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Uma grande aventura em um veleiro 2008 - Parte 7

Adré Issi realiza uma grande aventura junto com seus amigos em um veleiro. Ele partiu de Florianópolis/SC dia 21 de julho de 2008 e neste relato está passando pelo Paraguai e pela Argentina. Veja o relato do dia 29/08/2008 até 07/09/2008.

29/08/2008      Sexta-feira

ARMANDO TRIVERO

Bueno, fui ao banheiro e na volta Armando já havia chegado. Tiro algumas fotos. Parece ser uma pessoa bacana. Ele é de Santa Fé, mas tem o espírito alegre de um Cordobês. Às 08h30min partimos. Como havíamos ficado longe do centro, não pude ir à internet. Passamos pela sede da ECENAA, o local onde ficou o caiaque. Lamento não ter podido saudar dois grandes amigos como Eduardo Borri e Armando Degani.

 

A cidade de Corrientes é lindíssima e cheia de moças lindas. Do rio se pode ver a sede de um famoso cassino rodeado de lapachos e um avião colocado em um pedestal. Parece que participou da guerra das Ilhas Malvinas. Aproximadamente às 11 h passamos pela bóia do km 567.5 do rio, onde me choquei e virei o caiaque.

 

Queria tirar uma foto bem de perto para que aparecesse a quilometragem e quando resolvi pegar o remo era tarde. Ernesto e Armando riam muito enquanto sacavam fotos da "bendita" bóia. O astral melhorou demais com a presença de Armando, pois Ernesto estava com muitas saudades de sua família e cansado. Armando colocou "sangue novo” ao moral da tropa. Além de tudo ele trouxe um estoque imenso de frutas, queijo e salame, ademais de uma enorme bolsa com pães que devorávamos enquanto tomávamos o mate da manhã.

 

Trivero segue ao timão enquanto Ernesto vai lhe explicando as manhas do rio e da correnteza. As vilas de pescadores seguem o rio, muitas das casas com telhados de palha. Às 13 h, próximo de Puerto General Alvear, chegamos ao km 3000 da viagem (km 553 do rio). O comandante prometeu vinho à tripulação, menos mal, pois a abstinência etílica causava tremores às nossas mãos.

 

Quando chegamos a Ilha de Las Arañas, entramos em um riacho que desembocava em Diamante, de minha amiga Lídia. Um enorme terminal graneleiro, silos de concreto e a sede do Clube Náutico Diamante onde meus irmãos seguiram comigo até Rosário de caiaque. Das 15 h em diante baixamos a vela e seguimos a motor, pois um chato vento contra nós insistia em incomodar.

 

Ernesto e armando buscavam um riacho estreito que cortaria caminho, mas não estava fácil de localizá-lo. Entramos em um riacho estreito, mas não era o desejado. Fizemos meia volta e seguimos em frente. Uma incrível quantidade de teias de aranha se aloja no mastro e nos estais. Elas formam linhas quase transparentes iluminadas pelo sol da tarde. Saquei várias fotos, pois ficou bonito de ver. Fomos cruzando para a margem direita até parar entre três ilhas (Los Pajaros, Correntoso y Del Encanto).

 

A ILHA DO ENCANTO (PESADELO)

Enquanto Ernesto escrevia seu diário, eu e Trivero fomos dar uma explorada na Isla del Encanto que não era muito grande. Atravessamos um campo, um banhado e chegamos a um bosque de Seibos, uma árvore de casca grossa, agora desprovida de folhas e cuja flor é considerada a flor nacional da Argentina. Outra árvore que se destaca agora é o Aromo, cheio de flores amarelas como boca-de-leão.

 

Adiante encontramos um curral com sua saída voltada para o rio. Aí o gado é embarcado naqueles barcos ganaderos e segue para outros sítios quando o rio sobe. De volta ao fundeadouro, alguns martins pescadores resmungavam a nossa passagem. Ao longe, em Corrientes, os campos estão em chamas. Ernesto está indignado, pois é uma devastação sem fim. As chamas das queimadas iluminam a noite estrelada. A janta foi boa.

 

Trivero fica alojado a boreste do barco. Ficamos cabeça a cabeça, com os pés voltados (cada um) para proa e popa. Ernesto e Trivero conversam enquanto eu tento dormir.

“Buenas noches...”

 

Mal Ernesto termina de pronunciar as últimas sílabas, um som terrível, (mistura de onça matando capivara com ronco de jacaré esmagado por sucuri) espanta todo ser vivo ao redor do Guarani, incluindo aí os peixes. Ernesto fica silencioso e na escuridão o som aumenta cada vez mais. O pior é que este som pavoroso está quase ao lado de minha cabeça.

- Vai parar!-  Penso eu.

 

O som não pára, não vejo nada na escuridão do catre. Começo a ficar desesperado e penso na possibilidade de ir dormir no convés, nenhum mosquito irá me perturbar com esse som horroroso. É um ronco terrível, quase grito um desesperado vindo das profundezas de Armando Trivero. Ernesto começa a rir discretamente. Eu faço o mesmo e Trivero desperta. Combino com Ernesto para cada um falar com ele por uma hora enquanto o outro tenta dormir.

