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Dolor e Angela, no vento com o Sonho 2003 - No pulmão do Brasil

Dolor e Angela realizaram uma motoviagem partindo de Itajaí/SC ao Alaska, no período de 26 de fevereiro a 18 de outubro de 2003. Confira a parte nomeada 'No pulmão do Brasil' desta grande aventura.

Ansiedade. Este era o principal sentimento que nos dominava neste nosso novo dia em território brasileiro. Amanhecemos nesta quarta-feira, mais cedo do que o de costume e após o café da manhã, já em companhia do Cacá, traçamos os últimos detalhes da nossa descida em direção à Manaus, atentos, claro, às explicações de quem conhece esta região como a palma da mão, caso deste nosso novo Amigo.

Abraçados com o sol que, por este pedaço da terra, castiga sem piedade, acomodamos nossa bagagem na baguala e com as últimas recomendações fresquinhas na cabeça, começamos nossa marcha por esta região amazônica, estupenda, principalmente pela grande expectativa que tínhamos, de estar onde estávamos, aqui no norte do Brasil, mesmo já tendo é claro, entrado neste pulmão do mundo, lá na Venezuela, no estado que, como o nosso, empresta o nome da Amazônia, para batizar sua porção territorial.

Esfregamos as mãos, nos despedimos do Cacá e após o tradicional boa viagem querido! demos corda na nossa companheira de tantos e tantos dias e partimos. Como gasolina é uma preocupação em função da sua limitada autonomia, cerca de 240 km, cada vez que nos aproximávamos de algum posto lá pela metade deste limite, parávamos e completávamos o tanque a fim de evitarmos surpresas.

Primeira estação de abastecimento, digamos que decente, a se apresentar foi em Caracaraí onde abastecemos e ao recolocar a chave na ignição veio a surpresa do dia: a bonitona não só negou fogo, como não acendeu nenhuma das luzes do painel.Pensei: é claro que não liguei a chave, sabendo lá no fundo que esta era uma desculpa esfarrapada para um problema que se apresentou de repente e que nos deixou com os olhos arregalados.

Liga de cá, desliga de lá, tenta pela segunda e terceira vez, felizmente, tudo volta ao normal, aumentando somente a temperatura da angústia que passou a nos acompanhar deste momento em diante em função desta rateada fora do script.Com esta nova companhia, não víamos a hora do novo abastecimento para saber como tudo caminharia, evidentemente não caminhando porque, novamente, ao pararmos para outro reabastecimento, numa variação do problema, tínhamos corrente, porém, não tínhamos energia no botão do arranque, que pressionado não virava o motor, não emitindo nenhum sinal de vida.

Aperta, "carca" de cá, "carca" de lá, voltamos a escutar aquela manada maravilhosa roncar lindo como de hábito.Para nos sentirmos um pouco mais seguros, desliguei mais uma vez e, quando viro a chave para novo contato, nada. Abrindo a lateral onde se encontra a caixa de fusíveis e o tal do solenóide, verifiquei que um contato tinha um posicionamento diferente daquilo que deveria ser o normal e, após mexer um pouquinho de um lado para outro, diagnostiquei ser aquele o problema, pois o sistema acendia e desligava ao cutucar ali na ferida.

Sem conseguir fixá-lo melhor, achei como solução, naquele momento, a colocação de uma pedrinha, praticamente do tamanho daquele espaço, que fez com que se desse um pouco de pressão naquele terminal, mantendo o circuito ligado e claro que funcionando. Ai! Ai! Ai! Calor infernal, fazendo com que o termômetro registrasse, à sombra, implacáveis 42 graus, curtimos barbaridade as mudanças bruscas de humor do tempo que, de um minuto para outro, se armava e mandava ver água, que da segunda tromba delas em diante, resolvemos encarar sem colocar as jaquetas, tal a dificuldade de enfiá-las braços adentro, suados e molhados que estavam, tornava tal procedimento um sacrifício.

E desta maneira, despistando o problema que tínhamos, tomamos bons e gostosos banhos, de molhar até a alma. Nova parada para abastecimento e, claro, novo problema na ignição, que novamente foi contornado, nos mandando estrada à frente, desviando, é óbvio, na medida do possível, daquela enorme quantidade de buracos, que como armadilhas, nos espreitavam por toda aquela extensão, tirando completamente a confiabilidade na estrada que, de um modo geral, seria boa, se o respeito pelo cidadão fosse diretamente proporcional a espessura daquela folha de papel negra, que cobre o vermelhão do barro, que sem nenhum esforço, vai aflorando rodovia afora.

