziam junto a sua história, como se tivessem vida própria e contassem-na somente através da sua imagem.
Em seguida, aproveitei para tirar umas fotos das flores branquinhas tradicionais da região, chamadas ‘chá-do-labrador’. O vento soprava forte, mas, como estávamos no verão não era frio. Logo entramos no L'Anse aux Meadows, um local histórico nacional do Canadá, a colônia Scandinavia com seus Vikings. Por todo lugar nesta região viamos três bandeiras: uma do Canadá, outra da Unesco e outra da província de Newfoundland e Labrador.
Ali na entrada havia uma estatua com dois bustos Anne Stine e Helge Ingstad, este último que desistiu de ser advogado em seu país para se tornar um explorador no Canadá. Também havia uma placa explicando que o local é o primeiro lugar que se teve noticia que aconteceram contatos com o povo local e os aborígenes da América, há mil anos atráz. Em 1978 foi criado o primeiro centro cultural da região.
No museu, o que me impressionou foi um certo barco de tamanho pequeno, mas com o leme na lateral, preso na embarcação por tiras de couro. Também achei interessante, os formatos dos remos, os apoios para os remos nos barcos e as velas.
Não fiquei ali no museu para ver os filmes, pois preferi ir para fora apreciar uma paisagem que realmente era de cinema. Dali dava para avistar uma das vilas, com uma casa e mais um depósito com uma cerca de madeira ao seu redor. O local era mantido e foi recriado para que os visitantes pudessem ver como era a vida a mil anos atrás, não sendo totalmente semelhante com o passado, devido aos fios de luz que cortavam os céus lindos daquela região. Uma pena.
Enquanto observava a paisagem e o pessoal seguindo na trilha, avistei na direita um alce. Obviamente, fiz um alarde para alertar o grupo da presença daquele animal, e ele, alheio a tudo, estava na maior tranqüilidade, com pássaros sobrevoando seus arredores.
No caminho vimos uma obra de arte que nos parecia uma árvore muito velha, mas que na verdade foi feita por um artista que ligou dois mundos, o antigo e o novo, nas muitas formas que retratava, como dragões e baleias. Junto a isso, havia um caminho que nos levava para uma casa idêntica às que os vikings moravam em tempos antigos. Este lugar foi recriado para demonstrar como era seu estilo de vida, inclusive havia alguns personagens vestidos à caráter que viviam lá.
Encontrei uns motociclistas por ali e eles me falaram que é muito bom viajar por aqueles lados e visitar aquele lugar. Fica ai uma boa dica para os aventureiros das duas rodas.
Uma placa, mais adiante, conta que a casa foi refeita nos mesmos moldes e com os mesmos materiais da época: terra e capim. Avistei várias trilhas no caminho e decidi que se eu voltasse ali, passaria dias e mais dias percorrendo-as e conhecendo o lugar. Entrei na vila Viking e primeiro fui andar em volta. Depois vi que a entrada era toda sustentada por vigas de madeira e havia uma porta revestida com couro, para evitar os fortes ventos, a chuva e a neve.
Estavam ali o Tony e o Luciano e já estávamos nos integrando, pois nossos interesses eram muito semelhantes, como natureza, novidades, etc… e considerávamos tais semelhanças mais interessantes do que ficar ouvindo os guias.
Entrei então na casa. Ela tinha o chão de terra e o teto feito de madeira, com duas janelas no topo, firmadas também por madeiras, me pareceu muito interessante. Eu estava de boca aberta, adorando aquilo. Foi muito curioso ver o acampamento dos vikings, eles mantêm o ambiente como se hoje fosse essa época, de mil anos atrás. Ali encontramos dois figurantes, vestidos ao estilo dos escandinavos daquela época, que nos mostraram as ferramentas, o estilo de vida, e o modo como viviam.
As mulheres da expedição queriam saber como era a relação entre eles e as mulheres: onde elas viviam, o que faziam e assim por diante. O tempo correu rápido, já tínhamos que seguir e o ônibus nos pegou bem em frente. Por mim ficaria ali o dia inteiro, ou até mesmo vários dias para conhecer tudo ao redor.