 

Ernesto não agüenta seu turno e diz buenas noches. A expectativa pelo ronco é muito grande, desato a rir e ninguém mais consegue dormir a bordo. Ligo a câmera com infravermelho, tenho que registrar essa anomalia. Antes tapei os ouvidos com uma bucha gigante de papel higiênico, mas foi inútil. A noite foi longa e divertida!

 

30/08/2008        Sábado

 

Ainda sonolentos (menos Trivero), seguimos em frente tomando mate e comendo bolachas. Uma das lentes escuras de Ernesto cai. Ele está com uma touca na cabeça. Isso me deu uma idéia. Busco o machete gigante e sacamos várias fotos, ele ficou muito parecido com um pirata do Caribe.

 

As barrancas avermelhadas pelo sol nascente nos acompanham enquanto vão surgindo inúmeros terminais graneleiros e petrolíferos desde uns 30 km antes de Rosário. Gigantescos navios estão fundeados enquanto outros estão sendo carregados. Alguns manobram perigosamente. A solução é sair do canal e buscar refúgio nas águas mais rasas junto às ilhas. Um vento norte cada vez mais forte surge de repente enquanto nos acercamos da imensa ponte de Rosário, com suas duas torres de cabos colgantes.

 

Um pouco antes está a casa de Juancho, no alto do barranco. O barco toma um golpe de vento mais forte e quase vira. Velas arriadas no sufoco. Algumas guarderias de caiaques e a sede da Costa Norte. Aqui é a capital do caiaque na Argentina. Às 10h30min atravessamos os molhes e ficamos na segurança do Yatch Clube de Rosário. O vento chegou com tudo, vários veleiros estão no sufoco.

 

Ernesto e Trivero amarram o barco enquanto chegam Paco e seu pai. Depois chegam Gustavo, Lisandro e Juan La Bianca. Todos vêm a bordo e tomamos um mate enquanto a conversa corre. Sigo com Paco para sua loja (La Proa) e ali reencontro Jorgelina e Francisco, filho deles. Alexandra, esposa de Lisandro trabalha ali ao lado e aparece, muito bom revê-la. Dali vamos a uma guarderia náutica almoçar. O local é alto astral, várias velas e pranchas de windsurfe penduradas no teto dão o toque ao lugar.

 

O dono e amigos dos ‘hermanos’ vêm conversar conosco enquanto uma moreninha muito simpática vai servindo o almoço. Depois vamos a praia tomar mate. Todo mundo aqui faz o mesmo, mesmo com frio. A quantidade de caiaques, windsurfistas, kitesurfistas e todo tipo de veleiros impressiona. Várias meninas lindas na areia tomando mate, altíssimo astral!

 

Fica combinado um churrasco para a casa de Paco. Paco é caçador, há vários troféus de cervos, fotos de javalis e armas. A futura esposa de Juancho, Natália (se conheceram na pousada, na Guarda do Embaú), Maryela (namorada de Colo), mais Paco e a tripulação do Guarani se encontram ao anoitecer. Muito churrasco e vinho (um assado de matambre extremamente delicioso mais chorizo e morsilha) . Amigos como estes de Rosário valem ouro em pó.

 

Como não terei tempo de cumprimentar os outros, voltarei a Rosário assim que esta viagem se finde. Paco me aparece com um robô que traz uma garrafa de vinho e um copo na bandeja. Para desatarmos em risos ainda mais, ele fala em um microfone e a voz sai no robozinho que desliza com a bandeja.

- Hola Andres!

 

Um show do companheiro. Juancho está muito contente e é uma sorte ter amigos deste quilate. Meus irmãos de Rosário são uma coisa a parte, não canso de ressaltar sua amizade e hospitalidade. Voltamos ao barco (hic) com vinho até nos olhos! Pelo menos Trivero ficou borracho e esqueceu-se de roncar mais alto.

 

31-08-08         Domingo

 

Antes de partir do Yatch, Ernesto encontra seu amigo Jorge Olmedo e o filho, de quem ele tanto falava por causa das piadas das "manos temblantes" pela falta de vinho. Ele parece ser muito gente boa enquanto o filho mostra sua potente e imponente lancha. Para ter uma idéia, eles vão daqui a Buenos Aires em um dia, enquanto nós levaremos três dias.

 

Partimos pouco depois das 8 h, costeando a cidade de Rosário. Aqui nasceu "Che" Guevara e foi cunhada a bandeira nacional da Argentina. Há um enorme monumento em homenagem a isto. Por isto e muito mais Rosário é uma cidade especial.

Hasta pronto amigos!

 

Seguimos em frente e minha filmadora pára de funcionar. Fiquei indignado! Para piorar, estou de ressaca por causa do vinho. Os olhos parecem ter agulhas picando e uma pressão no meio dos cornos torna essa parte da viagem um verdadeiro incômodo. Villa Constitución fica para trás no início da tarde e duas horas depois estamos chegando a San Nicolas.

