23 de agosto de 2008
Depois de muita insistência e de muita compreensão do Seu Toninho, da CTV Transportes, vou conseguir embarcar para Manaus neste sábado ou domingo de madrugada, pois ainda não sabem o horário em que a balsa vai sair. Me avisaram que pode sair entre meia-noite e cinco horas da manhã. São 23h50min de sábado. Escrevo enquanto espero e os motoristas embarcam um caminhão atrás do outro. Deixam as carretas e vão em busca de outra carga.
Aqui segue somente a caçamba. Não é uma espera agradável. É uma espera cansativa, chata, mas uma espera necessária. Perco um dia e meio de viagem, mudando nosso cronograma, mas mantenho em pé o planejamento de seguir junto com a urbenave em todos os momentos. Já tenho ciúmes dela.
Falando em ciúmes, depois de um bom tempo de convivência, de tê-la sempre ao meu lado, como companheira, confidente, cheguei hoje à conclusão de que agora não tem mais jeito. A separação é inevitável. Tentei, busquei, gritei para todos os cantos e não teve jeito. Soraia não voltou. Ela que, como boa companheira, sempre me guiou, agora já deve estar nas mãos de outro ou outra. Mas nunca com a mesma energia e vigor porque os cabos da bateria estão comigo. Poderão admirar sua beleza, mas não experimentá-la.
Sigo agora com outra companhia, sem nome definido. Pensei em Karina. Mas é nome de mulher bonita. Pode acontecer de quererem roubá-la de mim também. Pensei no nome de uma secretária, de uns 70 anos, que seja sábia e nada atraente. Ainda não veio na cabeça. Vou tentar manter uma relação profissional e não me apegar, como aconteceu com Soraia - o GPS anterior.
Ela era um excelente ombro. Eu me abria, falava de minhas dúvidas e ela sabiamente me aconselhava, respondendo: “Recalcule a rota.” Quero agradecer à Dona Annielle que com muito carinho me acolheu em mais este dia de estadia em Belém e me apresentou a pizza da jambu com camarão e a farinha de puba com molho de galinha. Uma delícia!
Quero deixar claro que o roubo dos equipamentos em Belém foi um detalhe na visita pela cidade. Não havia contado antes, mas em Palmas, que é considerada a primeira ou segunda cidade mais segura do Brasil, também fui furtado. Levaram meu chinelo na Praia da Prata. E houve danos físicos, pois tive que voltar na areia infernal da, ao menos para mim, capital mais quente do Brasil. Saiu até bolha no pé.
Temos apenas que tomar cuidado com quem cuida de nossas cidades. Li no jornal uma declaração do Secretário de Segurança, aconselhando os viajantes e turistas a evitarem lugares “perigosos”. Ele deve estar apanhando do Secretário de Turismo, pois este lugar perigoso é a Praça da República, que abriga o Teatro da Paz, um dos mais famosos cartões-postais da cidade.
É o mesmo que o Secretário de Segurança de Paris aconselhar os turistas a evitarem a Torre Eiffel ou o Secretário de Segurança do Rio de Janeiro nos aconselhar a evitar o Pão de Açúcar. Há muito tempo não sou mais o mesmo. Entre a cama e a rede, prefiro a rede, entre um banho quente e o frio, prefiro o frio, entre a farinha fina do sul e a grossa do norte, prefiro a grossa.
Experimentei o que realmente é açaí, vatapá e maniçoba. Até escrever seu nome corretamente já sei. Bom. Pelo andar dos caminhões, a espera vai ser longa. Devo chegar em Manaus na quinta ou sexta-feira. Se a conexão ajudar, nos falamos no caminho.
26 de agosto de 2008
Hoje a Expedição está completando 4 meses. O Urbenauta Eduardo continua a caminho de Manaus, pelo rio, sem acesso à comunicação. Assim que possível ele publica o relatório desse mês e manda mais notícias.
Equipe Urbenauta
27 de agosto de 2008
Contato urgente. Peguei uma conexão no meio do Amazonas. A Saída. Apesar de ter deixado o carro às duas e meia, fui o penúltimo a embarcar. Há pessoas que procuram te conhecer pelo olhar. Outras pela persistência. O Baracho, gerente da transportadora, se enquadra no segundo caso. Ficou o dia inteiro sem falar comigo, sem me olhar no rosto. Tentei puxar conversa e não obtive resposta em nenhuma das tentativas. Apenas dizia: "Quando for sua vez te chamo".
Me chamou para o embarque às 2:30 da manhã. Desci do carro e ele parecia outra pessoa. Me contou toda a sua vida de muita luta e garra. Senti que havia passado no teste. Eu era um dos dele e agora sim merecia seu respeito e atenção. Fui dormir 5 da manhã, depois que formamos o comboio com 110 carretas, dois tratores e uma urbenave, empurradas pelos 1713 km de Belém a Manaus por um rebocador de 2000 cavalos.
O Primeiro Dia
Acordei com um apito. Pulei da cama assustado. Estávamos afundando? Abri a porta do camarote - esse é de verdade - e Dona Maria tirando o apito da boca disse: "Hora da bóia, filho"! Eram dez horas da manhã. Não sei se já comentei,mas nas balsas o almoço é às 10 horas da manhã e o jantar às 5 horas da tarde. Comida boa. Frango ensopado, macarrão, carne de panela, arroz, tucupi. Mas a do Conde era melhor.
