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Uma grande aventura em um veleiro 2008 - Parte 3

Adré Issi realiza uma grande aventura junto com seus amigos em um veleiro. Ele partiu de Florianópolis/SC dia 21 de julho de 2008 paasando por Cuiabá (MT) - Corumbá (MS) - Puerto Suárez (Bolívia). Veja o relato de 07 a 19 de agosto de 2008.

Amigos, escrevo desde Asunción por mais de 4 h. Agora seguimos mais uns 1700 km depois de percorrer cerca de 2000 km. Este é o diário desde que saímos de Corumbá:

07-08-08 Qunta-feira Corumbá MS

Volto pro barco, um calor de matar. Ernesto pede que volte ao centro e entregue o documento de saída na capitania. Subo a ladeira pela enésima vez e na capitania descubro que os documentos que eles próprios haviam dado não serviam. Teríamos que fazer tudo de novo. Desce ladeira, vapor a mil, com vontade de chutar qualquer coisa. Iríamos partir assim que eu retornasse. Assim teremos que fazer tudo no dia seguinte.
 
À noite subo a ladeira de novo para aproveitar e responder os e-mails dos amigos e envio as fotos de viagem. É claro que amanheci na lan house. Volto para o porto, desce ladeira, volto com o Ernesto , sobe ladeira, grrrrrrrrrrrrrrrrrr!
 
Centro, ANVISA, Receita Federal, Capitania de novo.... Quase. Eles ainda irão ao porto dar uma olhada no barco. Com bolhas nos pés, ainda vou buscar algumas coisas para a viagem e dali sigo de volta ao porto. Desço a bendita ladeira pela última vez. Empurramos os aguapés para o lado, agradecemos aos amigos das chalanas e finalmente partimos.
 
Um pouco mais adiante paramos em um posto de porto para abastecer o barco. Seguimos em frente, aproveito para finalmente tomar um banho e sacar el olor a chibo (bode). Assim passamos pelas ruínas do forte Rabicho, onde há uma base dos fuzileiros navais.
 
Paramos para dormir na entrada de um riacho, enquanto víamos um voraz dourado saltando ao lado do barco por três vezes seguidas. Lugar incrível, pois papagaios e aracuãs vinham pousar ao lado, enquanto um belíssimo pássaro laranja saltitava entre as ramas.
 
De noite escutei capivaras e um ronco que nunca havia ouvido antes, será que poderia ser uma onça? O barco estava amarrado em um galho, mas depois que vi aquela onça nadando ao lado do barco não duvido de nada. Dormi com dois facões prontos para entrar em ação caso ela quisesse variar o cardápio. Não me esqueci do cara que elas mataram em Barão do Melgaço e várias outras estórias.
 
09-08-08 Sábado
Partimos cedo e logo adiante cruzamos com um "empurrador", na verdade um gigantesco rebocador que segue empurrando 4 fileiras de imensas chatas de 50 m alinhadas. São 4 linhas de 4 chatas. Encalharam na curva do rio e, enquanto davam ré, vi um caiaque com dois caras e logo percebi que estavam viajando.
Eram Axel e Peter, da antiga Alemanha Oriental. Eles estavam em um pequeno caiaque duplo e seguiam para Asunción, cerca de 1100 km ao sul. A coberta do caiaque parecia ser de lona azul e a parte de baixo cinza. Enquanto eles lanchavam salame com pão, ficaram agarrados ao veleiro e nos contaram incríveis estórias:
Logo que o muro de Berlim veio abaixo (1994), eles resolveram sair pelo mundo de bicicleta. Daí viajaram "só" 5 anos... Depois disto, foram ao lago Titicaca (entre Bolívia e Peru) remaram por ali de caiaque, colocaram os caiaques em lomos de burros, desceram a cordilheira até um rio da Amazônia, seguiram pelo rio Madeira até Belém. Viajaram por diversos rios da Amazônia, todas as viagens juntas num total de seis anos.
Levam apenas redes de descanso e sacos de dormir. Nunca tiveram problemas com animais ou gente. Uma vez, enquanto um remava na popa, o outro dormia na popa. Nisto, uma cobra de cerca de metro e meio tentou subir a bordo, mas mudou de idéia quando levou uma "pazada" nos beiços. Na coberta de proa segue uma enorme bolsa vermelha (a prova dágua) e alguns mapas. Eles escolheram o Paraguai para viver. Já escreveram sete livros e isto ajuda a manter sua vida de aventuras. O e-mail dos caras é: heddorgens@gmail.com assim traduzi a letra do bugre.
Os caras são muito legais. Assim nos despedimos e cada um seguiu seu caminho.
 