 

Uma enorme usina Termoelétrica de carvão nos remete aos filmes de Mad Max. Estruturas metálicas gigantescas, grossas nuvens de fumaça negra e navios imensos fazem tudo parecer cenário de um filme futurista. Adiante passamos por Ramallo, uma pequena estátua com um pescador levando os peixes atados a uma vara apoiada em seus ombros. Ao lado da city havia um campo onde as pessoas passavam a tarde como em um parque, sentadas no gramado a beira do rio tomando mate.

 

Resolvemos parar para dormir atrás de uma pequena ilha, junto a uma barranca onde havia um bosque de sauces. Amarramos o barco em três pontos distintos, e baixamos terra para caminhar pelo bosque enquanto o comandante fazia seu relato do dia. Durante a noite um barco levantou ondas enormes que despertaram a todos, pois a orça (bolina) do Guarani golpeou forte contra o fundo ao balançar. Foi apenas um susto pelo barco.

 

1º de Setembro de 2008        Segunda-feira

 

Despertamos com uma forte neblina, mas esta tinha cheiro de queimado. Esta região está repleta de queimadas e as cinzas caem sobre o barco mesmo que a queimada esteja ocorrendo a quilômetros de distância. Elas viajam ao vento. Um navio surge ao longe, rompendo a cortina de fumaça, não deixa de ser bonito.

 

Seguimos cortando caminho por onde dava, cuidando muito as zonas onde poderia haver bancos de areia. Ao lado de pequenas ilhas, quase pegado a elas, surgiam imensos navios graneleiros. Cenas inusitadas. Passamos pela ilha Barré e ilha del Médio um pouco antes de San Pedro, onde inicia o canal Baradero. Esse canal encurta a viagem em 90 km, segundo a quilometragem do rio.

 

San Pedro tem um terminal graneleiro e a entrada para o porto fica localizada entre duas pequenas ilhas. Postes de sinalização e algumas bóias tornam a entrada bem segura. A ilha Bonita fica na entrada do rio Dos de Oro. Bem na ponta tem uma casa com barcos e ali iniciam as detestáveis placas de proibido isso, proibido aquilo, a maior parte diz Prohibido bañarse e Propiedad Privada.

 

Às 10 h entramos no canal Baradero, muitos barcos madereiros que seguem carregadíssimos para duas papeleiras (fábricas de papel) e canoas de pescadores. As casas são, em sua maioria, palafitas. O interessante é que teto e paredes são feitas com chapas de zinco. Algumas delas têm a seu redor alguns sauces podados exatamente na altura da casa. Assim o vento corre livre por baixo e as ramas crescem na altura da palafita, protegendo- a do vento.

 

Porcos enormes e suas crias passeiam livres na ilha, juntamente com vacas e carneiros. As casas têm galinheiros e proteção das barrancas, seja com enormes tambores plásticos, pneus, troncos ou mesmo chapas de ferro de barcos desmanchados. Saídas suspeitas de indústrias químicas deixam a lama o rio com tonalidades de branco a amarelada.

Há muitas indústrias químicas por aqui. Uma das proteções de barrancas das casas apresenta várias caveiras no topo dos troncos. Essa me lembrou de três anos antes. Alguns gansos e muitos caranchos seguem ao lado de campos queimados ao lado do continente. Nas ilhas, os campos e banhados dão a sensação de insegurança, pois aí o vento corre livre sem barreiras naturais. Casas lindas no continente e pobres nas ilhas, um contraste.

 

No campo verdejante, um bando de cavalos se amontoa ao redor de um rolo de feno. Armando prepara um prato esteticamente lindo e apetitoso. Rodelas de salame, pedaços de queijo e rodelas de morcilha. Valeu uma foto. Passamos pela cidade de Baradero e adiante retornamos ao rio, quase na altura da Usina atômica de Atucha com seus dois domos se destacando no conjunto das obras.

 

Um pouco antes, dois navios da marinha faziam manobras. Duas lanchas de desembarque de fuzileiros com metralhadora, cerca de dez soldados e uma marica no comando. Para se exibir, o cara começou a rodear o Guarani deixando nosso comandante indignado, pois formava ondas a nosso redor. O cara da metralhadora mal conseguia se apoiar, queria ver ele fazendo mira naquelas condições.

 

Ao passarmos pela Fragata, vários soldados estavam descansando na popa, um deles pescava dali de cima com linha de fundo. Depois observamos o jorro de grãos enchendo os porões de um navio graneleiro através dos "braços" das esteiras. Muito show! Ao final da tarde chegamos ao Clube Náutico Zarate, na cidade de mesmo nome. Muitos barcos de pescadores, remadores de competição e navios de todos os tipos e tamanhos disputavam espaço no rio que tinha como pano de fundo a ponte Zarate-Brazo Largo.

