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Aventuras a bordo de um SpaceFox 2008 - 16ª Parte

Eduardo Fenianos, conhecido como Urbenauta, partiu no dia 26 de abril para uma expedição, na qual vai rodar por todas as capitais do Brasil, a bordo de um Volkswagen SpaceFox, percorrendo 40 mil km até outubro de 2008, quando retorna para São Paulo com os registros das realidades social, cultural e ambiental destas cidades. 16ª Parte.

30 de julho de 2008

Hoje com todos os pés entrei na região Norte. Antes de falar de contar o que me aconteceu já na chegada, quero agradecer o carinho, as amizades, o respeito que recebi do povo nordestino. No nordeste, educação e carinho são genéticos. Ontem fui acolhido por ambulantes do Maranhão. Sobre o que aconteceu: para chegar a Palmas, via Miracema do Tocantins, primeira capital do Estado e antiga Miracema do Norte ( aquela da música da Blitz), atravessei o belíssimo Rio Tocantins utilizando uma balsa, que fica alguns quilômetros abaixo da Usina do Lajeado.
 
Lá se foram R$ 10,00 do salário-mínimo. Com não queria deixar de registrar a passagem da Urbenave pela balsa, me aproximei de um rapaz em uma moto e pedi que ele entrasse na balsa antes de mim e filmasse a entrada do veículo. Ele entrou e, entre o momento de eu sair de perto dele e entrar no carro, a balsa partiu. Dentro dela a filmadora e ele me dando “tchau”. Gritei para o marinheiro, balseiro, ou seja, lá o que for, para frear aquele treco, mas nem me deu bola. A Balsa foi. Outra balsa veio.
 
Eu segui fotografando e filmando com outra câmera o Rio Tocantins, sua mata ciliar e o povo apinhado nela. Já sentia saudades da filmadora. Com a tele objetiva tentava pescar aquele que era para ser meu cinegrafista do outro lado do rio. Nada do cara. Pensei: Ferrou! Desculpem o termo, mas tinha ferrado tudo mesmo. Sem filmadora, viajar por quê?
 
Quando estava chegando do outro lado do Tocantins, vi um carinha franzino, em um ponto estratégico, protegido por uma sombra, filmando a balsa. Usei o zoom e lá estava o meu cinegrafista concentrado no visor da câmera. Filmada por ele, a Urbenave desceu da balsa e começou a sentir que por aqui, no Norte, teremos muita poeira no lugar de areia.
 
 Eu segui como se não fosse parar. O rapaz gritou: Olha a câmera! Dei a ré. Perguntei seu nome. Agradeci. Perdi uns 30 minutos de fita, não sei se as imagens ficaram boas. Mas tive mais uma prova de que ainda existe muita gente boa por esse Brasil. O nome do rapaz é Alcides. Amanhã falo de Palmas e do que já estou vendo por aqui.
 
31 de julho de 2008
 
Fiz ontem e hoje uma breve incursão no centro de Palmas e seu Marco Zero. Como ainda não o entendi direito, resolvi estudá-lo depois e segui rumo ao Norte. Se um dia vier a Palmas ou morar em Palmas e quiser chegar a ele, faça o seguinte roteiro: Siga a JK, vire na TO 010, encontre um motoqueiro em uma estrada de um bairro muito vermelho, cercado por um capim que parece ouro.
 
 Peça informações ao motoqueiro. Ele vai te aconselhar a falar com o Zé Tatu, que mora logo ali. Faça amizade com o motoqueiro e ele vai te levar ao Zé Tatu. Chegando ao Zé, você esta feito (a). Com um jeitão caipira, deitado na sua rede, ele vai te receber como se te conhecesse há uns 20 anos e vai começar a dividir sua vida com você. Tudo com o aval de seus cabelos brancos, de seus bigodes também brancos e muito bem aparados.
 
Uma das filhas do Zé, que vem a Palmas para visitá-lo duas vezes por ano, vai te convidar para ir ao acampamento deles, que fica no caminho do extremo norte. Vá. O lugar vale à pena. Águas limpas do Tocantins, sombra e arroz com carne e pequi, mais o palmito goiano feitos em uma fogueira improvisada. Observe e converse com as crianças subindo nas árvores, o reflexo da água no rio. Mergulhe nas águas e naqueles que estão ao teu lado.
 
