14 - Hopedale
Este dia amanheceu nublado. Acordei, mas nem fui ao café. Quando levantei, vi que estávamos em uma nova vila. Esta era a vila dos povos inui, que são os aborígenes, e a única via de acesso até a vila era por água. Todos já tinham ido, quando embarquei no ultimo bote e comigo foi um russo, que trabalhava na cozinha e filmou todo o trajeto até a vila.
No caminho, notei que as rochas pareciam todas emendadas, bem típicas daqui do Labrador. Nossa guia do bote era uma argentina que trabalha na Quark. O desembarque na vila, seria próximo da igreja e de outros casarões brancos. Nosso desembarque seria em meio a pedras lisas, então nos avisaram que teríamos que ter cuidado. O pessoal que já havia chegado, estava na frente da igreja, esperando o grupo todo.
Descemos e ainda tinha outro bote andando pela baía para desembarcar. Até agora, o que realmente tinha me chamado atenção eram as interessantes rochas. Mandaram-nos entrar na igreja e nela um líder local falou sobre a história da cidade. Ele falou que ‘Hopedale Mission’ foi estabelecido em 1782 e que tinham tentado fazer uma igreja e uma agência postal em 1752, mas não obtiveram sucesso. Eu ouvi uma parte do relato e então saí para dar uma olhada na vila, pois sabia que depois seria tudo corrido.
Na entrada da igreja, tinha uma serie de fotos antigas bem interessantes e na porta havia um menino inui com uma latinha de batatas fritas que ficou encantado com uma máquina fotográfica de um dos guias. Então começaram a fazer algumas fotos com ele. Quando foram mostrar as fotos, ele já quis pegar a máquina e tirar suas fotos. Logo virou festa e ele já começou a aprontar, mostrando a língua quando tiravam fotos dele.
Em seguida, dei minha câmera para ele, que era muito pesada, mas o guri tirou algumas fotos, dessa vez as caretas eram minhas e ele ria sem parar. Outros dois meninos olhavam de longe e dava para notar que estavam querendo vir, mas pelo jeito não poderiam sair de frente de suas casas. Dei a filmadora para a menina que estava ali para brincar, enquanto eu olhava um menino andando pra lá e pra cá, dando cavalinhos-de-pau com sua bicicleta. Foi um momento divertido com toda essa criançada.
A toda hora passavam quadricículos, já que as pessoas praticamente não andam a pé. E por todos os lados víamos os snowmobiles (algo como quadricículos para neve), que no verão ficam ao lado das casas. Seguimos contornando a igreja e algumas flores brancas me chamaram bastante atenção; quando cheguei perto constatei que eram de algodão. Então Fernando, que estava filmando, tirou uma foto com um dos meninos. Logo chegaram mais crianças para tirar fotos com ele. Depois, na minha vez, combinamos de saltar! Tentamos umas três vezes e foi engraçado, saltei alto demais.
Depois, fui andando e conversando com as pessoas locais, em algumas casas cheguei a entrar e vi que eles vivem com conforto e tem muitos eletrodomésticos. Também conversei sobre o clima e constatei que a maioria não gosta de calor, optam por ficar em casa e por isso preferem o frio.
No caminho encontrei umas meninas, todas alegres e simpáticas. Tirei fotos, adorei os óculos de sol de uma delas. Todos caminhavam num sentido e resolvi segui-las. Durante nossa caminhada uma camionete parou pra dar carona para umas meninas e eu aproveitei para ir junto.
Chegamos ao multiplex, onde teríamos uma apresentação, ali tinha algumas obras de arte para vender, uma pena que eu não tinha trazido dinheiro, pois havia algumas bem interessantes, feitas de pedra e por um preço bom.
Depois começou o show, era bem simples e com as crianças demonstrando as competições que imitavam os movimentos dos animais, com corridas que simulavam focas, onde os garotos cruzavam os pés e arrastavam o corpo se movimentando com as mãos no chão, e outras competições de força.
Um local filmou as lutas para mim e eu me divertia sempre apostando no mais fraco e apoiando-o em vão, pois obviamente sempre perdia. Para finalizar, o pessoal cantou uma canção e depois seguimos de volta para o navio.
Na saída, me encantei com uma criança e seu cachorrinho. Então vi Fernando filmando, esperei eles terminarem a passagem e fui voltando para o navio. Encontrei as meninas novamente, que agora eram três, sempre muito amistosas.
Como sempre éramos os últimos e eu fiquei observando o pessoal da TV de carona nos quadricículos, que passava por mim fazendo festa. Ainda tive oportunidade de ver alguns cachorros e conversar com o dono sobre a troca de pelagem deles no verão.
Uns quadricículos com famílias inteiras não paravam de passar e, na hora de pegar o bote, alguns da comunidade vieram despedir-se, inclusive o menino arteiro da bicicleta estava ali, pulando de uma pedra pra outra.
Fui no último barco e as crianças sentaram na pedra ao lado de um senhor para ver partir e ficaram acenando. Gostei tanto daqueles momentos simples de felicidade que ficou um pouco de mim ali com eles. Na volta, fiquei vendo a vila desaparecer e depois me interessei pelas pedras com suas formas e tons variados.
Voltando para o navio, os marinheiros que eu mantinha contato já me acenavam. Subi na embarcação e encontrei três pessoas que pensei que fossem marinheiros e então brinquei dizendo que a vila tinha muitas mulheres bonitas. Eles riram e só depois que eu notei que na verdade eram aborígenes que iam junto conosco para dar segurança. Falei das mulheres dos locais na frente dos atiradores da ilha. Mas, mesmo assim, a partir deste momento, mantive amizade com eles. Chegando ao navio fui guardar minhas coisas e logo desci para saciar minha fome com mais um almoço nas águas do Labrador.