 

Atracamos lá no fim da marina, livres de vento, movimento de barcos e ondas. Um veleiro estropiado e um casal chamavam a atenção. Eles estavam vindo ontem à noite para uma regada e velejavam no canal de noite. Foram atropelados por um rebocador e por pouco não morreram. O barco estava ‘fazendo água’ e necessitava de reparos. Tomamos uma deliciosa ducha quente e fomos dormir.

 

Como Trivero roncasse sem dó nem piedade, resolvi atacá-lo pelo lado psicológico. Golpeava o casco como se estivesse batendo a uma porta. Teoricamente ele deveria parar de roncar para atender a "porta". Não é que funcionou? Ele parava de roncar imediatamente. Quando engrenava a marcha para começar a roncar de novo, bastava golpear o casco. O problema é que Ernesto também "atendia" a porta e não dormiu a noite toda.

 

A minha sorte é que ele sequer imaginava quem estava golpeando o casco. Minha contagem regressiva terminou, seria a última noite a bordo do Guarani.

 

02/09/2008 Terça-feira 38º (e último) dia de viagem 3500 km

 

Ernesto combina com sua família o horário de chegada no Clube de Veleiros San Isidoro, onde ali repousa o Torroba. O mate é acompanhado de bolachas enquanto cruzamos, ainda escuro, a ponte de Zarate. Depois de passarmos por Campana, havia muitos barcos semi submersos próximos da margem. Enormes ciprestes dividiam espaços com sauces "chorões", iguais aos que havia as margens do rio Guaíba em Porto Alegre.

 

Às 10h50min h chegamos a entrada do Canal Arias. Ali uma série de casas em estilos franceses, canadenses, alemães e ingleses disputavam o espaço lado a lado enquanto lanchas e "coletivos" aquáticos formavam enormes ondas num ‘vai-e-vem’ sem fim. Uma das casas mais bonitinhas exibia duas senhoras de cabelos brancos cuidando com muito carinho de seu jardim.

 

A grande preocupação era com a proteção dos barrancos, pois muitas casas desabaram e algumas mais antigas estavam à venda por falta de manutenção. Quase uma hora depois chegamos a uma "esquina", era o Rio Lujan que descia rumo a Buenos Aires. Dobramos à esquerda (onde havia a sede da prefeitura de Dique Luján) e seguimos com muito movimento de barcos, lanchas e botes a remo. Imensos condomínios vão mudando a paisagem e mostram o que será no futuro, pois as tradicionais casas e clubes de tradição vão sendo, paulatinamente, substituídos.

 

Marinas de lanchas com seus galpões ficam lado a lado. Estaleiros, marinas e clubes de vela vão se mesclando com tradicionais clubes de remo enquanto chegamos a Tigre. Há um Museu Naval, um cassino a sede do clube de Regatas La Marina, a Ilha da ACA (Automovil Club Argentino), bares e cafés turísticos além de um parque de diversões. Adiante avisto o Clube San Fernando onde tão bem fui recebido. Ali ficou o caiaque depois que fui e voltei de Buenos Aires para a casa de Ernesto, em Ezeiza.

 

Seguimos em frente, entra um forte vento contra. Retornamos e entramos no arroyo Ballena para descansar e tomar um último mate. Duas horas depois seguimos para San Isidro, onde avistei com o binóculo um veleiro tombado ao longe e seu tripulante sobre o casco. Depois avisamos a prefeitura pelo radio para que fossem fazer o socorro. Mal entramos no molhe de San Isidro, avistamos os filhos de Ernesto, Nahuel, Federico e Aimeé.

Adiante, na casinha de desembarque do Clube de Vela San Isidro, estava a esposa de Ernesto, Graziela, Enrique Celesia (que tocava a sineta da casinha), e Armando Bozzini. Eram 16 h, Ernesto faz um 360º com o Guarani. Muita alegria e o carinho dos amigos. Depois chegam Luis Monsonis, Chiche "Mais Calma", Ricardo Valls e sua família, e Juan La Bianca.

 

Tiramos uma foto dos tripulantes da viagem ostentando cada um uma bandeira dos quatro países que cruzamos. O final foi inusitado para mim, pois todos se reuniram no veleiro Torroba e aí tomamos mate, vinho e canapés enquanto alguns gansos nadavam ao redor do barco.

 

03/09/2008         Quarta-feira

 

Depois que Juancho seguiu para Rosário, seguimos (eu e Trivero) com Ernesto e Graziela para San Isidro novamente. Fomos a uma loja de antiguidades náuticas que é um espetáculo.

 

Milhares de peças e antiguidades náuticas ficam penduradas nos tetos paredes e prateleiras formando um mosaico colorido que encantaria até o mais sisudo velejador. Barcos em miniaturas, todo tipo de âncoras, peças de barcos, roupas usadas, livros antigos, miniaturas de barcos, timões e tudo o mais que se possa imaginar.

 

Conversamos com o dono, Sr. Carlos Camao, impecavelmente vestido como se recém houvesse retornado de uma noite portenha. Uma educação e uma hospitalidade sem igual. No pescoço um lenço. Ali fomos ao veleiro de Henrique Celesia para convidá-lo a almoçar conosco, pois estava de aniversário. Trivero, Celesia, Graciela e Ernesto. Um belo almoço em San Isidro, que chique!

