21 de setembro de 2008 Domingo
Parti às 08h30min com a gostosa sensação de estar em outro país. Esse tipo de vida faz bem ao pelotão, um pouco de stress de batalha faz parte. Adiante há um parador, resolvo comer algo para comemorar.
É o parador La Víbora, um local exótico, com uma enorme bicicleta no telhado de palha logo na entrada, cabeças de cervos, ninhos de maribondos, duas gigantes e o mais legal: Lembrei de meu amigo Rodrigo Beheregaray, pois seu pai fazia desenhos de gaúchos nas mais diversas situações em sua lida de campo. Havia vários desenhos em calendários datados de 1951.
Tirei várias fotos e depois mando ao amigo. Inclusive Rodrigo me presenteou com uma relíquia, um calendário antigo com desenhos de seu pai. Valeu amigão.
Como uma gigantesca milanesa que sai prato afora e uma taça de leite. Fernando, o dono, me cambia a plata argentina que tenho e sigo em frente até parar para fotografar um monólito alusivo a batalha Del Rincón, um pouco antes do pedágio. Chego à extensa ponte sobre o Rio Negro. Ali está a cidade de Carmelo.
-Tenente, porque não seguimos em frente, será muito mais perto seguir em frente.
- Soldado, tenho que visitar quatro amigas uruguaias que me gustan mucho.
- Deve ser coisa boa!
- Sin, Mercedes, Dolores, a mais nova, Palmira e Carmelo, mulheres inesquecíveis!
Vou penetrando em Mercedes, uma linda cidade. Na praça central uma catedral com cúpulas avermelhadas, motos chinas Yumbo, Yasaki e todo tipo de ciclomotores. A sensação é observar os uruguaios manobrando as motinhos com o mate e a térmica embaixo do braço esquerdo. Quer deixar um uruguaio aleijado? É só roubar seu mate e sua térmica, eles não saberão o que fazer com o braço que ficou livre.
Compro uns cereais e sigo pela estrada. A coisa já estava ruim e ficou pior, pois o vento entrou de rajadas e frontal. Ranhento, sem banho e água a não sei quanto tempo, entra esse vento irritante e gelado soprando contra e com essas coxilhas que não param de subir nem descer.
O pelotão sabe que o campo de batalha será conquistado com muita perseverança e assim segue em frente. Paro para descansar onde não haja vento forte, mas tive azar e parei justo onde havia restos de cactus. Uma folha crivada de espinhos cravou na base do pé e tive que fazer força para arrancá-la.
Essa incomodou! O pior foi que ao sair dali, um dos espinhos furou o pneu dianteiro de Evita. Até que tudo deu certo e troquei em meia hora. Na beira da estrada sem recursos é dose. Adiante tiro fotos com dezenas de rolos de feno armazenados em uma fazenda onde entravam e saiam caminhões com gado.
Aquela idéia bucólica que tinha ao viajar de bike pelos lindos campos verdejantes, parar onde quiser, curtir a natureza é só uma farsa que o espírito envia ao corpo.
Aqui no campo de batalha é um corno de vento contra que tornam cada subida pior do que já é, falta de banho, gripe, retas que parecem subidas e descidas que parecem retas. Irritante.
Quando tu olhas pra frente, sente esse vento assoviando na orelha o dia inteiro e um sobe desce sem fim até o horizonte, começa a perguntar:
- O que eu to fazendo aqui?
Às 18h20min h, há 5 km de Dolores resolvo sair da pista e entrar em uma trilha com algum mato. É raro de encontrar algo que não seja porteira e proibindo isso ou aquilo.
Passei uma ponte sobre o km 325 e entrei no brejo. Quase tudo árvores com espinhos, uma dureza. Finalmente encontro algo um pouco melhor. Arrasto a Evita sobre galhos e durmo escondido entre os capins e arbustos cheios de ninhos de passarinhos. Assim vou curando minha gripe. A garganta já está boa.