Depois de se livrar daquela tristeza que bate depois do almoço, se aproxime com calma do Zé, porque o cochilo na rede é sagrado e pergunte: “O fim de Palmas ao Norte é aqui, Zé?” Ele vai responder: “Não. Ande mais uns 4 km, quando você olhar uma estradinha à esquerda e um ponto de ônibus com cobertura de palha à direita ali é fim de Palmas. Siga seco na resposta do Zé. Ao seu lado esquerdo, você terá o reflexo do sol que já está quase se pondo por detrás do Rio Tocantins. À direita a Serra do Lajeado e seu cerrado iluminado pelo mesmo sol forte do final do dia.
 
Ao chegar à estradinha, entre nela, estacione o carro. Desligue tudo e passe a ouvir como os pássaros cantam no final do dia. Cantam homenageando o cerrado. Sinta o sol gostoso do final do dia queimar teu rosto e teu resto também. Tire e roupa. Atravesse a estrada e aproveite a sombra do ponto de ônibus onde não vi ônibus ou passageiros. Pense na vida. Converse com você mesmo (a). Depois disso, siga sem rumo. De qualquer lugar você vai assistir ao casamento do Sol com as águas do Rio Tocantins. Não sei se o ponto extremo norte é ali mesmo. Só sei que a partir de hoje Zé Tatu falou, para mim está falado. Zé sabe viver.
 
02 de agosto de 2008
 
Momento difícil da viagem. Os mapas não cooperam. Eu que sempre soube para onde ir, estou sem rumo. Calor insuportável, cansaço, tristeza.
 
03 de agosto de 2008
 
 Noventa e nove dias de viagem. Noventa e nove camas diferentes. Número legal. Acordei na casa do casal Raimundo e Benta, que conheci ao me perder em uma das centenas de quadras de Palmas. Junto a eles conheci a Feira de sexta que acontece na cidade. Quer encontrar alguém em Palmas? Vá até ela. Todo mundo vai para lá comprar, ver, ser visto, experimentar as comidas típicas de vários cantos do país.  
 
Ali mesmo conheci a bombeiro Juliana, sua mãe Dinah e sua irmã Josi. Foi com a ajuda Juliana e dos mapas que começaram a me mostrar que, depois de percorrer 97 km, alcancei o ponto extremo leste de Palmas. Essa distância demonstra bem o que são os 2.218,9 km² da capital com a menor população e com o maior território até o momento. A vegetação é toda de cerrado. O rio que marca a divisa com outro município, bem atrás da casa da Dioneide e do Pedro, capatazes de uma fazenda de gado, ainda é limpo. Tomei água nele.
 
No retorno, o crepúsculo e mais uma queimada se misturavam no horizonte do cerrado de Palmas. Juliana me chamou a atenção para uma árvore que pela ponta dos galhos soltava fumaça como se fosse a chaminé de uma fábrica. Descemos da Urbenave e fomos até ela. Cozinhava como se fosse feijão em uma panela de pressão. Morria lentamente. Queimada clandestina? Queimada autorizada? Era fogo que queimava por dentro. Um fogo que não tinha mais volta. Um fogo que nem a Ju Boy, a bombeiro que faz rapel, que captura cobras, que dirige grandes caminhões, que toca berrante, consegue apagar.  
 
Saldo mês do mês de julho, incluindo salário e economia dos meses de abril, maio e junho, conforme prestações anteriores: R$ 730,88
 
05/07 - R$ 208,62 - Passagem de ida, com desconto dado pela Cia de aviação:
08/07 - Passagem no Noroinha: R$ 3,10
08/07 - R$ 200,68 - Passagem de volta também com desconto
11/07 - R$ 1,00 - Jogo do bicho. Em Fortaleza me falaram que era legal. Pensei num investimento para suprir os gastos para Noronha.
13/07 - R$ 30,00 compra de uma rede no Mercado Central em Fortaleza
13/07 - R$ 5,00 gastos na praia do futuro
13/07 - R$ 15,00 divisão de despesas em churrasco na casa do Igor
14/07 - R$ 6,00 estacionamento
 