 

Depois eu e Trivero baixamos ao veleiro de Celesia. Na proa o objetivo de sua vida: A volta ao mundo solitário e sem escalas no paralelo 40 (vide o livro Os 40 Bramadores, de Victor Dumas). O barco tem muita coisa a ser feita.

 

Celesio persegue seus sonhos há anos, mas basta entrar neste barco, ouvir seus projetos e o que já fez ali com o próprio punho para saber que tudo é só uma questão de tempo. Certamente ele conseguirá o que necessita. Amigos verdadeiros como Ernesto também acreditam e ajudam de fato para que uma pessoa distinta como Celesia alcance seu objetivo.

 

Saí do barco impressionado com a determinação que ele tem. Pessoas como Celesia tornam o mundo mais colorido. Admiro também o Ernesto por perceber isto e ajudar como pode. Dois grandes caras. Armando foi de volta a Rio quarto, em Córdoba e eu fiquei escrevendo o diário até as 3 h da manhã.

 

 

04/09/2008      Quinta-feira

 

Depois de uma pesquisa na net em busca de bicicletas usadas, fui com Ernesto e Graziela comprar uma na Canaglia. Descobrimos que com mais 50 pesos eu comprava uma nova. Valeria a pena. Coloquei um cesto na frente, um bagageiro na traseira, alguns acessórios como ferramentas e kit de reparos. Adrian foi muito legal e tudo junto saiu 280 reais, não achei caro. A tarde e a madrugada foram escrevendo e organizando fotos. Já tenho a bicicleta. Volto a escrever o diário, mas minhas pilhas acabaram às 4 h da manhã.

 

05/09/2008      Sexta-feira

 

Na parte da manhã fui comprar um plástico, mas com mais 20 pesos comprava uma barraca. Beleza! De noite Ernesto organizou uma reunião com seus amigos navegadores, alguns que já conhecia, com Celesia, Luis Monsonis, Chiche, Oscar Isa do veleiro Azul, Armando Bozzini, Ricardo, Richard... no total de mais de trinta pessoas para prestigiar a chegada de Ernesto e a realização de seu objetivo.

Pessoas amigas de muitos anos. Peço desculpas por não ter citado todos, mas o tempo passa e fico desmemoriado. Além dos navegadores e seus familiares, Estava Carlos, irmão de Graziela e suas filhas Aylen (significa chama acendida, em mapuche) e Luz Maria. As namoradas de Nahuel y Fede, Pamela y Vanina e tantos outros.

A reunião terminou passando de 3 h da manhã.

 

06/09/2008     Sábado

 

Agora são 3 da manhã do dia 07-08-08. Tenho varado madrugadas tentando escrever este diário antes de partir, mais precisamente ao amanhecer. Esta madrugada nevou em Córdoba e fez 3º C negativos em mar del Plata. Um frio de repartir o bigode, mas o pelotão segue em frente, agora de bicicleta. Fui com Ernesto comprar algo no super e passei o dia inteiro para finalizar este diário.

 

Federico me presenteou com uma camiseta do Clube monte Grande, onde joga Rugby. Me senti honrado com o presente e faço questão de tirar uma foto de despedida com a camiseta. Valeu parceiro! Sequer arrumei as coisas na bicicleta e parto ao amanhecer. Obviamente não terei tempo de mandar as fotos, mas assim que chegar em Rosário faço esta parte.

 

O pelotão segue em frente, tenho que reciclar os neurônios e me adaptar a este novo tipo de viagem que segue até Rio Grande por não sei onde. Depois que sair dou uma olhada em algum mapa.

 

Ezeiza - Buenos Aires 07/09/2008 - Domingo

Independência do Brasil

Faltam 13 dias para a Revolução Farroupilha.

 

Apesar de ir dormir com o dia quase amanhecendo, desperto cedo e vou dar uma olhada no diário que enviei. Tive que reenviar, pois foi apenas uma parte do que escrevi. Apesar do frio, Nahuel foi participar de uma regata com seu laser.

 

Fede me presenteia com uma camisa do seu clube de coração. Fiquei super lisonjeado, pois ele tem uma coleção de camisetas antigas e nunca se desfaz das mesmas. Fiquei mais honrado ainda quando Ernesto me presenteia com a bandeira Argentina do Guarani, aquela que seguiu na popa durante toda a viagem.

 

Ernesto e Federico escrevem dedicatórias. Depois eles ajudam a amarrar as sacolas e cacarecos de viagem na bicicleta. Uma sacola grande na popa, barraca na barra central, comida e roupa de chuva no cesto de proa e outra mochila nas costas. Tenho que distribuir o peso, pois os bagageiros me parecem muito frágeis. A bicicleta é “zero km”.

 

EVITA

- Senhor, quem é esta guerrilheira que está se unindo ao pelotão?

- É Evita, tataraneta de Perón!

- Mas parece muito frágil e nova!

- Sim, mas tem 18 maneiras de agradar a um homem (marchas).