22 de setembro de 2008 Segunda-Feira
Amanhece mais quente e nublado. Preparo sacos ao redor das bolsas, tenho que me preparar antes. Sigo entre verdejantes plantações de trigo e penetro em Dolores antes que ela desperte totalmente. É muito cedo ainda. Paro na saída da city para consertar a câmara furada.
Ali William, Gerardo e Rony me atendem super bem enquanto armam um enorme pneu de trator nas máquinas. O pneu tem quase 2 metros de altura e é bonito de ver o pessoal labutando ali. Minha câmara ficou com três furos por causa daquele espinho de cactus.
William se recusa a receber pelo conserto. Muito obrigado amigo. Sigo para a estrada e para minha surpresa não há asfalto. Uma terrível confusão de caminhões carregando terra, tratores, carros e caminhões formam uma nuvem de pó denso. Está difícil para respirar. Sigo pela contramão, pois o pó segue para o lado oposto.
O pessoal respeita e vai desviando enquanto eu sigo assim por uma hora até que revejo asfalto de novo. Ufa! O que já era sujo se tornou pior. Sigo pelo asfalto alto e sem acostamento até o meio dia, onde encontro outro desvio, duas pontes e uma delas com um agradável riacho.
Era tudo que eu queria. Lavo rosto e pés na água gelada. Como aquele delicioso salamito, deito em um papelão embaixo da ponte e termino a refeição com um delicioso queijo caseiro e chocolate. Perfeito!
- Tenente, isso não está certo, o senhor amanhece com a Dolores, passa a tarde com a nova Palmira e depois vai dormir com a Carmelo, assim vamos ficar com ciúmes.
- Vocês têm que aprender que não importa o nº de mulheres, tem que saber agradar a todas!
E vamos em frente uma hora depois. Mais duas horas e chego à Nova Palmira, do alto das coxilhas já se vê o Rio Uruguai. Dali seguem as lanchas que cruzam o delta e seguem para a argentina. Na verdade é um porto, assim como Dolores é considerada a capital dos grãos do país.
Há um desvio por fora da city e lombas fortes. O vento forte entra com tudo e de frente. Pensava que Carmelo estaria junto a N Palmira, mas ainda faltam 20 km. Estou podre, mas penso que tenho que chegar a Carmelo antes das seis, pois penso que o Carmelo Rowing Club fecha por aí. Já estou sonhando com um banho quente, fazer a barba e outras mordomias.
As pernas já não obedecem como quero. O asfalto fica ruim, o vento aumenta e um sem nº de subidas e descidas fortes me faz perder o controle. A corrente salta fora e eu tenho um ataque de fúria galopante ali no meio da estrada. Fico berrando sozinho toda sorte de palavrões, mas até pra isso estou cansado.
Sigo em frente até parar, (03h15min depois de sair da outra ponte) no riacho La Víbora. Assim descanso e me acalmo.
Às 17h30min chego a Carmelo. Vou ao clube, revejo Cristina, seu Júlio, os amigos do Remo e vou para o ambicionado banho. Que delícia! Janto no bar do clube com Miguel, sigo a um cyber e retorno para dormir no ginásio.
Aqui meus hermanos de Rosário passaram o ano novo e aqui cheguei de caiaque e sai de bike com o caiaque no reboque. Outras estórias! Na janta tomei uma jarrinha de vinho sozinho, assim passaram as dores do corpo e a gripe se curou.
Carmelo - Uruguai 23 de setembro de 2008 Terça-Feira
Depois da ressaca de vinho (para comemorar a chegada aqui) de ontem à noite, deixei a bike na oficina para uma limpeza da poeira e vim escrever um pouco. Tirei o dia de hoje para atualizar o diário e ver os e-mails dos amigos. Havia parado dia 15-09 quando escrevia o diário.
Na parte da tarde, Juancho aparece na Tapera com a bike. Ele se deu ao trabalho de reforçar o bagageiro traseiro com duas alças soldadas na metade. Só o fato de ele ter feito isto já diz tudo o que eles tem de preocupação para que tudo dê certo. Com amigos assim a responsabilidade para seguir em frente, não posso decepcioná-los.