Preocupados com o problema que tínhamos a bordo, nem imaginaríamos que o teríamos redobrado ao entrarmos na reserva indígena dos Waimiri Atroari, cuja extensão de mais ou menos 130 km, dividida entre os estados de Roraima e Amazonas, é marcada além da sua beleza, por uma quantidade enorme de cartazes, solicitando aos transeuntes para que não parem, não fotografem, não filmem, enfim, sigam em frente, pois a área é de risco, face ao primarismo dos seus habitantes. Quase nos borramos somente com a idéia de pararmos por um problema técnico. Era só o que faltava, servirmos de comida para índio e justamente no quintal da nossa casa.

Lembrei-me na hora da história do Bispo Sardinha, durante o governo de um sacana chamado Duarte da Costa, nosso segundo Governador Geral, lá pela metade do século XVI, que ao desentender-se com o filho do chefão, acabou naufragando nas costas alagoanas, quando se dirigia de volta para Portugal, a fim de contar todas as safadezas do dito cujo e acabou, o "tadinho", virando banquete dos Kaeté.

E ao ir contando esta história para a Ângela, a sentia se desmontando atrás da moto, principalmente quando, por sacanagem, dava umas esporeadas no acelerador, fazendo a bonitona corcovear, aumentando desta feita o pavor da minha companheira. Ao mesmo tempo em que me divertia, fiquei pensando também, que, por castigo, poderíamos mesmo ficar empacados por ali e, só com estes pensamentos, dei uma discreta "suadinha" de preocupação, não sem antes chamar a atenção dela para algumas figuras fictícias que eu via pelo meio do mato.

Tudo felizmente transcorreu muito bem, com direito a fotos com os legítimos habitantes deste paraíso, que possuem uma loja para venda de artesanatos feitos pelos seus artistas, na saída da reserva, isto já no Estado do Amazonas. Para complementar este dia cheio de expectativas, quando o relógio batia quinze para as seis, a noite já se fazia presente e ainda tínhamos a partir daquele ponto, na cidade de Presidente Figueiredo, mais ou menos uns cento e trinta quilômetros que foram percorridos no breu da noite e em plena floresta amazônica.

Foram quilômetros e hora e pouco, quase duas, que viajamos com os corações na boca, pelo negrume que nos cercava e com o problema que imaginávamos continuava a nos acompanhar. Graças a Deus, chegamos em Manaus bem, sãos e salvos. Linda esta Manaus. Impressionou-nos seu movimento e a forma como se apresentou, bem sinalizada e com lindas avenidas a nos conduzir para o seu centro histórico, onde finalmente nos alojamos.

Cansados após mais de 750 km temperados com toda a sorte de temores e vencedores daquela batalha contra aquele exército de buracos, já havia percebido, durante o trajeto, um ferimento no amortecedor direito dianteiro, que sangrou até a última gota de óleo, sujando com o seu sangue toda a parte dianteira do motor, nos dando a impressão que os dois terços de litro de óleo que o mantém, multiplicara-se por dez, tal a lambança que o triste fez. Portanto, já neste dia seguinte, a primeira coisa a fazer era procurar um hospital para esta nossa valente que, como de hábito, dá show por onde passa, principalmente aqui nestes extremos, onde debutou, deixando estes nossos irmãos com os queixos caídos, acompanhado, é claro, de todas as explicações para os questionamentos que nos eram formulados.

Atendimento primoroso da Concessionária Motocentro, pilotada pelo Gerente da Oficina Pedro, que recomendou internação até o dia seguinte, quando estaria nos devolvendo a bonitona em ordem, como de fato aconteceu. Parabéns para este pessoal, que num gesto de extrema simpatia e carinho, não cobrou um centavo sequer por toda esta assistência. Recebemos a moto em ordem, com tudo funcionando maravilhosamente bem, havendo sido trocados os dois retentores dos amortecedores dianteiros, assim como, o engate do chicote do tal solenóide que havia torrado em função de um mau contato existente e, claro, que perdoável, depois de 175.000 km percorridos. Rodamos, circulamos e tivemos o prazer de conhecer a Rebeca, sobrinha do nosso Amigo Luiz Paulo, lá de Carazinho, que muito gentil nos acompanhou por alguns dos lugares que estão na moda nesta capital, entre eles a Boate do Hotel Tropical, capitaneada pelos conterrâneos Gustavo e Gil, que estão mais bonitos e queridos do que nunca.

