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Cruzando a Argentina rumo ao "fim do mundo" 2008

Daniel Rockenbach e sua namorada, realizam uma viagem cruzando a Argentina rumo ao Fim do Mundo. Confira o relato dessa aventura enviado por ele em setembro de 2008.

Podemos depender das pessoas

Bom, assunto delicado e que me instiga uma vontade imensa de começar a escrever: pessoas. E isso foi uma das coisas que nos inspirou (eu e minha namorada) a tentar cruzar a Argentina rumo ao “fim do mundo”.
 
A idéia era viajar! Ótimo, todo mochileiro pensa isso. Mas para onde? Sabe que li uma vez em Linha-D’Água, Amyr Klink, que toda viagem começa com a definição do dia de partida. Mas ainda acho que começa antes, quando estamos escolhendo o destino.
 
O destino é a escolha mais complicada porque, sendo um amante de viagem, todo lugar é válido, todo lugar tem uma cultura diferente e pessoas “esquisitas” que vão te transformar a cada palavra, ou até mesmo mímica, que tu trocares com elas.
 
Se tu já assististe ao O Último Rei da Escócia deves te lembrar que, no início, o rapaz gira o globo e o pára com o dedo, apontando seu destino. Mas nem mesmo assim ele ficou satisfeito com o primeiro lugar indicado, tendo que girar uma vez mais, levando o dedo mais ao sul. Sempre quis fazer isso, mas temos fatores que nos prendem e nos limitam a alguns destinos: língua, coragem, tempo, disposição, distância e, talvez o principal, dinheiro.
 
Como a idéia da viagem era certa, fomos analisar o que teríamos para gastar e o tempo para viajar. O dinheiro era pouco, porém o tempo estava a nosso favor e estávamos dispostos a aproveitar, praticamente, 3 meses viajando.
 
Agora, o que fazer com tão pouco dinheiro em tanto tempo? Um antigo sonho em comum começou a virar nossas mentes para o sul, tentando enxergar o final da América. Eis que surge a pergunta: Até onde chegaremos se dependermos das pessoas que cruzarmos no caminho? Pensamos em carona, hospedagem e ajudas diversas.
 
Eis um fator que ajudou a trilhar nosso destino e decidirmos ir ao sul: a trivial prática da carona na Argentina e Uruguai. Reitero que não seria simplesmente apontar num mapa, a esmo. A verdade é que nos encontramos em Buenos Aires, no dia 30 de dezembro, para dar o primeiro passo juntos. Dali, saímos de ônibus. Veja bem, na Argentina é fácil conseguir carona, mas não tente isso na saída da Capital Federal, pois o estará fazendo em “São Paulo” e lá também existe violência.
 
Tomamos um ônibus até Bariloche e, a partir dali, começamos com “o dedo”. Bom, um mês depois, estávamos mudos e inoperantes frente aos Glaciares e, umas semanas depois, estávamos lá: olhando para aquela infinidade de mar, em frente ao Canal de Beagle, buscando, no tremular do oceano, palavras para agradecer cada ato gentil de cada um que nos empurrou rumo ao sul. Afinal, já foram 3.000 km rodados em carros estranhos, com pessoas “esquisitas”.
 
Mas, e a descida, foi tranqüila? Bom, dizemos que sim! No começo, sempre há uma intranqüilidade na beira da estrada, esperando que o carro não seja de um psicopata. Mas isso só dependerá de ti, do teu estado de espírito e da tua cabeça. Eis a pergunta chave: O que tu estás esperando ali?
 
Claro que, como de praxe, cansamos de escutar: Mas e os Argentinos, eles odeiam os brasileiros! Como foram tão prestativos com vocês? Se há alguma paixão nos hermanos, essa paixão é a hospitalidade. Seja ela com brasileiro, boliviano, chileno ou inglês (sim, já vi inglês andando de carona lá), apesar das Islas Malvinas “serem Argentinas”.
 
Temos uma cultura anti-argentina que circula em nosso país decorrente, entre outros motivos, principalmente, da rivalidade futebolística. Piadas desrespeitosas recorrem as redes digitais brasileiras sempre na busca pelo insulto perfeito. Quando devíamos, por experiência própria, vê-los como verdadeiros Hermanos.
 
Estávamos tão bem tratados ao passo de entrarmos no carro: -Buen dia! Muchas gracias, che!
 