- Comandante, os homens estão dizendo que é virgem. O senhor não tem vergonha?

- Pensem assim: um dia qualquer um por aí vai usá-la, é melhor que seja com um cara experiente como eu.

- Posso lhe ensinar táticas de guerrilha como ela nunca imaginou.

 

Almoço com Ernesto, Graciela, Federico. Aylen e Luz Maria (filhas de Carlos). Uma olhada em Evita, fotos na rua e novamente o pelotão parte para mais uma batalha. Ao dobrar a esquina, um último aceno a esta família maravilhosa que eu tanto admiro.

 

Ernesto, muito obrigado por tudo, palavras são poucas para expressar o meu reconhecimento e agradecimento por tudo que fizeram por mim. Foi uma honra e um privilégio ter podido participar desta emocionante aventura do Guarani pelo coração da América.Eu bem sei o que isto representou para ti e tua família. Por isto e muito mais, os considero como extensão de minha família. Muito obrigado, comandante!

Com 5500 km nas costas (2000 de ônibus mais 3500 km no Guarani) sigo em frente, agora o pelotão segue com Evita (uns 1500 km) para o resgate do Imortal, meu carro a vela que ficou em Rio Grande na viagem de 2220 km no inverno do ano passado.De Rio Grande sigo no Imortal rumo ao norte (uns 600 km) e Evita fica.

 

- Senhor, já sabemos desta estória. Evita irá se apaixonar, vai lhe dizer que merece coisa melhor e que esta vida de batalhas é muito dura para uma mulher linda como ela.

- O pior é que é isto mesmo.

- Os castelos a serem conquistados são construídos na imensidão do horizonte sem fim. Um dia o nosso pelotão irá se perder em um campo de combate.

- Melhor que elas sigam seu caminho, sofrerão menos.

- Se os deuses da guerra permitirem, um dia nos reencontraremos além de terras e através do sempre!

- Senhor, são muitas mulheres…

- Não se preocupem, o coração do Pelotão é como um edifício de luxo com muitos andares e apartamentos. Em cada um cabe um amor.

- Sim, mas a eleita fica onde?

- Para ela está reservada a cobertura, com piscina, hidromassagem, vista para o mar e demais mordomias.

- Além do mais, vocês sabem que o pelotão é descendente de árabes e italianos, já estamos acostumados a lidar com isto.

- Estas mulheres devem ter custado muitos camelos…

- Camelos não são tudo na vida.

Bueno, já falei demasiado de Evita. Melhor seguir em frente.

 

Logo na entrada da autopista placas proibindo bicicletas. Traduzindo: Daqui para frente é por sua conta e risco. Se morrer, não receberei nenhuma espécie de seguro. A velocidade máxima é de 130 km/h e os carros passam como uma simples mudança de vento. Queria saber como um morto recebe o seguro!

 

Uma autopista com 4 ou 5 faixas e um bom acostamento que sigo com disposição nos primeiros 15 min. Daí começa um calor pelo corpo, a visão se turva e o corpo padece. Depois de três anos estamos de volta a uma viagem de bicicleta, o problema é o joelho batendo na barriga, o traseiro voltado para cima e uma posição de flexão constante. Tudo começa a doer, pernas, braços e as costas. O cara tem que olhar para frente e dói o pescoço.

 

- Tenente Issi, quando é que inicia a Primavera?

- Acho que é agora em Setembro, ali pelo dia 21.

- Por que?

- Porque os irmãos Glúteos estão com a cara que é uma rosa!

- Parem de ‘mariquices’ e prestem atenção: o comandante Ernesto falou que devemos sair da autopista antes do pedágio, ali não vão nos deixar passar.

- Tenente, ao lado esquerdo estamos mirando um centro de treinamento. Que será?

- É a concentração da AFA (Associação de Futebol Argentino).

- Estamos falando daquele campinho ao lado, parece marijuana…

- Isso não é deles, é de um garotinho com mania de grandeza, um tal de Dieguito.

- Ele não joga mais, mas adora estar na mídia, estava torcendo nos jogos olímpicos (na China) chorando abraçado em uma camisa argentina (na frente das câmeras de televisão) que fedia a cebola. Tudo encenação!

- Tenente, aí em frente está o primeiro pedágio, vamos sair fora!

- Negativo, o pelotão não veio até aqui para bancar a mariquinha, sigam em frente.

 

Resolvi ver o que acontecia, pois a coletora seguia sei lá para onde. Passo bem pela cabina da direita, deito a bicicleta e a passo sob a barreira que ali havia. Nem olho para os lados. Ninguém me pára. Mas ao pelotão não basta só passar. Já que não me deram atenção, paro e tiro uma foto (fazendo o “V” da vitória) para o comandante.

 

Vamos em frente, já não vejo outras bikes, parece que não passam dali mesmo. Vejo outro pedágio, maior do que o outro. Depois dele vejo um viaduto sem fim. Pelo lado direito sobem mais quatro ou cinco pistas.