Experimentamos da culinária amazonense, principalmente nos esbaldando com a costela de tambaqui, feita na brasa e no espeto, tal qual estamos acostumados com a similar bovina. Um pouco diferente dos nossos hábitos alimentares, claro, mas não deixamos de provar o tucupi, a farinha de uareni e vai por aí afora, incluindo o delicioso tucunaré, pimenta de cheiro, porém, jogando a toalha na mesa para o tal do jaraqui, um triste dum peixinho, quer dizer, de um monte de espinhas, que tem um pouco de peixe em volta.

Tudo muito lindo muito diferente, bem temperado com o calor deste nosso lado do equador, mas era chegada a hora de encarar o local por onde deveríamos embarcar rumo a Belém pois, de Manaus para baixo, somente pela água ou pelo ar. Claro que iríamos pela água, não imaginando, todavia, que o capítulo aventura ainda teria desdobramentos tão particulares, como aquela escadaria que se apresentava à nossa frente, com os seus vinte e sete degraus, que nos levaria para o píer, onde se encontrava o Barco Onze de Maio, escolhido para nos levar rio abaixo.

Foi uma verdadeira odisséia a descida daquela rampa, no meio dum mercado persa incrível, bem em frente ao mercado público. Tivemos a impressão de que não conseguiríamos colocar a bonitona lá embaixo, que provou que cavalo desce escada. Acompanhados por um séqüito de seguidores, ávidos pela caixinha, os tais estivadores, tinham que ser contidos, para não levarem a baguala no colo, que ardia sob aquele sol de rachar, daquele meio de tarde.

No lombo daquela selvagem, tal qual um peão de boiadeiro, tentava controlá-la, assim como todos os peões que nos cercavam, serra abaixo. Um verdadeiro teste para quem já está na segunda metade do seu século e, para a Ângela que tentava fazer a cobertura fotográfica daquele evento, que por instantes monopolizou as atenções daquele atracadouro. Finalmente, após havermos, tal qual piratas em pleno mar, caminhado pela "prancha" estacionamos a baguala entre sacos de mantimentos, redes, "CGs" e gente por todos os lados. Quanto ao problema de retirá-la lá de dentro em Belém, bem, seria uma preocupação que não iria nos consumir por antecipação.

Estávamos bem instalados em nossa suíte, com banheiro privativo e ar, ar condicionado. Moídos por este desgaste, entretanto, não nos entregamos e aproveitamos todos os minutos que antecederam nossa partida do Porto de Manaus, vibrando com toda a movimentação daqueles milhares de pessoas, que carregavam e vendiam de tudo o que se podia imaginar, embalados agora, já no final, por um pregador que, armado de um possante sistema de som, pregava a palavra, literalmente em nossos ouvidos.

Foi um verdadeiro show, inesquecível, esta nossa partida, dentro de um navio, com mais de duzentas pessoas, instaladas em redes por todo o convés do primeiro e segundo piso. Era uma profusão de cores, de gente de todas as cores também, porque aqui, além do negro e do branco, temos o vermelho, o amarelo, o pardo, o cinza e vai por aí afora esta miscelânea de cores que torna este nosso Brasil tão particular.

E, à medida em que íamos singrando aquele Amazonas, estudado há tanto tempo atrás, e já tão distante do nosso cotidiano, mais o íamos amando, ao constatar que esta maravilha desta nossa Mãe Natureza, é quem leva e traz, quem alimenta e enterra, quem sustenta e abriga, milhares, centenas de milhares de patrícios deste nosso norte distante. Foram quatro noites e três dias e meio de sonho pelos rios Negro, Solimões, Tapajós, Tocantins e Pará, que se curvam sob a força deste portentoso Amazonas, que orgulhoso rasga e leva tudo o que vê pela frente, em sua obsessão de se entregar ao Mar Tenebroso.

Jamais esqueceremos os dias de absoluta paz, de tranqüilidade e de admiração por tudo o que vimos e sentimos, naquela navegada calma e doce, onde até o sol, em reverência a este nosso orgulho, se põe de forma respeitosa a este gigante, nos proporcionando com a sua retirada de cena, brilhos incríveis, com seus raios poentes despedindo-se com um até logo, para logo em seguida, como que agora o querendo desafiar, romper o amanhecer com seus fachos de luz revigorados e intensos, como se fossem espadas a abrir caminho por aquele imenso tapete molhado, que propositalmente, reluz.