20/07 - R$ 1,00 melância comprada da Dona Maria Antônia
20/07 - R$ 4,50 - cerveja
21/07 - R$ 22,50 despesas gerais
21/07 - R$ 1,90 mp3 pancadão Laser som - coletânea reggae de Teresina
22/07 - R$ 3,00 ( água)
28/07 R$ 0,50 empréstimo para pessoa que me pediu no reggae
28/07 R$ 7,00 - duas cervejas ( Obs: o Tarcísio estava dirigindo)
30/07 - R$ 10,00 balsa passagem rio Tocantins
 
Total de gastos em julho R$ 516,70 - Saldo de julho: R$ 214,18 - Salário de agosto: R$ 415,00 - Saldo total para mês de agosto: R$ 629,18
 
04 de agosto de 2008
 
Cem dias de viagem. Calor de quarenta graus. Eu sozinho na imensidão da Praça dos Girassóis, considerada a segunda maior praça do mundo e, sem dúvida, a mais quente. Depois de um encontro com o ponto geodésico do Brasil, de tentar ficar sentado por mais de 15 segundos em um dos poucos bancos da praça, inexplicavelmente feitos de concreto, e de esperar que o relógio de sol marcasse meio dia, não suportei. Em frente ao Palácio Araguaia o som de uma cachoeirinha me chamou a atenção como se fosse à neve para o pingüim que vinha do deserto.
 
A água parecia limpa. Toquei e estava uma delícia. Cem dias. Comemoração! Calor! Agüinha! Não teve jeito. Fui de cueca mesmo. E agora entendo os meninos de rua. Se Chafariz já é bom, imagine cachoeira em frente ao Palácio do Governo. Urruuuuu. E Palmas se mostra muito tranqüila até aí. Nenhum guarda foi me tirar dali. Depois de uns quinze minutos é que apareceu uma moça dizendo: “Olha moço! Essa cachoeira não é de tomar banho, não.
 
Coloquei a bermuda e segui para a Praia da Prata, tentando descobrir onde se escondem os Palmenses em um domingo de sol. Depois de virar à direita após o Teotônio Segurado e perguntar várias vezes, pois Palmas é quase nula em sinalização turística, peguei uma estrada de chão e cheguei à praia. É artificial. Areia colocada sobre o barro da represa formada junto à cidade e que, segundo grande parte dos moradores, é uma das responsáveis, com seu espelho d’água, pelo calor insuportável da cidade. Teresina perto daqui é a Groelândia.
 
Umas quinhentas a setecentas pessoas se apinhavam ali, o que mantém o mistério sobre onde estavam os outros cerca de 179.500 moradores de Palmas. No meio deles, um casal não saía das lentes da filmadora. Jogavam baralho, tranqüilos, alegres, apaixonados. Aproximei-me e conheci Helen, 38, e Giancarlo, 45. Uma hora depois já estávamos combinados de que eu iria dormir na casa deles. Estavam completando um ano de casados.
 
Parti em busca do extremo sul. Setenta quilômetros rodados, muita poeira, fazendas, cerrado, uma porteira e, finalmente, uma casa. Faltava pouco para chegar a mais um rio. Mas esse ponto não deu. Não havia ninguém na fazenda e o cachorrão quieto e que não abanava o rabo não me deixou descer do carro. Na volta, mais um aniversário. A Urbenave completou 20.000 quilômetros de idade, com corpinho de 10.000. De presente, balanceamento, revisão, rodízio de pneus e uma super lavagem para nos livrar da poeira do cerrado.
 
Ah! Sobre a festa na República dos Jornalistas, tenho que fazer algumas denúncias. Tenho que denunciar que o Renato é o cara mais organizado do mundo, que o Fred é o contrário, que a Michele, além de produtora, poderia ser humorista, que a Talita deixa penduradas no banheiro as mesmas peças íntimas que a grande maioria deixa e que adorei conversar, trocar conhecimento e ser recebido por todos vocês. Amanhã parto para Belém!

Fonte: Eduardo Fenianos - Urbenauta
Cidade: São Paulo-SP-Brasil
Fotos: Eduardo Fenianos - Urbenauta
Publicado: Fernanda Cristina Gonzales Ferreira
Date: 30/07/2008 <%insert_data_here%>

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  Evento 10002 - Aventuras a bordo de um SpaceFox 2008

   Aqui os Albuns e Fotos



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