-No, por nada! Por ahora, vamos a comer y después quiero saber por donde estuviran y adonde van!
 
Mas bah, comer antes de se apresentar? É! E, como bons brasileiros, comemos, comemos e comemos. Então, passamos a tarde conversando durante a viagem, até que nos largaram numa bifurcação na estrada e nos deixaram a comida que tinham no carro: pão, maionese, sucos, queijo, presunto e frutas.
 
Ou, que tal estar sentado numa praça, por cima da mochila e: -Hola, amigo! Tenes hambre? E pronto, uma imensidão de comida. Pois sobraria da viagem de uns técnicos que foram consertar um poste de eletricidade na praça.
 
De Ushuaia, uma coisa nos aliviava: todos voltam! Não há mais para onde ir, então deve ser o ponto de carona mais fácil no planeta? Hehehehe! Pois então! Engatamos um casal de jovens muito gentis e acabamos chegando na fronteira com o Chile, para sair da Tierra Del Fuego. Eles ficariam por lá. Foi então que um caminhoneiro nos embarcou até a cidade de Rio Gallegos.
 
Era um senhor que não estava muito feliz em estar viajando à noite e, não bastasse isso, ainda colocaria duas pessoas esquisitas a bordo. Foi uma viagem a mates e pigarros. E, em meio à viagem, a noite mais difícil da jornada: acampar na beira do rípio com um vento de 110km/h. Tudo bem! Passou! Acordamos com o motor do caminhão ligando, e seguimos a Gallegos.
 
Chegando lá, descemos, nos despedimos e o senhor foi embora. Bah! O saco de dormir da Lu havia ficado no caminhão e ele já tinha ido. Descobrimos que havia um caminhoneiro (Juan) que andava junto com ele, e fomos falar com o cidadão. Bom, alcançamos o Ector (nome do senhor que viemos a Gallegos) na estrada e andamos mais 2.000km juntos, no caminhão do Juan, de Gallegos a Las Grutas.
 
Sim, dormimos 2 noites em posto de gasolina com a barraca ao lado do caminhão. Com direito a caminhão manobrado para cortar vento e tudo mais. Foram 3 dias de viagem com todas refeições pagas, incluindo pizza e cerveja. O sentimento de arrepio agora é algo indescritível! Imagina na hora.
 
Usar palavras, numa hora destas, é aprisionar sentimentos em meros conjuntos de letras que buscam limitar o ilimitável. Foi um dos grandes amigos que fizemos na viagem. Pois é, divino saco de dormir.
 
De lá, fomos a Mendoza, mais ou menos, em 2 semanas. Foi neste trajeto que fizemos algo que nunca imaginávamos: dormir ao lado de um posto policial e passar a noite a risadas e muito mate com os policiais rodoviários. Banheiro e cozinha disponível!
Incrível foi o policial: -Se acosten y, por la noche, seguimos buscando alguien que los lleve.
 
E assim foi, ficaram a pedir carona no decorrer da noite para nós. Até que, pela manhã, uma camionete se prontificou. Fechamos acampamento e embarcamos. Descemos no meio do caminho e um casal nos pegou. Eta casal bom, tchê! Andamos 2 dias com eles e, à noite, nos levaram a um camping em uma cidade e, no outro dia, 8h da manhã, lá estavam eles: em frente ao camping, de porta-malas aberto, com um sorriso no rosto.
 
Por fim, Mendoza. Pelo dia 10 de fevereiro. Uma semana na cidade e iniciamos a volta até fronteira com o Rio Grande, em Paso de Los Libres. Dali, a Lu foi para casa dos pais em Alegrete e eu segui a Porto Alegre. Quando nos separamos, nem nos demos tchau, de tão difícil, mas um “Até amanhã”.
 
Foi a viagem mais longa que fiz em todos esses 11.000km rodados. Meu coração estava se separando. Havia deixado uma parte dele em cada pessoa que conhecemos no caminho. Emocionado por voltar e por tudo que passei, olhava para mim e via alguém completamente diferente do “ano passado, em dezembro”.

Fonte: Daniel Rockenbach
Cidade: Ushuaia-EX-Argentina
Fotos: Daniel Rockenbach
Publicado: Fernanda Cristina Gonzales Ferreira
Date: 26/09/2008 <%insert_data_here%>

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