Adiante outro visual incrível: entre 10 a 15 capivaras repousavam no pasto quando surgimos quase a seu lado. Sequer foram para a água, apenas nos observavam e seguiram atrás de um pasto mais alto. Muito show! O mesmo se passou com um enorme casal de tuiuius mais adiante. Dava para notar seu papo com uma coloração vermelha, o que o diferencia dos jaburus (joão-grande).
 
Velejando com vento de proa, seguíamos observando que os indicadores de km na margem agora possuíam placas solares e iluminação para quem segue pela noite. Estes indicadores possuem três letras: X - cruzar o rio H - permanecer no centro do rio e O - manter o rumo.
 
Perto de meio dia passamos por Porto Manga, onde havia uma balsa e muitas palafitas (casas erguidas sobre paus para permanecer acima do nível do rio nas cheias). Já no final de tarde chegamos a ponte da BR que liga Corumbá a Campo Grande, onde (em 1995) passei de moto numa balsa, vindo da Bolívia.
 
Paramos pouco adiante, já em outra saída de riacho (baía de São José). Baixei terra para amarrar o barco numa árvore no alto do barranco. Enquanto Ernesto escrevia seu diário no laptop, resolvi explorar a mata dali. Fui penetrando entre pés de bacuri, mas a sensação de estar sendo observado por alguma onça era inevitável. Vi de novo o pássaro preto e laranja e jacutingas fazendo enorme alarido para dormir. Martins pescadores, de peito laranja, quase me atacavam para defender seu território.
 
O mato quase escuro não me impediu de encontrar um crânio de jacaré embaixo de uma capoeira, onde cheguei rastejando. Os dentes da mandíbula se encaixavam por fora da maxila e o mais impressionante é que dois incisivos inferiores atravessavam a mandíbula e se alojavam acima desta, ou seja, eram aparentes na parte superior da boca. Assim eles aparecem quando o jacaré fecha a boca. Presenteei o crânio ao Ernesto que ficou muito feliz. Navegamos 93 km hoje.
 
10-08-08 Domingo
Amanheço com um enorme gavião negro pousado quase sobre nós. Um pouco adiante chegamos ao km 1000 da viagem, uns 4 km a noroeste da lindíssima ponte ferroviária onde deve passar o "trem da morte" rumo a Bolívia. Ela é em arcos e parece ter mais de 60 anos. Ali é Porto Esperança onde a maioria das casas são palafitas. Por duas horas e meia viajamos exclusivamente a vela, pois o vento ficou forte e o rio mais largo.
 
Ao chegarmos perto de montanhas que se avistava de longe, passando o cerro da onça, no morro Coimbra, avistamos um lindíssimo forte que descia as escarpas com canhões apontando para o rio. Lemas escritos nas paredes como:
- Somente pela sorte e honra das armas entregaremos o forte! ou
- Repelir o inimigo ou sepultar-se por baixo das ruínas do forte!
 
Isso deve ser muito antigo, do tempo em que políticos tinham honra e sentido de patriotismo (se é que algum dia tiveram). O forte é lindíssimo, todo pintado de branco e visível a léguas de distância (para quem segue no rumo da Bolívia). Seguimos em frente com o olhar voltado para trás. Que visão lindíssima!
 
Às 16:15 h chegamos ao marco fronteiriço (aproximadamente km 1310 do rio) BR-BO. Por 30 km teremos a Bolívia na margem direita e o Brasil (MS) na margem esquerda. Tivemos dificuldade em encontrar o marco, um pequeno obelisco escondido pelo mato e uma placa demarcando o Parque Nacional Pantanal de Otuquis (Bolívia).Amarramos o barco aos galhos de uma árvore na ponta leste da ilha Rebojo Grande (Brasil). Enormes ilhas flutuantes de capins e camalotes passam ao sabor da correnteza enquanto escuto bugios para o lado boliviano.
 
