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Uma grande aventura em um veleiro 2008 - Parte 1

Adré Issi realiza uma grande aventura junto com seus amigos em um veleiro. Ele partiu de Florianópolis/SC dia 21 de julho de 2008 paasando por Cuiabá (MT) - Corumbá (MS) - Puerto Suárez (Bolívia). Veja o relato de 27 a 31 de julho de 2008.

Floripa - Cuiabá (MT) - Corumbá (MS) - Puerto Suárez (Bolívia) – Parte 2 – Partindo de Barco

Bueno, eu não entendo de veleiro, o Guarani é um micro tonner de 5,5 m, calado de 40 cm, equipado com rádio, GPS, carregador solar, gerador, bolina e leme retráteis, motor de popa 2 T, 8 HP, e mais uma infinidade de coisas que só Ernesto Betbeze, experimentado navegador que já velejou inclusive até o Caribe. Ultimamente, havia viajado pela costa brasileira a bordo do veleiro Torroba. Juan La Bianca, entre outras enormes viagens de caiaque, seguiu com meus hermanos de Rosário desde Rosário (Argentina) até o Rio de Janeiro em caiaque.
 
O barco, incluindo os tripulantes, leva mais de 600 kg entre água, combustível e equipamentos. Levo apenas duas camisetas, uma que me foi presenteada pelo comodoro do Veleiros do sul em 2005, sr. Mafred Florique e outra do Grêmio, aquele que ganhou de 7 X 1 do Figueirense em Floripa.
Passamos a última noite em Corumbá no próprio Guarani, pois demorou muito para arrumar tudo. Nahuel e David seguiram na manhã do dia 26 de julho, sábado, com o reboque desmontado sobre a van, rumo a Buenos Aires, mais de 3500 km ao sul.  Sigo meio desesperado, pois não encontrei um punhal para vender. Como vou enfrentar onças, jacarés e anacondas apenas com um canivete? Esse foi presente do Fernado que mora na Alemanha, grande amigo!
 
O rio ali no começo raramente passava de um metro. Várias vezes seguíamos com meio metro. Por três vezes, encalhamos em banco de areia, mas o Ernesto conseguiu fazer a volta enquanto Juancho levantava a bolina. Logo de saída, topamos com inúmeras canoas de pesca, proa bicuda e elevada na proa. Afora as canoas, balsas de garimpo e jacás (imensos cestos que ficam semi submersos nas margens onde os pescadores os mantém vivos). Muitas cevas e barcos de pesca apoitados lado a lado. Os atrativos eram os biguás, anigás, garças-mouras e martins-pescadores.
 
Na saída passamos por duas pontes. Antes delas o primeiro momento de tensão: uma corredeira em curva, um barco pesadíssimo e a responsabilidade de apontar por onde passar. Um “V” invertido que se forma pouco antes. Revivi um pouco do trauma das corredeiras do São Bartolomeu em Brasília.
 
Sigo na proa filmando e fotografando. A paisagem é belíssima e a ficha começa a cair. Outra grande aventura está se iniciando, pena que não tive tempo de vir de bicicleta desde Floripa, como queria inicialmente.
 
Adiante vemos papagaios, colhereiros, às 15h30min, passamos por Sto. Antônio de Leverger. Curvas de rio com praias de areia. Paramos às 18h30min, já noite e com muitos mosquitos. Ernesto veio preparado: mosquiteiro que fica sobre a proa, repelente, inseticida, espiral de fumaça, lampião com óleo de citronela e mais meio quilo de farofa.
Quando Juancho foi ao banheiro avistou um filhote de jacaré quase ao lado do barco, bem ao lado dele.
 
27 de julho de 2008 - Domingo
Seguimos bem cedo e os bandos de macacos prego, algumas capivaras e jacarés vão surgindo até que resolvemos tomar uma cerva gelada em um restaurante e pousada ao lado do rio.
 
Comemos deliciosas piraputagas fritas, enquanto Robson e Marcos nos descrevem as belezas do lugar. Ali vendem Tuviras, um peixe comprido que serve de isca para a pesca de dourado, são vendidos a um real a unidade. Enormes gameleiras evolvem pés de Bacuri e áreas desmatadas se revezam com áreas bem sombreadas.
 
Seguindo adiante, passamos por uma usina considerada patrimônio histórico: a Usina de Itayci, com mais de 300 anos, uma enorme torre e casrio de tijolo ao lado de uma corredeira de pedras. Escutamos muitos saguis, mas não os vemos.
Com velocidade média de 5 km/h, avançamos 50 km ontem e 53 km hoje, previsão inicial do Ernesto.
 
28 de julho de 2008 - Segunda Feria-  2° Dia
O espetáculo da neblina se erguendo sobre as águas do rio, ao amanhecer, não tem preço, pássaros, garças e macacos nos retiram do silêncio absoluto. O motorzinho tem gastado apenas 5 litros/dia. O dia sempre começa com um mate e galletas (bolachas) enquanto passamos por muitas casas e pescadores. Passamos por Boca das Conchas e avistamos 4 pequenos cerros com vegetação seca e muitos gaviões. Fomos surpreendidos por uma batalha entre dois grupos de macacos pregos que disputavam os frutos de uma árvore dali.
 
Início de tarde e finalmente chegamos a Barão do Melgaço, local onde aqui perto dizem que as onças mataram o rapaz de 21 anos. O pessoal dali confirma a estória. Ligo pra mãe e pra Adri na pousada. Tudo bem, vamos em frente com duas garrafas de vinho "mata-rato" que comprei, mas Erne e Juan refugaram. Azar, tive que beber sozinho, IC ! Ali em Barão avistamos as primeiras chalanas, algumas transportando passageiros. Juancho pescou duas enormes e dentuças cachorras.
 