Como é de praxe, lavei meu prato. Um dos marinheiros veio mostrar meu tênis. Havia colocado em um canto, pois estava cheio de barro. Me enchi dele quando fui gravar a colocação das carretas na balsa. Era um chamado discreto para eu lavar meu companheiro de 4 meses de pernadas. Lavei o tênis com a água bombada da própria bacia amazônica e fui pro quarto dar uma primeira olhada
no álbum fotográfico que deve ficar pronto até o final do ano.
Rendeu até uma hora da tarde em um posição nada confortável. Com dor nas costas, resolvi me esticar na cama. Acordei outra vez com o apito. Estávamos afundando? Olhei para porta do quarto, aberta, e lá estava Dona Maria. "Bóia do Jantar, filho!" Já eram 5 horas. Hora do jantar. Caraca! Que carinha come e dorme. Acho que o cansaço bateu mesmo. Arroz, feijão, galinha ensopada que sobrou do almoço e um bife delicioso. Mas o do Conde era melhor. Verifiquei meu tênis. Seco.
Hora de dormir. Outra vez. Meu camarote treme como montanha russa e tem como canção de ninar um motor de 2000 cavalos. Durante uma hora tentei pegar no sono. Impossível. Aventura mesmo é o trabalho desses marinheiros. Um deles me disse que quando chega em casa sente falta do barulho. Liguei o computador, conectei o fone, liguei minha seleção preferida do Bob Marley e apertei bem o fone no ouvido crente de que iria pegar no sono. Não adiantou.
O motor de 2000 cavalos cantava mais alto. Radicalizei. Separei umas músicas do Metallica do arquivo mp3 que a Tati me mandou e liguei. O som do motor de 2000 cavalos ficou pra trás.
O Segundo Dia
Acordei no dia seguinte, acho que terça-feira, às 7:48 da manhã. Perdi o café. Pela manhã, filmei e fotografei até às 10 horas, quando o almoço-café foi servido. Arroz, feijão, banana, peixe ensopado, comprado aqui mesmo no Amazonas e açaí O peixe estava bom. Na outra balsa, o Conde nunca fez peixe. Mas se tivesse feito seria melhor.
Voltei a escrever. Antes tomei outro banho. É impossível não tomar ao menos três por aqui. Além do barulho, o motor do rebocador que fica ao lado do meu camarote eleva a temperatura de 40º para uns 45º. Nunca suei tanto na vida. Nem quando corro. Depois de uma hora, quase derretendo, subi até o comando e pedi pra trocar de camarote.
O comandante autorizou. Andei trezentos metros pela balsa, encontrei uma carreta perto da urbenave e ao lado do Amazonas e montei acampamento. O som dos caminhões frigoríficos, que na viagem pra Macapá me atordoaram, pareciam um mantra indiano. Consegui escrever. Com a brisa do Amazonas, peguei no sono. Sonhei com a Isadora, minha filha amada. Acho que estou com Banzo.
O apito do jantar soou. Arroz, feijão, carne ao molho, resto de frango, banana. Comi só feijão e arroz. Pouco. Andei trezentos metros até a ponta do comboio, onde é a praça da balsa. É o apelido que dei para o lugar onde os caminhoneiros se reúnem. Os caminhoneiros falavam dos fantasmas que viram na estrada e um membro da tripulação mostrava o vídeo de um mostro que foi encontrado no Amazonas.
Era um tipo de Peixe ET. Corpo de peixe e cabeça de ser humano com chifre. Foi atropelado por um barco e encontrado na Praia da Lua. Bem hoje que ia dormir ao lado do rio. Fotografei o entardecer. Sempre uma batalha entre o sol e a tempestade que chega antes que a noite caia. Às sete e meia deitei na rede.
O Terceiro Dia
A noite passou tranqüila. Nem lembrei do monstro ou da Sereia do Amazonas. Acordei sei lá que horas com um vento forte. A chuva havia se mandado e o céu estava tomado por estrelas. Fiz xixi, desculpe mas no próprio Amazonas, admirando uma avenida de estrelas brilhar no céu. O nome dela: Via Láctea.
Dormindo cedo, voltei a acordar cedo. Às 5:50 o dia começa a clarear no Amazonas. Fui direto para o carro preparei os equipamentos e fui fotografar. Nos meus 300 metros até o rebocador, vi como transformamos qualquer canto em uma casa. O Catarina, sempre caprichoso, limpava a cabine-casa do caminhão, o Paulo fazia uma vitamina, o Gledson pindurava as cuecas no varal do Catarina e o Seu Nicanor, com uma operação de safena, fazia sua caminhada matinal.
Finalmente alguns bichos da Amazônia apareceram. Boto cor de rosa, boto cinza e algumas aves. Entrei na cozinha e, antes de me dizer "Bom Dia", Fátima, a cozinheira disse: "Amanhã eu vou deixar você me filmar". Desde que cheguei ela vinha se escondendo. Vamos ver no que vai dar. Será que ela vai se pintar.