 

Ao longe, no viaduto, inexiste acostamento. O movimento intenso me surpreende, pois achei que Domingo não haveria quase movimento. O pelotão adota a tática kamikaze e avança contra o monstro cheio de bocas. Em cada uma delas tem máquinas comedoras de dinheiro; outras que dizem:

- Gracias!

 

REVENDO OS CONCEITOS

No momento que estou passando pela cabine bem da direita, vejo que um dos carros (que vem subindo nas pistas de acesso ao lado) quase se choca com outro na pista ao lado. Ele consegue desviar, mas perde o controle, quase se choca com o guard-rail da direita, faz um semi circulo e vem de frente contra o carro da esquerda que consegue passar. Bate violentamente contra o guard-rail da esquerda e fica de frente para os carros.

 

O choque foi feio, o cara se feriu. A polícia vem atender a ocorrência. Aproveito para tirar umas fotos com os guardas ao lado e ao complexo de pedágio, umas vinte cabinas ou mais. Com o acidente eles não irão me dar atenção! Os guardas me olham, mas não falam nada, deve ser medo do pelotão.

 

Sigo em frente, mas cerca de 300 m adiante, as quatro pistas da direita se fundem com a pista que estou. Apesar do acidente, o trânsito não parou. Tento atravessar para seguir perto do guard-rail, mas os carros vez em alta velocidade sem uma brecha que seja.

 

A elevada adiante não possui acostamento mesmo. Não vejo seu fim, acho que vou me ferrar. Algum carro pode frear na curva ao me ver e serei o causador de um acidente múltiplo.

- Tenente, acho que está na hora de revermos nossos conceitos! O pelotão não recua, busca novas maneiras de superar os obstáculos.

Disto isto, retornamos de volta a praça de pedágio. Quando passo ao lado do acidente um dos guardas diz:

- No te muevas de ahí!

“Me ferrei!”

 

Ele controla o transito enquanto o ferido fica ali a meu lado com uma porrada na cara . Até que sangra pouco. Chega a ambulância, dão uma examinada no cara. O guarda parece possesso, acho que vou levar uns pipocos mais tarde, como dizer que não vi as placas?

 

Pior, acho que vou perder a bicicleta, aquela estória de um carro me remover dali não convenceu. Sua anta, porque sempre me põem em confusão? Que mania de viver sempre contra a maré! A viagem nem começou e já estamos metidos em uma baita confusão! Agora te rala e me tira dessa.

Tenho uma idéia, chamo o outro guarda e faço uma declaração:

 

- Maradona és mas grande que Pelé!

- Ele sorri, eu me empolgo:

- Él hizo mas de 1200 goles, fué Tri Campeón del Mondo por selección nacional, bi campeón mundial por su equipo, várias vezes campeón nacional, reconocido por gobernantes y reyes.

- Tenente, não se empolgue demais! Isso tudo e mais um montão foi o Pelé!

- Pode ser que ele acredite, parece ser da Iglesia Maradoniana.

 

Digo que venho de Ezeiza e sigo para o Brazil via Uruguay. Ele conversa com o outro e parecem desistir de chamar o coche. Dizem que vão me atravessar até o outro lado, onde há uma construção de onde se pode descer por uma escada até a rua. Para minha vergonha, um deles segue na frente parando os carros e o outro segue a meu lado, parece que me pegaram na rota e estão levando a mim e a bicicleta.

Sinto um sorrisinho maroto na cara dos motoristas enquanto vamos atravessando diante das mais de 20 cabines da autopista. Tu sempre aprontando seu André. Agora azar, viro a cara para o outro lado e sigo, solene, para frente. Gustavo e Ernesto foram super legais e tiro uma foto dos dois com a bike antes que Ernesto desça comigo para a rua e me mande seguir oito quadras até chegar à avenida Directorio.

 

Aí chegando, deveria dobrar a direita e seguir até a Av. “mas ancha (larga) del mondo”, a Av. 9 de Julio. Essa Av. termina no porto Darsena Norte, a 3 km do obelisco, lugar que cheguei a B Aires com o caiaque três anos (6050 km) antes e que passei com minha XTZ 125 (4500 km) no ano seguinte.

 

Além disto, estive aqui em Buenos Aires em outras oportunidades, uma vez em bike (2500 km) e outra de Agrale 125, vindo da cordilheira em outro passeio pelos desertos de Atacama e Arizaro, de 7500 km. Vou seguindo pela avenida que apresenta estações de metrô na calcada, os taxis pretos e amarelos, cafeterias e gente bem vestida.

 

Paro uma senhora, peco um café com leite mais para poder fotografar seu carrinho ricamente decorado, um espetáculo. Acabo atravessando a 9 de Julio sem saber e vou parar em Puerto Madero. Evita está agitada, quer parar para dançar um tango, mas prefiro seguir até a fragata Presidente Sarmiento, com seus 111 anos de idade, canhões, mastros gigantescos e uma foto gigante com as velas abertas. Impressionante!

 

Depois seguimos ao lado dos lindíssimos prédios da Aduana, e arranha-céus.