Brody, enquanto Ernesto escrevia, cerca de três tucanos pretos comiam e faziam algazarra aqui ao lado. Foi incrível estar ali filmando e fotografando enquanto eles comiam e se aproximavam curiosos. Eram pretos e de bico laranja, os mais bonitos para mim. Fizemos 97 km hoje, está rendendo mais porque estamos velejando bastante.
 
11-08-08 Segunda
 
Quando chegamos perto foi que descobrimos que Puerto Busch (Bolívia) não passa de um barco flutuante apoitado entre os camalotes e com cerca de 10 militares, muitos com cara de criança. Eles entraram em contato por rádio depois que passamos e filmei Ernesto falando com eles enquanto nos perguntavam de onde para onde iríamos. Depis nos desejaram sorte. Muito legal.

Depois de passarmos por lindos tucanos pretos de bico laranja, fomos "atacados" por vàrios Martins - pescadores de peito laranja porque "invadimos seu território. Chegaram a pousar na cruzeta do mastro para reclamar. Engraçado de ouvir seus resmungos.

Depois de 30 km tendo o território boliviano na margem direita, avistamos o lado paraguaio logo depois da foz do Rio Negro (fronteira entre Paraguay e Bolívia). Pela margem esquerda segue o Brasil. Já em território paraguaio, avistamos uma velha estância onde, ao redor de uma enorme caixa dágua oxidada pelo tempo milhares de cocotas (caturritas) faziam ninho.

O vento forte proporcionava picos de velocidade que alcançavam 13,5 km/h pelo GPS. Com vela mestra e foque (vela de proa) o Guarani seguia resoluto pelas ondas que se formavam. O pobre veleiro está muito carregado. Após passar por Puerto Bahia Negra(onde havia uma guarniçao naval paraguaia), seguimos em frente.

Minha filmadora parou de funcionar justo quando passamos por dois povoados indígenas. Muitas crianças, casas com paredes e tetos feitos com uma palmeira chamada carandaí. Um espetáculo a parte. A alegria das crianças respondendo aos acenos era contagiante. Lembrei dos meus tempos de piá! A palmeira carandaí é muito fina, reta e comprida, com as folhas formando uma moita quase no topo. Eles cortam ao comprido os troncos destinados ao teto. Daí escavam o miolo. Bueno, o tronco queda como uma calha. Daí eles revezam colocando um tronco virado para cima e outro para baixo. Igual as telhas coloniais.

Os habitantes são guaranis Tamarajás e outras subdivisões que não consegui reproduzir o nome. A língua guarani é muito gutural, o som sai lá do fundo da garganta. As florestas de Carandaí se sobressaem à paisagem sem morros e vegetação com árvores de cerrado. Estamos avançando através do famoso Chaco Paraguayo. Os portos vão se sucedendo: Diana, Lídia, Esperanza, todos com população indígena e que respondem freneticamente aos acenos. Que gente bela é esta do Paraguay!


12-08-08 Terça

Após cruzarmos com bandos de pássaros lindíssimos (corpo preto e cabeça vermelha), cruzamos com um empurrador. Em uma curva do rio Ernesto foi ultrapassá-lo por dentro (estava manobrando para fazer a curva) e quase fomos espremidos contra os camalotes. Para dramatizar um pouco, o motor apagou!

Foi um sufoco, mas seguimos em frente. Adiante algumas ariranhas nos observavam. Passamos o dia todo seguindo o empurrador. Ernesto preferiu ser cauteloso e não ultrapassá-lo. Com um cabo atado a popa dele, teríamos economizado combustível. Entrou um vento sul forte, acompanhado de frio e chuva. Parou um pouco antes de chegarmos a Fuerte Olimpo.

Desembarcamos junto ao paredão do porto municipal. Foi difícil, mas Ernesto usou sua experiência e conseguiu manter o Guarani bem amarrado ao paredão utilizando os galões de água como defensas.