Para minha surpresa não fomos embora, mas sim para outro lugar que também era uma vila. Chegamos no local e eu comprei duas lembranças: uma para mim e outra para minha mãe, as vaquinhas dos vikings. Fomos conhecer a linda vila, toda de madeira e capim, e lembrei que nós, do Rio Grande do Sul, temos algo similar com esse povo, pois as casas eram feitas assim aqui também antigamente. Esta vila era maior e mais desenvolvida que a primeira.
Tínhamos pouco tempo, uma pena, pois tive que olhar tudo por cima, rapidamente. As fotos mostram isso melhor do que minhas palavras, mas o que mais impressionou foi o barco que eles utilizavam para suas diferentes navegações. Existem os barcos para o litoral e o barco maior para cruzar oceanos, que mesmo assim era pequeno, mas impressionante. Possuía o leme lateral também e em cima tinha inclusive sótão. Nesta vila até igreja tinha. Entrei para conhecer e era incrível como faziam as casas de madeira.
Eu não tinha tempo pra armar o tripé e fazer boas fotos, então me lancei a tirar fotos para todo lado. Tinham me avisado que em 5 minutos estávamos saindo e eu nem tinha visto metade da vila.
A igreja tinha as janelas no topo e possuía um lustre de velas com o formato de um barco. Ainda fui ver outra casa onde eram fundidas as ferramentas, onde havia um fole para deixar o fogo mais forte e um menino explicando o processo do feitio de ferramentas. Mesmo sem tempo, fui para outra casa olhar as mulheres tecendo e fazendo roupas. Pude ver que haviam mais coisas na casa, mas não tinha mais tempo e sai correndo, fazendo a volta pelo porto para ver os barcos. Constatei que os barcos de litoral já estavam bem deteriorados. Subi em direção ao ônibus prometendo que voltaria um dia.
Embora, pensasse que estava atrasado, cheguei antes do pessoal. Mesmo que o ônibus onde tinha deixado minha mochila era o outro, segui de volta neste, mas com a cabeça na paisagem exuberante que continuava me chamando atenção. Cansado de tanta atividade e distraído pela paisagem, acabei cochilando e só acordei na vila de St. Anthony para pegar minha mochila no outro ônibus. O pessoal colocou a roupa de neve, para se proteger da água gelada. Eu tirava umas fotos e admirava o lugar, esperando para ir no último bote. Um monumento semelhante a um barco estava ali no porto, sinalizando que nenhum carro deveria ir além daquele ponto.
O Taylor, meu colega de quarto, também deveria estar cansado, vi ele bocejando ao lado de sua filha. Já tinham saído dois botes e o meu era o último e já vi que meus colegas de bote seriam as pessoas que eu mais tinha contato. Enquanto o bote cruzava aquela água azul escura eu admirava as casas e os barcos, que ganhavam cores e matizes maravilhosas com a luz do sol daquele horário. Apesar, das recomendações do piloto do bote para guardar as câmeras para que não sofressem dano por causa da água do mar, eu não podia deixar de registrar estes momentos.
Assim que saímos da baía, estava lá nosso navio, contrastando sua grandeza e força com a leveza de mais um entardecer. Ao chegarmos vi algumas pessoas brincando no guindaste.
Embarcamos e em seguida fomos jantar. Logo que terminou essa nossa refeição, saí para conferir por onde andávamos e encontrei um tempo fechado, que mal me permitia avistar a cidade. Em apenas uma hora o clima havia mudado completamente. A temperatura marcava 10ºC, deixando apenas na lembrança a agradável temperatura próxima dos 20ºC que tínhamos ultimamente.
Chegando no quarto, conferi pelo GPS que eu tinha que estávamos deixando a ilha de Newfoundland. Tínhamos velejado mais de 500 quilômetros e seguíamos para o próximo destino na velocidade 15 km/h pois havia muita cerração naquela noite. Cansado deste dia tão intenso fui dormir com as imagens das paisagens gravadas na memória, não havia nada melhor que elas para um bom descanso.