Paramos amarrados aos galhos de duas enormes árvores, onde havia dois jacarés que não queriam sair dali. Coloquei o canivete na boca e fui a direção dos jacarés que fizeram um reboliço enorme quando os surpreendi de faca na boca. Enquanto tentavam comer as cachorras que Juan não quis comer. Juan filmou tudo e se ria muito enquanto eu encenava o pelotão farroupilha atacando jacarés. Logo eles voltaram e os filmei comendo os peixes, muito show!
 
29 de julho de 2008 – Terça Feria - 3º dia
Hoje o rio estreitou-se e a mata fechada expunha um pouco da rotina por aqui, muitas aves aquáticas, cipós com bulbos que descem até o rio Cuiabá. Em um local, uma curva por fora, o barco bateu forte em rochas, não passavam da altura da pá do remo. Ernesto segurava o leme e o motor enquanto Juancho erguia a bolina e eu empurrava com o remo. Foi só um susto!
 
Adiante, vimos pantaneiros cruzando um rio em barcos trazendo a reboque seus cavalos.
Depois curvas com praias, muitos jacarés, jaburus e um ninhal de garças. Uma gritaria só.
Esta noite colocamos âncora em uma praia de areia onde eu e Juacho, descemos para filmar jacarés e peixes que ficavam no raso.
 
30 de julho de 2008 – Quarta Feira – 4° Dia
Hoje o bicho da vez foi uma família de tucanos com bico esverdeado, peito amarelo e uma banda vermelha no peito. Depois cruzamos com um enorme barco hotel, coisa que viria a se tornar comum. Penetramos em uma reserva ecológica do SESC.
 
Das 12 às 16 h o recurso é molhar seguidas vezes a camiseta pra aguentar o calor. Paramos sempre por volta de 17h30min h para dar tempo de desarmar a vela, colocar o mosquiteiro e preparar a janta antes que os mosquitos ataquem.
 
31 de julho de 2008 – Quinta Feira – 5° Dia
O dia seguiu seu curso até que uma enorme chalana entrou em contato por rádio com Juancho. Eles se espantaram de ver um veleiro por aqui e comentaram:
- É uma novidade! Parabéns para vocês, sigam com Deus!
Juancho repetia estas palavras em voz alta com seu sotaque carregado. Muito hilário.
Ao meio dia passamos por Porto Jofre. Em outra curva de rio, uma capivara e seus dois filhotes chamaram a atenção, pois um, dos filhotes era tão pequeno que não conseguia subir um barranquinho de areia.
 
Ariranhas
Juancho percebeu um grupo de ariranhas de peito branco que se erguiam um pouco cima dágua para observar melhor e soltar uns grunhidos de advertência antes de mergulharem. Muitas capivaras, ninhos de jaburus e bugios depois, penetramos em outra reserva estadual "Encontro das Águas". Velejndo e monitorando, seguimos muito tempo, sem ver ninguém. Parece que finalmente chegamos ao pantanal, com muitas terras alagadas.
 
Jacarés e Talhamares
Uma praia, repleta de talhamares, garças e jacarés, foi eleita para o descanso. Os jacarés não tinham medo e ficavam ali do lado. Juancho encontrou pegadas de onças e eu encontrei vários ninhos de talhamares (buracos na areia) com dois ovos pintados em cada.
O sol poente e as gaivotas foram um show a parte. Um dos jacarés, revoltado com perda de sua praia, ficava ao lado do veleiro. Resolvi descer no escuro e gravar uma cena de batalha:
Eu (com o canivete na boca) correria na direção do jacaré que estava encostado no casco e ele deveria fazer sua parte na filmagem, chacoalhar a cauda e dar no pé, morrendo de medo do pelotão farroupilha. Juan iluminava o jacaré com a lanterna e filmava.
 
Corro na direção do jacaré com o canivete na boca e quando estou pronto para dar o salto mortal sobre o bicho, percebo que ele não fugiu (como o combinado) e me esperava com a boca semi aberta, furioso. Quase levo um dentada de bobeira.
Tem jacaré que não se conforma em ser ator coadjuvante! Para não cair por cima dele, meus braços ficaram girados para trás e o pelotão pulou fora. Juancho e Ernesto riam sem parar e o pelotão passou vexame. Tive que repetir a cena para lavar a honra do Rio Grande.
 
Corri pra cima do corno de novo e, com uma rajada prévia de areia (na cara e nos olhos), ele finalmente bateu em retirada e o pelotão avançou até onde ele estava antes. (Um pouco de truque sujo para salvar uma cena de batalha, hehehehe).
 
Como encontramos várias pegadas de onça, estávamos de sobreaviso dentro do barco. Sinto um baque no barco, como se um bicho tivesse subido a bordo pela proa. Dei um salto e Ernesto e Juan se torceram de rir, mas um novo baque fez todo mundo correr atrás de faca e facão... Nada!
Só depois descobrimos que era o maldito jacaré raspando no casco...
Ficou a noite toda assim. Acho que foi vingança!

Fonte: André Issi
Cidade: Florianópolis-SC-Brasil
Fotos: André Issi
Publicado: Berenice Correa
Date: 21/07/2008 <%insert_data_here%>

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  Evento 10006 - Uma grande aventura em um veleiro 2008

   Aqui os Albuns e Fotos



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