Em terra, dois piás, índios Tamarajás, chamados Tiago e Rivaldo ficavam em roda enquanto Plácido nos dava dicas do local. Fui com os piás, seguindo o dique de terra, até o forte Olimpo. Uma escadaria de pedras leva ao forte. Ali muros de pedra, placas e vigias proporcionam uma linda vista do rio onde estamos vivendo. O forte foi construído em 1792. Volto ao passado, sinto um pouco de vergonha do Brasil ter participado do massacre ao povo Paraguaio em uma guerra criada pelos interesses da Inglaterra. Pobre dos vencidos, a história pertence aos vencedores.

Voltei ao barco e segui com Ernesto para visitarmos a belíssima igreja de Maria Auxiliadora, amarela e no alto da colina. Dali, seguimos já noite e sem luz no povoado (por causa de uma tempestade), rumo a um local onde pudéssemos comer algo. Encontramos ao lado do obelisco um lindíssimo barzinho feito de carandaí. Troncos inteiros como paredes e teto feito com as partes côncavas se encaixando. A sustentação era feita com troncos de quebracho, muito resistente.

Ali havia um cartaz:
- Fiado sólo acima de 80 años acompaniado de su avuelo!
Ri muito enquanto conversava (a luz de lampiáo) com a dona, Leurília, seu filho Damian e seus sobrinhos, Daco e (suspiro profundo) Eliana, uma morena linda que roubou um pouco do ar que respirávamos. Eurília explica que o telhado de Carandaí tem mais de 20 anos e não passa água, como pudemos comprovar assim que desabou forte chuva. Lembrando de Eliana, o caminho até o barco parecia não existir, apesar da chuva e do vento frio. Apesar de andar todo o dia a vela e sem o motor, fizemos quase 110 km.

13-08-08 Quarta

Seguindo em frente, passamos por Barranco Branco, onde há uma base da 2ª CIA de Fronteira. Um povoado se chamava San Ernesto, brinquei com meu amigo. Desde um dia antes avistava um cerro parecido com um vulcão. Era o Cerro Pan de Azucar com 585 m.
 
Cara, que lugar incrível. O rio seguia entre as montanhas coloridas por lapachos (ipês-roxos) e uma outra árvore colorida de diferentes tonalidades. O rio parecia terminar na curva seguinte, mas o caminho entre as montanhas serpenteava enquanto fortes redemoinhos faziam tudo girar.
 Ali passamos por Puerto Cerrito, que lugar...

Adiante uma lindíssima chalana amarela entre os meandros do rio e pescadores nos invitando para uma cerveja. Próximo de 16h, chegamos ao km 1000 do rio Paraguai. Chegamos cedo a Porto Murtinho, na marina do Miro. Paramos na náutica e baixamos terra para comer uma pizza. Ali havia uma pequena praça com o marco da enchente de 1979. Também havia uma pequena locomotiva e um enorme poste com uma placa de bronze na base:

- Obelisco mais alto de Mato Grosso do Sul (35 m)... É de dar risada!
  A cidade é protegida das cheias por um dique ao longo da city. Ernesto foi dormir e voltei ao ciber, mas fechou cedo e tive que retornar ao barco.

14-08-08 Quinta 19º dia

Ao passar por uma grande palafita, o que mais se destacava era a imensa quantidade de paus na base, parecia um paliteiro. Agora são 8h26min, já tomamos o mate tradicional e seguimos contra o vento. Como Ernesto está seguindo os camalotes (aguapés) e como brinco com ele que somos dois "cavaleiros da armadura oxidada " (vide livro) por termos nossas fixações: ele com o computador e eu com o a filmadora.

- Ernesto, somos los caballeros de armadura oxidada rumbo a el reino de Camalot! Adiante vejo os primeiros Sauces (salgueiros), mais comum ao sul, de Corrientes para baixo. Perto de meio dia chegamos ao povoado paraguaio de Sastre. Em frente está a última construção brasileira antes da fronteira, um posto da 2ª Cia de Fronteira. Alguns soldados sentados no alto de uma caixa d’água vendo os barcos passarem.

DESPEDIDA DO BRASIL

Finalmente chegamos ao rio Apa, aqui me despeço do Brasil. Passando a foz do rio, penetramos exclusivamente em território paraguaio, mais precisamente o Chaco. São 12:40 h. Adiós Brasil!

