Depois de havermos sobrevivido à viagem que nos trouxe de Colón à Capital, por pouco não fomos a um Hospital para uma oxigenação melhor, uma vez que nossa capacidade respiratória pela primeira vez na vida fora afetada. Sentíamos os pulmões receosos em aspirarem o ar de que tanto necessitávamos mas, aos poucos, eles foram se sentindo mais seguros e logo estávamos inflando-os...a plenos pulmões.
Bom banho tomado, aquele leitinho com bolachas e cama. Com a cabeça povoada por todos os tipos de fantasmas, deixamos para tomar as providências em localizar uma Oficina Honda pela manhã e, com a sorte que esperamos continuar a ter, já no primeiro telefonema marcamos uma visita que acabou acontecendo em seguida.
Apresentação feita, agradou-me de cara o Chefe da Oficina que atendia pelo nome de Martin que, muito atencioso, confirmou que aguardava uma posição da caminhonete da loja para logo depois do almoço, o que acabou não se realizando e nos deixando aflitos quanto à ida ainda nesta quinta para Colón.
Lá pelo meio da tarde tive a confirmação de que iríamos nesta sexta, às sete da matina, com um reboque para trazermos a bonitona, o que acabou acontecendo, com o Eduard na boléia de um caminhãozinho Kia equipado com uma maca para a nossa dodói.
Viagem tranqüila, com direito a um bom café com "huevos" lá pelo meio do caminho, com a chegada já dentro da "bodega" perto das dez horas e, no fundo bem no fundo do coração, já próximo dos intestinos, confesso aqui entre estas quatro paredes, guardava aquela esperança de que a baguala udesse pegar e dizer que tudo era brincadeirinha.
Pensamento tolinho porque, apesar dos insistentes apelos, "cuchichos" e carinhos, sob os olhares desconfiados da platéia, não houve jeito daquele motor de tantas alegrias dar uma viradinha para encher aquele galpão com o som da sua manada.
Apeei e, com aquele sorriso amarelo, providenciamos a subida da baguala na maca, que depois de bem atada e bem checada, empreendemos viagem de regresso, passando por toda aquela zona livre sob os olhares por vezes admirados e por vezes acostumados àquela cena, ouvi de várias bocas em alto e bom som: olha que baita Harley Davidson. E desta vez me envergonhei por não ter desmentido, deixando-os pensarem que se tratava mesmo de uma HD. Sou obrigado a me desculpar com os meus amigos PHD por esta falseada.
Mas para nós PDH, que não estamos acostumados a este tipo de expediente, foi uma sensação muito interessante a de se sentir de uma hora para outra, um PHD. Para os nossos Amigos leitores que não estão iniciados, é importante que se faça um pequeno parêntese com as devidas explicações e esclarecimentos a respeito das siglas. PHD significa Proprietário Harley Davidson, aquelas legendárias motos americanas que nós PDH, Proprietário De Honda, temos a fraterna brincadeira de dizer que o lugar onde uma Harley se sente mais confortável é em cima de uma carreta. Feita a explicação, voltemos à ambulância.
Logo no início da tarde chegamos à Clínica e, imediatamente, uma junta médica formou-se para analisar a paciente e tentar um diagnóstico. Entretanto, para se evitar que pudesse um calço hidráulico nos surpreender, uma vez que já se sabia haver problemas com a chave de combustível, tirou-se as seis velas e bateu-se a ignição que acabou confirmando que o diafragma continuava, se não alimentando a câmara de combustão, impedindo a passagem de gasolina com o motor desligado para dentro do bloco, o que já foi um alívio.
Porém, com a retirada das velas os mecânicos já puderam constatar que o problema, a princípio, estava na gasolina, ou melhor, naquilo que se pensava ser gasolina. De cara constatou-se a presença de diesel, querosene, anti-helmíntico, coliformes fecais entre outros bichos com mais ou menos cabelos.
E como já era sexta e havia muito trabalho pela frente, pois no sábado eles teriam uma grande feira de motos, deixamos a bonitona bem instalada num apartamento de frente, com direito a banho privativo e outros bichos mais, ficando o início dos trabalhos previstos para esta próxima segunda-feira, até porque não nos esqueçamos que se a cadela do Ministro Magri era um ser humano a nossa baguala também o é.
Foi um final de semana de grandes expectativas pois já estamos impacientes para pegarmos um pouco de estrada. De volta para o Hotel e, com os corações nas mãos, foi uma ótima surpresa o telefonema do Vitalino, dizendo que estaria vindo até o Hotel para nos entregar o carro da Telma que nós após aqueles não de jeito nenhum, "tadinha" da Telma vai ficar sem carro, Vitalino não é justo, vai atrapalhar a vida de vocês e mais um pouco de falsidades deste gênero, acabamos recebendo com muito prazer a visita dos dois acompanhados do Suzuki Gran Vitara novinho em folha e, como a generosidade e gentileza deles não tem muito limite, junto desta nave veio também um telefone celular.
Aí não dá Vitalino: carro novo, tanque cheio, telefone e outro convite para um almoço "ajantarado" no sábado, vais acabar tendo que nos adotar, porque pobre é assim, dá um dedo e já quer pegar o Suzuki. Com todos estes carinhos acabamos melhorando um pouquinho nosso astral e nos animando a dar uma boa circulada neste Panamá que não é fraco. Bons sonos, novas núpcias caribenhas, aliás, vai ser bom assim lá no Caribe, e amanhecemos novos em folha e já embalados para visitar neste Panamá, o seu Canal, que já fazia parte do nosso imaginário há muito tempo.