Guazuncho (Cervo)
Nesta noite Juan Veron resolve fazer a janta de despedida na Tapera. Um disco de arado com uma lateral e apoios para ser colocado sobre as brasas do fogo de chão.
Como ele e Paco são caçadores, o prato de hoje será a base de carne de Cervo. Ela é vermelho-escuro. Uns 3 a 4 quilos. Na roda de arado são colocados porro (uma espécie de tempero verde), creme de leite, champignons, cenoura, cebola e duas ou três garrafas de vinho, umas para o assa dor e um pouco na comida.
Tchê, sou contra a caça e a destruição da natureza, mas que delícia! Estar ali, naquela gélida noite de lua cheia conversando, comendo e bebendo com os amigos é uma coisa que não tem preço. Aldo (está nos States), Daniel Ross (no Equador), não estão, mas o brinde kayaquista é sempre o mesmo:
- A los que no están!
Ao som de cantores nativistas como Citarosa, Larralde e Athaualpa Yupanqui, Ariel, Diego Ross, Paco, Colo Weir, Veron, Lionel, Guillermo e Mariano vêm se despedir. Que dias maravilhosos aqui em Rosário. O Carinho de meus amigos e suas famílias é algo de dar inveja.
Bueno, ontem bati um recorde, doze horas sentado em uma cadeira aqui na internet. Havia parado de escrever o diário desde Carmelo, no dia 23-08-08. Apareceu o Raul Viera para convidar a uma janta em sua casa.
Da internet sigo para o clube, despeço-me de Cristina Pizarro, Estejam Fazio, Carlos Anchieri, seu Julio Irigoitia e converso com o senhor José Maria Pereira. Tomo um vinho com Miguel ali do bar e ele nem quis cobrar. Assim foi na oficina de Mario Pereira, ele e seus filhos André e Mário arrumaram a bike e não cobraram nada.
Foi ele quem fez o carrito e vendeu a bike para eu sair de Carmelo por terra, pois fui impedido de prosseguir pelos boludos da prefeitura de Carmelo em 2005. Voltei para deixar uma bomba no inodoro (vaso sanitário) do Prefeito, mas ele fugiu para destino ignorado. Agora é outro prefeito, espero que seja menos boludo do que o palhaço que estava aqui da outra vez.
Bueno, o dia que eu estava para ir embora no carrito (depois de esperar sete dias por uma liberação que nunca viria), apareceu o Raul querendo me ajudar, que eu me “fugasse” pela noite. Eu já tinha feito o negócio com o Mario e não poderia voltar atrás.
De qualquer forma, ele foi o único que realmente tentou me ajudar daquela vez. Ele vem me buscar de moto e lá em sua casa ele me apresenta a um amigo, Miguel.
Eles organizam passeios e possuem canoas canadenses. Algumas tem flutuadores e mostra fotos de um passeio que organizaram com 80 canoas. Raul relata que até ele foi preso por tentar andar pelo rio de la Plata em sua canoa. Ridículo!
Acordo cedo, converso com o treinador de remo, vou à oficina de bike El Rayo de Mario Pereira, o mesmo que construiu o carrito para o caiaque e uma bike, assim pedalei por 650 km até o Chuí onde o caiaque voltou para a água. Ali reencontro outros amigos e Raul Viera vem até a oficina me encontrar. Deixo a bike e venho para o Cyber escrever o diário. Já estou escrevendo há exatas seis horas e quarenta minutos.
Raul veio até aqui, ele tentou me ajudar com a prefeitura da vez que estive com o caiaque, mas foi no dia que já estava partindo. Hoje vamos nos encontrar no clube a noite e amanhã pretendo seguir. 780 km se foram (isto sem contar os 60 km de Rosário a Victória).
Ainda faltam quase 900 km pela frente, mas o pelotão já disse a que veio. Essa brincadeira de bike vai chegar perto de 1700 km, pois a pode ser que eu a grande um pouco mais. ainda faltarão 600 km de windcar, mas essa é outra estória.