Como nem o astro rei consegue ofuscá-lo, agora com uma certa ponta de inveja, alia-se à chuva, que impiedosa derrama-se sobre o majestoso, num outro espetáculo digno de nós privilegiados, que sem perceber, contribuímos com esta aliança, deixando correr lágrimas de alegria por momentos tão mágicos que tivemos a oportunidade de viver. E como no quarto dia é chegada a hora de continuar, desembarcamos com muita tranqüilidade, apesar de havermos atracado ao lado de um outro navio, necessitando, portanto, fazer um transbordo, que correu na mais absoluta normalidade, estando minutos após, no centro de Belém, no Estado do Pará, onde nem deu tempo para que terminássemos o café que recém iniciáramos, quando fomos carinhosamente abordados pelo recém apresentado Lélio, pilotando uma vistosa Shadow, que fazendo as honras da casa, nos colocou no meio de um grupo de Amigos, que se desdobraram em gentilezas e atenções, nos deixando com a missão de tentar retribuir tanto carinho quando por nossas plagas aportarem.

Incansáveis, agradecemos os encontros na Praça do Carmo, ao passeio conduzido pelo Fernando até Mosqueiro, praia de rio, com direito a horizonte e, o que é mais incrível, a sensação de se estar no mar, com aquele barulhinho gostoso de ondas quebrando na beira da praia. Valeu e demais. Agradecemos as dicas de todos estes Amigos, incluindo além do Lélio, o Adelson, o Paulo e todos os outros e suas respectivas mulheres.

Todos estes dias já estão gravados em nossas memórias, Amigos. E com mais estas jóias nos corações e, seguindo suas orientações, adoramos nossa ida à Salinas no litoral, distante não mais do que 250 km, onde permanecemos desde a nossa chegada nesta quinta-feira, dia 28 até o dia 30, quando deste nosso ponto, agora o próximo destino seria São Luiz, no Maranhão, aonde chegamos ainda neste sábado, após um percurso de pouco menos de 500 km, com direito a travessia, da Baia de São Marcos, a bordo de um "ferry- boat", que devido à agitação deste mar, nos proporcionou um outro espetáculo, com as ondas que eram cortadas, levantando-se por toda a proa do navio, tanto a boreste como a bombordo, trazendo para os menos avisados, o estômago à boca.

É bom não se esquecer, que no trecho que antecede a Cujupe, onde embarcamos para esta travessia, entre Santa Helena e Pinheiro, numa extensão de 43 km, simplesmente a estrada desaparece e nos deixa a mercê de uma trilha, tão ruim, mas tão ruim, que até moto trail tem medo de encarar. De qualquer maneira todo este sacrifício valeu a pena, porque São Luiz é uma graça de cidade, com seus casarões coloniais, decorados com belíssimos azulejos, de todas as cores e desenhos.

Circulamos por todos os cantos da cidade e, sem querer, ao pararmos num lugar qualquer para pedir informação, fomos surpreendidos pela propaganda desta nossa informante, que disse possuir a melhor lavação de motos da região, que de pronto acreditamos, deixando a bonitona para uma escovada que vinha sendo protelada desde Fairbanks, lá no Alaska. Foi um estouro a "faxinada" que deram, deixando a baguala com o pelo reluzindo que dava gosto.

E como para nós, o melhor baião de dois, do Brasil, é este que se come em São Luiz, que acompanhados de uma boa carne de sol, foi nosso prato principal nestes três dias que por aqui ficamos, aguardando, em contagem regressiva, a chegada deste três de setembro, que nos levaria a um período de férias, claro que merecidas, em nossa casa, lá em Balneário Camboriú, onde no dia seguinte, nosso neto Pedro, estaria comemorando o seu quinto aniversário e, claro, seriamos a surpresa tanto para ele como para a sua mãe. E assim, loucos para que o amanhã chegasse logo, fomos dormir completamente dominados, de novo, pela... ansiedade.

Fonte: Dolor e Angela
Cidade: Itajaí-SC-Brasil
Fotos: Dolor e Angela
Publicado: Eduardo Vargas de Oliveira Pedroso
Date: 02/09/2003 <%insert_data_here%>


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  Evento 10366 - Dolor e Angela, no vento com o Sonho 2003

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