Ao longe vejo fumaça oriunda de povoados junto a barrancas esbranquiçadas e rosada. Ernesto diz que são "caleras", fábricas de cal. Os povoados dali (San Lazaro e Vallemi) vivem da extração de caliza e fabrico de cal nos imensos fornos alimentados com mata nativa. Passando o povoado de Casado, chegamos ao km 1500 da viagem (pelo GPS).
 
O rio espelhado e sem vento vê passarem barcaças velhas, empurradores e similares levando caliza (ROCHAS DE ONDE SE FABRICA O CAL) rio abaixo. As barrancas, fornos e caleras se sucedem enquanto o Guarani segue seu rumo no coração do Paraguai. O colorido das árvores é um show a parte!

Paramos para dormir em uma margem tomada de camalotes. Amarramos o barco a uma rama debruçada sobre o rio depois de navegar 127 km. Recorde até aqui.

15-08-08 sexta 20º dia

Amanhece com neblina e sem vento. Que eu me lembre, vejo o 1º quero-quero da viagem. Algumas pequenas gaivotas claras pousam nos camalotes. Pensei que as gaivotas se limitassem a costa oceânica, mas as vejo desde o interior do continente, principalmente talhamares e gaivotas de capuz.

Outra raridade foi um enorme jacaré, fazia tempo que não via um. Depois de Pinasco, seguimos velejando pelo canal da ilha Leonor onde observei três tipos de lapachos: branco, amarelo e roxo! Estou meio deprimido, pois uma mutuca negra, dotada de incrível inteligência, sumiu! A “desgraciada” picava dolorido e se escondia perto de onde estávamos. Assim que se sentia segura, voltava a atacar. GRRRRRRRRRRR! Era muito rápida e picava diversas vezes até ser finalmente abatida. Bueno, me desculpem os ecologistas e protetores dos animais, mas a maldita merecia ser torturada. Quando conseguia pegar uma com vida, arrancava perninha por perninha e as asas. Claro que deixava uma perninha para vê-la se mexer e sofrer.

- Tenente Issi, isso é pecado! Que nada soldado. Finja que és um padre, pergunte se ela acredita em Deus. Caso não responda positivamente, pode arrancar as pernas. Ela só pode ser uma maldita pecadora. O Ernesto é mais humano, combate o inimigo com produtos químicos, até já o chamam de "Ali Químico do Guarani". Essa mosca bem que merecia um pouco daquela bomba "humanitária" que os "brodys" usavam no Vietnam, uma tal de "Napalm". Tudo humanitário, como Guantánamo.

Se as moscas sumirem, que futuro sombrio terei! E assim seguimos o dia até parar nos camalotes e sem baixar terra (como na noite anterior).

16-08-08 Sábado

Bueno, quando passamos pela Bolívia, era dia da Independência boliviana e um plebiscito para saber se Hugo Moralez tinha apoio ou não. Aqui no Paraguai assumiu Fernando "Lugo" e hoje ele se reúne com Hugo Chavez.

Bueno, Ernesto fez um delicioso Capuccino e seguíamos pelo rio espelhado escutando música chamamé, enquanto observávamos as florestas de carandaí e as árvores coloridas. Infelizmente, o encontro foi acompanhado pela rádio. A música foi substituída pelos discursos de representantes paraguaios, Lugo e Chavez. Tudo bem, algumas coisas interessantes, mas escutar discurso no meio do rio... Ninguém merece!

A tortura da mutuca preta não foi nada comparada aos discursos, missas e outras barbaridades. Para preservar o último chapolin dourado e seus ovos, fui para a proa fazer abdominais enquanto tecia planos maquiavélicos de afogar o dito eletrodoméstico falante. Deve ser uma forma de me tornar uma pessoa mais perfeita, exercitar a tolerância, (hummmmmmmmmm)

A verdade é que sou um bugre sem "curtura"! Assim passamos por Concepción até que os políticos resolvessem comer e o rádio se calasse. O dia foi, foi e chegou ao fim. Fizemos 132 km com vento forte e discurso, um recorde!


17-08-08 Domingo 22º dia

Seguimos a vela e motor até passar por Antequera (onde baixei terra para comprar umas bolotas de pão, pois nosso estoque de bolachas acabou).

