Terry Fox
Acordei depois de dormir 3 horas, eram umas 9:00 horas da manhã, corri para ver o que era, pois senti que o navio estava andando a toda velocidade. Fui ver e tinha um navio na frente todo, vermelho e branco, em alta velocidade, era o quebra-gelo da marinha, abrindo um trilho para os navios, algo realmente incrível.
Todo mundo do navio estava ali na frente conversando e olhando. Ao meu lado vi as montanhas, estilo fiordes, vi um glacial e muita paisagem bonita. Ao nosso lado as gaivotas voavam junto e aterrissavam na água de vez em quando, provavelmente porque o quebra-gelo ‘descobria’ coisas para elas comerem.
Para abrir mais o gelo quando ele estava muito fechado, o Terry Fox chegava a quase andar de lado. O navio quebra-gelo não era muito grande, mas usava sua velocidade para virar todo o gelo. Tinha horas que o gelo voltava, mas ai nosso barco na mesma pauleira afastava, até por que era o gelo mais fino que voltava.
Eu subi para o outro andar então, para fotografar o navio quebra-gelo e o nosso juntos. Tirando fotos e deixando filmar lá de cima, o navio quebra-gelo fez uma curva e o nosso não conseguiu fazer, e então pegou um gelo bem grande, desviando nosso navio, foi um horror, todo mundo deve ter se desequilibrado. A filmagem ficou 10, ainda bem que ninguém se machucou. Eu ficava fascinado com as montanhas e com as lagoas azuis sobre os gelos.
Depois foi a vez de a gente fazer as fotos com o Terry Fox, e depois cada um ia olhar o navio pelo buraco que tinha na frente do navio. Era emocionante pois você ficava trancado pelos ombros e a cabeça saia para fora, incrível a sensação. A Carolina disse que eles faziam isso com os golfinhos andando juntos.
Foram ótimos momentos que passamos ali na proa, todo mundo mais relaxado, pois não teríamos mais desembarques, apenas seguiríamos até nosso destino que era Iqualit, capital da província de Nunavut, ao nordeste do Canadá. Praticamente um conjunto de ilhas povoadas pelo povo inuit, os aborígenes, que muitos chamam de esquimós.
Mas os semblantes das pessoas começava a mudar, notava as pessoas um pouco mais quietas, mais sérias, para mim começaram a perceber que iríamos nos separar do grupo que conviveu duas semanas e só ficaria mais um dia junto.
O gelo foi acabando e o Terry Fox parou, passamos por ele e eu não acreditava que tinha terminado o gelo. A gente não sabia que eram os últimos momentos do Terry Fox, o nosso navio soou uma buzina para ele e ele respondeu, passamos deixando ele para traz.
Para mim foi um aperto no peito, se soubesse que o gelo tinha terminado tão rápido, não teria dormido. Ali ficava ele para tráz e voltava para o gelo, provavelmente para fazer o mesmo por outro navio. Notei que a frente do Terry Fox era achatada.
Olhando para frente, o mar era um espelho. Então meu amigo que eu chamava de meu pai, pois ele ficava me controlando, tiramos um monte de fotos. Veio um navio no sentido contrário, provavelmente o Terry Fox ia abrir caminho para ele.
Fomos para o almoço, foram feitos os discursos, a líder e o pessoal da equipe de organização fizeram uma retrospectiva da viagem, e orientou sobre o outro dia, que deveríamos deixar as malas prontas fora da cabine, que a tripulação levaria para terra de botes, e depois a gente desceria.
Muita gente tirou tarde para organizar sua mala, já eu deixei para a noite. Passava o tempo todo gravando DVDs, pedi para o Rene gravar uns para mim e assim distribui para quase todos, deixei um com a Carolina para o pessoal da organização e outro copiei para o computador dos marinheiros, que estava com o Windows todo em russo. Deixei um DVD com o sub-capitão e
fui ver uma cidade que aparecia ao longe, mas mesmo com o zoom da lente não conseguia ver pois o calor do ar deixava a câmera sem nitidez.
Agora estava quente, tínhamos saído do gelo, meu medidor de temperatura foi para 24ºC. Eu sentia muito meu ombro, andei demais com as lentes para lá e para cá, peguei mais uns remédios com o médico, eu tava feliz que as dores das minhas costas estavam 100%, não tive mais.
Chegamos na frente da cidade pela meia tarde, passavam por nós os barcos de pesca estilo um sapato, bem estranhos. O pessoal vinha com a família passear por ali. Eu gritava para eles e eles me saudavam também. Dava para ver que eram aborígenes pelas vestes, as mesmas que eu vi no norte do Canadá no inverno.
A cidade era pequena, parece que tinha 6 mil habitantes, imagine isso para uma capital. O pessoal voltou para a proa, provavelmente já tinham arrumado as malas. Mas umas poses que tirei do Tony se fingindo de bêbado foi fora de série. Ele foi um grande companheiro de viagem, vou sentir muita saudade dele. Outro que vou sentir saudade é do John, o aborígene gente boa, e os dois colegas dele também.
A janta seria com o capitão do navio, entramos lá e o Duncan e a Maggie estavam com trajes de festa, ele com uma roupa tradicional irlandês, isso que ele era australiano. As mulheres foram claro tirar fotos com ele.
Durante a janta, a líder e o capitão deram seus discursos. Depois da janta fui para a proa do navio novamente. Ali, além de curtir o pôr-do-sol, vi o pessoal local passeando de barco. Eu continuava brincando com eles, saudando. Era gratificante ver as criancinhas abanando também.
Depois voltei para a cabine e continuei gravando os DVDs, e comecei a arrumar minhas malas. Uma de roupa deixei quase pronta e coloquei no lado de fora. Lá pela meia noite voltei para fora e tirei mais umas fotos. Era legal ver a cidade com todas luzes e a luz do entardecer, que não mudaria muito a noite toda.
De noite estava muito frio, não fiquei muito tempo pois não sai agasalhado, só com a toca. Voltei ao quarto e arrumei a mala, deixando-a pronta. Cuidei para não acordar meu colega, se bem que ele era bom de sono. Coloquei os tripés na minha mala de golfe, juntamente os acessórios que não quebrariam. Tinha a mala dupla para roupas, onde tinha roupa para frio e para verão, pois ficaria uns dias em Ontario e lá era verão.
Na manhã seguinte, sem café, novamente fui direto para o desembarque. Levei minha lente grande, a maleta amarela com as filmadoras e a mochila com as câmeras e lentes de foto. É muita coisa, mas fazer o que né? Procurei me despedir de um por um, na fila do bote, era como uma despedida adiantada. Pois eu tinha adorado aquele pessoal, cada um com seu jeito e seu estilo. Aprendi muito com eles, a líder da expedição ficava abraçando a cada um e ia se despedindo também.
A Carolina estava do lado de fora e parecia até que estava doente, dava para ver no seu rosto que sentia muito a partida do pessoal. Acho que nestas viagens ela conhece muita gente legal e sempre ver eles partindo deve ser triste. Dei um abraço bem grande nela, gostei dela, era uma pessoa bem simpática.
Como não tínhamos ainda o colete salva-vidas fui colocá-lo e não coloquei as botas, pois seria mais simples. Embarquei no último bote, como sempre, e no caminho vi o último iceberg, que estava próximo a cidade. Os barcos estilo ‘sapato’ toda hora passavam por nós. Assim chegamos na praia de pedras, onde desembarcamos e me despedi do pessoal rapidamente, prometendo manter contato.