- Tenente adelante hay una casa de maricones!

- Aqui no centro de Buenos Aires?

- Impossível!

- É verdade, está toda pintada de rosa.

- Deve ser importante, pois há seguranças. Só falta estarem trajando botas e camisetas rosadas.

- Estão ao sol, mas não estão queimados.

- Veja tenente, um está passando cremita para la piel (pele) en outro..

- Aquele outro está usando uma saída de praia (pañuelo) rosa para se proteger do sol.

- Um deles é muito alegre e quando dorme, ronca sem parar, que tipos exóticos!

- Soldados, vocês tem que respeitar os costumes dos outros, por mais estranhos que pareçam.

- Vamos em frente.

 

Passando da Casa Rosada (palácio presidencial), subo uma ladeira e chego à famosa Plaza de Mayo onde as mães dos desaparecidos no regime militar protestavam em busca de informações de seus filhos. Ali tem uma catedral onde se encontram os restos mortais de San Martim, um cara que aparece em muitas cédulas de 100 pesos. San Martim, (juntamente com Simon Bolívar) foi um dos expoentes da América livre, participou da independência de Argentina.

 

Depois sigo a Av. Corrientes até voltar a 9 de Julho, aonde está o Obelisco. Volto ao tempo, pois tenho uma foto com outra bike aqui, tirada no auge do regime militar. No dia que cheguei a Buenos Aires, houve um atentado no aeroporto de Ezeiza contra o presidente Jorge Rafael Vidilla e sete “terroristas” foram mortos.

 

Entre 30 a 40 mil argentinos foram mortos neste período. Bueno, sinto que a missão foi cumprida aqui na city. Agora o pelotão volta suas armas para alcançar los Hermanos de Rosário. Quase não parei, a noite chega e eu procuro seguir ao norte acompanhando o rio de La Plata, pois é meu único ponto de referência.

 

Passo pela linda sede do Clube de pescadores construída sobre as águas do rio. Adiante chego ao aero parque, outro aeroporto, menor do que o de Ezeiza. Adiante vejo barraquinhas que vendem choripan (pão e salsichão), bondiolas (pão com fatias de carne de porco) e outras delicias. Agora são 19:00 h, estou podre de cansaço, pois não parei desde que saí de Ezeiza, da casa de Ernesto, às 14:30 h.

 

Parece que está frio, pois sai fumaça da boca. Timóteo me atende bem em seu quiosque (El Chavo – Chaves) por sua semelhança com o comediante mexicano. Depois do rolo com a polícia, resolvi não abusar da sorte e sigo pelas coletoras sempre mantendo o olho na pista principal.

 

O problema era por causa da infinidade de viadutos e dos desvios pelas coletoras. Já não sabia mais qual era a pista principal e nem para onde estava indo, pois as bifurcações eram muitas.

 

As dores pelo corpo aumentavam cada vez mais e eu tinha que me cuidar com coletivos e automóveis enquanto me deslocava sei lá para onde. Para piorar, ou meus braços ficaram mais curtos ou a bike estava se esticando, pois sentado no banco quase não alcançava a direção. A bicicleta estava estranha, mas não estava afim de arrumar nada no escuro. Devia buscar a rota nove, mas muitos falavam de um tal acesso norte. Só que para chegar ao acesso norte deveria buscar a rota 197 que ficava na casa do chapéu.

 

Tchê, o pelotão começou a perder a paciência enquanto cada um mandava a um distinto lugar. Resultado: passei entre 15 a 20 km de onde deveria ter seguido e, com o traseiro em flor, (fora as dores por pescoço, pernas e coluna), fui seguindo pela noite rumo sei lá aonde.

Passei por umas senhoras maravilhosas! Vou pedir informações e descubro que são amigas de Ronaldo “Fenômeno”, um bando de travestis de voz grave. Desta vez o pelotão teve que bater em retirada, pois neste campinho não tem batalha que o pelotão participe. Passando de meia noite finalmente consigo encontrar o bendito acesso norte.

 

Agora quero dormir. Vou até um hotel (Rota 9) e pergunto quanto é. Acho caro e resolvo seguir. Não consegui ir longe, houve um motim a bordo, pois toda a tripulação queria tomar um banho quente e deitar em uma cama. Não sou de ir a hotel, mas devido ao estado deplorável do pelotão e as muitas horas de batalha, demasiadamente forte para o primeiro dia, resolvi voltar. Nem era tão caro assim.

 

Na verdade era um motel, com filmezinho pornô, música ambiente e demais mordomias. Uma hora de chuveiro quente depois vou para a cama.

 

- Senhor, e as gatas?

- Pessoal, no estado que estamos, não mexo nem os olhos.

 

Desabo na cama e “apago”! Que dia! Parece que estou em Olivos agora.

Fonte: André Issi
Cidade: Buenos Aires-EX-Argentina
Fotos: André Issi
Publicado: Eduardo Vargas de Oliveira Pedroso
Date: 26/09/2008 <%insert_data_here%>


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  Evento 10006 - Uma grande aventura em um veleiro 2008

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