Retas longas, margens distantes e seguindo os camalotes. Barrancas mais altas surgem agora. Passamos por povoados como Rosário e Cuarepoti até pararmos em outros camalotes. Ernesto inventou uma "ancla camalotera" jogando um cano plástico preso a um cabo sobre os camalotes. Assim o barco ficava preso pela proa aos galhos e pela popa com sua original âncora. Evitava que o barco avançasse contra os galhos e ficasse fazendo ruídos durante a noite.

18-08-08 Segunda 23º dia

Amanhece frio e nublado. Chove um pouco e coloco o abrigo. Além das casas feitas de carandaí, agora surgem casas com taquaras. Essas casas e a população ribeirinha em suas canoas com proa dupla, movidos a remos presos ao centro são uma atração a parte.

Apesar de amanhecer a 120 km de Asunción, estamos com ganas de chegar hoje mesmo, cortando caminho por riachos que talvez estejam tapados por aguapés. Ernesto resolveu arriscar por um riacho com menos de 5 m de largura, repleto de aguapés. Como no início da viagem, fui a proa jogar um peso atado a um cabo para medir a profundidade.
 
Lembrei do livro "As aventuras de Mark Twein", e dizia a profundidade para Ernesto enquanto avançávamos em um dos locais mais bonitos da viagem. Florestas de um lado, capim flutuante e áreas inundadas de outro. Rio estreito, profundo e correntozo. Às vezes parecia terminar em uma curva, mas sempre seguia um canal. Os capins acariciavam o casco do Guarani enquanto eu e Ernsto filmávamos e fotografávamos. Show de bola!

Melhor de tudo foi ter economizado mais de 15 km e preciosas horas de viagem, pois o vento contra não permitiu o uso da vela. Passamos Puerto Barbero, Isla Ipecuá e na estância Monte Alto, uma árvore enorme, com tronco parecido com uma garrafa de refrigerante, base bojuda. Ernesto diz que é o Palo Borracho, o tronco é um depósito de água.

Passamos por torres de alta tensão e dali, seguimos por um riacho pela margem esquerda. Lugar lindíssimo, casas de ribeirinhos, uma série de gaviões, pescadores e barrancas. Depois casas de luxo, marina (clube centenario) até voltar ao rio. Era o riacho San Francisco. Tão perto de Asunción e tão lindo!

Um pouco antes de entrar no riacho, havia um Peñon, uma rocha imensa no meio do rio e uma espécie de castelo com farolete no alto. Todo pintado de branco, lindíssimo. Depois portos de cal, containers e barcos grandes.
Algumas dragas de areia.

Às 17 h entramos na baía de Asunción. Ali havia o prédio da Alfandega, um barco parecido com aqueles antigos do rio Mississipi com uma roda gigante lateral que movia o barco. Depois o palácio presidencial com enorme bandeira no topo, o senado e mais ao fundo o Club Náutico Asunción, o mesmo onde cheguei três anos antes, vindo com meu caiaquinho desde Brasília e com esta "perna" de 450 km desde Puerto Pilcomayo, Asunción hasta Corrientes de onde havia parado.

Uma emoção! Encostamos o Guarani no trapiche. Fred e Jorge ajudam nas amarras. Cerca de 15 jaçanás estáo ali do lado bem mansinhas. Depois visito Benitez que se recupera de uma cirurgia. Mais tarde chega Ito, grande amigo que táo bem nos recebeu. Vejo sua família, Alícia e os filhos Adrian e Fabrizio, agora com três anos, o tempo que estive aqui pela última vez.
De noite eu e Ernesto fomos ao centro comer alñgo e voltamos a dormir no barco.

19-08-08 Terça

Acordo cedo e venho ao centro para escrever. Agora são 12:15 daqui, estou desde às 8h. Aqui tá um reboliço, pois estavam inaugurando um monumento justo ao lado do clube, onde fica o Senado. Amanhã seguimos em frente
 
Abraço a todos.
André

Fonte: André Issi
Cidade: Asunción-EX-Paraguai
Fotos: André Issi
Publicado: Berenice Correa
Date: 07/08/2008 <%insert_data_here%>

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  Evento 10006 - Uma grande aventura em um veleiro 2008

   Aqui os Albuns e Fotos



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