Partimos cedo e saímos da baía de Assunção costeando as altas barrancas com favelas e casas perigosamente postadas em local de extremo perigo, pois o risco de desmoronamento era grande.
Muito lixo, porcos e barcos de proa dupla com pescadores revisando os espinhéis. Adiante estaleiros recuperando e desmontando barcos e carcaças velhas. Os navios da Armada paraguaia não pareciam ser muito melhores, a diferença era que estes flutuavam.
Atravessamos para Porto Pilcomayo, aí, na foz do rio de mesmo nome, teríamos a Argentina pela margem direita. Ao norte do rio Pilcomayo é Paraguai e ao sul é Argentina.
Ernesto estava chegando de volta a sua terra natal. Alegremente chegou a sede da prefeitura onde baixamos terra para dar entrada oficialmente a Argentina. Atravessamos o Paraguai, mas sequer fizemos os trâmites de entrada e muito menos de saída, embora por mais uns 400 km tenhamos o Paraguai pela margem esquerda, até a foz do rio Paraguai no rio Paraná, perto de Paso de La Pátria.
Daí em diante será apenas Argentina. O profissionalismo e a cortesia da prefeitura argentina é uma coisa que não canso de ressaltar. Assim foi na viagem de caiaque por aqui e se repete agora. O pessoal da aduana sobe a bordo, mas apenas encontram o estoque de pesticidas do Ernesto. Um piolho aqui e acolá.
Saímos dali apenas às 11:30 h e seguimos em frente observando os imensos terminais graneleiros no Paraguai carregando as enormes chatas que são colocadas lado a lado em fileiras e colunas. Estas são deslocadas por imensos rebocadores, na verdade empurradores, pois seguem a popa do imenso comboio. Coisa de impressionar, pois fazem curvas de até 180 graus e navegam inclusive à noite.
Vejo muitas casas ribeirinhas feitas de taquaras trançadas com barro fechando os espaços. O teto segue sendo feito de palmeira carandaí, plástico ou palha. Os barrancos São altos, as florestas nativas parecem estar preservadas aqui do rio, pois nossa posição não permite ver com maior amplitude.
Às 13:05 h chegamos ao km 2000 da viagem. As antigas placas de sinalização da ANNP (Administração Nacional de Navegação e Portos) paraguaia já não se vê, pois marcavam a distância até Buenos Aires e o correto seria marcar a quilometragem apenas do rio Paraguai desde sua foz (km zero) em direção ao norte.
Retas imensas se sucedem até pararmos na margem esquerda (Paraguai). Apesar da burocracia, conseguimos percorrer cerca de 90 km .
NOITE NINJA
Vamos dormir cedo e Ernesto coloca espiral para espantar os mosquitos. O bom do espiral é que tu amanheces "defumado" e "tossindo" a fumaça que "comestes" durante a noite. Essa noite a fumaça resolveu ficar dentro do barco, acordo sufocado pela fumaça, mas a tripulação não deve contrariar o comandante.
- Tenente Issi, acho que estamos em Aushwitz e fomos colocados por engano em algum "banho" de desinfecção "dry cleanning"!
- Soldados, estamos em missão secreta, não podemos revelar nossa posição nem mandar pedido de socorro!
- Mas se não fizermos nada vamos morrer sufocados!
- Temos que deter a origem de tudo, esse maldito espiral!
- Sim, mas se o comandante descobre que apagamos seu espiral, ele vai sonhar com mosquitos. Ele se sente protegido psicologicamente nesta densa cortina de fumaça.
- Mas senhor, ele já passou repelente de mosquitos na pele, descarregou meio tubo de inseticida aqui dentro, depois colocou a tela e a tampa. Os mosquitos que conseguiram se arrastar para fora tossiam e matavam (com seu hálito) aqueles que ficaram esperando para entrar. Além disto, temos dos litros de óleo (aceite) de citronela.
- Acontece que está escuro, a fumaça está tão densa que teremos que abrir caminho a facão até chegar ao maldito espiral.
- Pior que isto, ele está cercado por centenas de latas de pesticidas. Não enxergo sua chama, como vamos apagá-lo?
- Se fizermos barulho o comandante despertará e aí perceberá nossa manobra defensiva.
- Tenente, o recruta Dedos é o único com treinamento ninja. Tem muita experiência em tarefas noturnas.
- Apenas ele será capaz de chegar e destruir o alvo.
O perigo é o comandante, pois tentei isso em outra oportunidade, consegui apagar, ele despertou (por falta de fumaça) e percebeu o espiral apagado.
Para meu desespero ele comentou:
- Andres, el espiral se findó!
Dito isso, ele pegou um novo (estava quase no fim) e o acendeu. GRRRRRRRRRRRRRR!
O desgraçado do espiral durou até a manhã seguinte e eu despertei com fumaça saindo dos cabelos e cheio de ódio assassino.
Até pensei em despejar um pouco de água no pacote de espirais (para que não funcionassem mais), mas não havia mais ninguém a bordo para colocar a culpa.
- Chamem o recruta Dedos!
- Aqui está, senhor!
- Recruta, você acha que consegue se deslocar sem fazer barulho, perceber o estoque químico do comandante no escuro, desviar-se das barreiras colocadas antes do espiral e "apagar" o inimigo?
- Afirmativo, positivo e operante, senhor.
- Necessito que o sargento pança saia da frente sem fazer barulho e dê água para apagar a chama.
- Negativo, a água pode fazer barulho ao ser despejada, você terá que destruí-lo com o próprio corpo.
- Vou me queimar todo...
- Não se preocupe, já pensei nisto.
- Pelotão, sentido! Todos cuspindo no recruta!
E assim se foi o recruta melequento em direção à maldita chama. Assim que percebi as latas, fui deslocando a mão até chegar à chama. Preparei-me para o pior e toquei o maldito espiral até apagá-lo (e sem fazer barulho). O prazer da morte do inimigo foi maior que o incômodo da queimação. Quase amanhecendo, consegui dormir.