E cheios de vontades e de expectativas, nos mandamos neste sábado a fim de singrarmos esta maravilha da engenharia, imbatível aqui neste caso há quase cem anos. Sem se querer voltar ao tempo de Carlos V, Rei da Espanha, lá pelo século XVI que, maluco ou visionário que era, imaginou a possibilidade de cortar neste pedaço desta América Central um canal fazendo a ligação entre os dois Oceanos que, provavelmente, embalou outra meia dúzia de franceses da ala dos pirados, que para cá se jogaram em fins do século XIX com o objetivo de cavar esta vala, e que começada acabou não terminada porque a malaria e a febre amarela acabaram com a turma antes que a grana terminasse.
Foi aí então que os parentes do norte assumiram e, na força da inteligência aliada ao suporte das "verdinhas", lá pelo início da primeira guerra mundial, deram passagem ao primeiro navio a fazer a travessia entre estes dois oceanos. Na realidade o que fizeram foram uns elevadores para navios pois é espetacular se ver diante dos olhos e a poucos, pouquíssimos metros um baita daqueles praticamente desaparecer na nossa frente e de forma rápida, o que é mais surpreendente.
E o mais incrível ainda é que toda a estrutura está funcionando há quase noventa anos, original e intacta, com pinta de sobreviver um outro tanto. Gostamos e valeu. Mais uns giros pela cidade e arredores, fomos ficando ainda mais impressionados com a riqueza deste pedaço de terra que aparentemente não pára de crescer.
São dezenas de empreendimentos de altíssima qualidade e a peso de ouro. Ficamos bestas e também admirados pela cidade que os "gringos", como aqui são chamados os americanos, deixaram quando entregaram o comando do Canal, ao Panamá, assim como a sua base naval. Os "mano" realmente não são fracos.
Meio da tarde chegamos à casa do Vitalino e da Telma, onde juntamente com outro amigo da Colômbia, de nome Antonio Coy, nos "aboletamos" em volta da mesa, para nos levantarmos um pouco antes das doze badaladas, depois de haver salvo, de novo, somente os pratos que seguravam aquela beleza de camarões, cujo maninho pequeno era chamado de cabeção. Olha o tamanho dos baitas, oh! Levantamos da mesa após ter enchido o porão, o convés e o passadiço.
Coisa boa uma comidinha de casa, feita com carinho e saboreada entre amigos. Valeu amigos! Hora de nos recolhermos para o devido descanso porque não somos de ferro. Domingo presente, e de novo com aquela rotina mais ou menos boa, bom café, boa "ariada" no esqueleto, e saímos para levar a vida num Suzuki, nos perdendo novamente pelos arredores do Panamá com direito à cidade velha, onde um outro doido que atendia pelo nome de Henry Norman que, travestido de pirata, resolveu tomar conta desta cidade, aqui se estabelecendo o tempo suficiente, imagino para faturar todas, se apossar do ouro e se mandar para outras plagas.
Hora do almoço, e num belo tiro acertamos o alvo e paramos para esta sublime obrigação no Restaurante Fontanella, que foi um espetáculo que recomendamos e que, como pessoas bem educadinhas, deverá ser o local onde ofereceremos um jantar de despedidas e de agradecimentos ao casal Santin. É bom que se frise que os brasileiros que trabalham no Banco do Brasil aqui do Panamá já receberam os bottons de Itajaí e, numa solenidade simples e rápida, também os títulos de cidadãos Itajaienses.
Não perdoamos. Nos fez carinho, não importando a naturalidade ou nacionalidade tornam-se cidadãos Itajaienses, é mole? Belo giro por um bairro chamado Amador, que é mais do que profissional, nos extasiamos com a panorâmica vista da cidade do Panamá, que "mirada" lá daquela ponta pacífica, pertinho de onde os navios aguardam a sua vez para atravessarem a vala rumo ao Atlântico, num espetáculo digno de se encher os olhos.
E bem daqui, onde este Deus natureza se faz presente com toda a sua força divina, nossos olhos foram brindados com uma nova estrela que, mais do que as outras, brilhou neste firmamento, pois obediente que era e atendendo ao pedido que fora feito pelo Pai dos Céus, reluziu forte este Carlos Eduardo que, para tristeza dos seus Pais, nossos amigos Sidney e Lea e, dos seus amigos, partiu para fazer parte desta constelação que não cansamos de admirar.
Que tu descanses em paz Carlos Eduardo, pois tua curta trajetória de pouco mais de dezenove anos entre nós já nos deixa emocionados e saudosos. E que teus Pais saibam, não sei como, se confortarem com a tua exemplar trajetória de filho e de amigo. Nossos corações se irmanam aos dos teus Pais e de saudade choramos por mais esta conquista do Senhor. Vai Querido e continue a ser o Anjo que sempre fostes, agora com a missão de ajudares a proteger os nossos Anjos que aqui permanecem.
Pedimos-te Carlos Eduardo, com toda as forças dos nossos corações, que te desempenhes como nunca nesta tua nova missão. Nós te amamos. Dolor, Angela e Filhos.