A história da Elke
Idade: 32 anos
Nascimento: 2 de Junio de 1976, Berlin, Alemanha
Profissão:
Engenheira Civil
Programador Informático
Tradutora
Domicílio: Berlin, Alemanha
"Primeira, segunda, terceira, acelerar até aos 50km/h… e… TRAVAR!!" A minha primeira lição de condução numa verdadeira mota, na zona industrial de Barcelona. Eu estou sentada na La Garota, atrás de mim está o Gustavo a gritar-me as instruções. Não posso deixar a zona industrial sem antes passar o "exame da mão": a cada par de segundos o Gustavo levanta a sua mão e eu tenho que confirmar dentro de 5 segundos que a estou a ver no espelho retrovisor.
"Mas nunca olhas para o espelho retrovisor quando andas de carro?" pergunta-me o Gustavo. Claro que sim, mas num carro não tenho que pensar num milhão de coisas ao mesmo tempo. Preciso de toda a manhã para coordenar as minhas duas mãos e os dois pés. Começo a entrar em pânico. Já só faltam cinco dias.
Alguns dias antes eu tinha decidido juntar-me ao Gustavo na sua volta ao mundo. Num estado de euforia, nós tínhamos enviado uns e-mails a alguns potenciais patrocinadores para perguntar se estariam interessados em patrocinar uma mota para mim. Apesar de parecer impossível... uns dias depois o telefone tocou e Giovanni Celli perguntou: "Que cor preferes?" Não pude acreditar no que estava a ouvir. Eu tinha a minha própria moto.
Gustavo foi convidado para um rali em Maiorca cinco dias depois. Decidi então, nesse mesmo momento deixar o meu doutoramento na Universidade de Barcelona e começar o meu sonho. Não iria perder mais tempo precioso.
Mas ninguém era suposto saber de algo. Este era o meu segredo, o meu grande plano. Não queria ouvir quaisquer questões, dúvidas ou bons concelhos. Nem sequer eu própria queria começar a pensar na minha decisão por medo de mudar de opinião. A minha intuição dizia-me que o meu comboio tinha chegado e que cabia agora a mim apanhá-lo, mesmo que essa ideia me aterrorizava.
Tínhamos exactamente cinco dias para construir as malas em alumínio para "Milton" (este foi o nome que eu escolhi para o meu futuro companheiro), fixá-las, empacotar tudo... e entretanto eu praticava andar de moto todas as noites. Tudo tinha que acontecer em segredo – escondemos as malas em alumínio, o segundo par de botas... a contagem decrescente tinha começado. Dentro de cinco dias toda a gente saberia. Estava ansiosa para que esse dia chegasse, para acabar com os segredos, mas eu também sabia que nesse dia não haveria mais volta atrás. Acabaria a bolsa de estudo mensal, a cama quentinha, os serões com velhos amigos... mas acabariam também o tormento diário do despertador pela manhã e das longas horas no instituto, onde desde há muito me tinha deixado de sentir em casa.
Claro que ainda tenho que trabalhar. Mesmo que as pessoas sempre me perguntem estupefactas: “Em que trabalhas TU?” Como se agora o dinheiro caísse do céu. Eu agora trabalho pelo caminho. A internet é a melhor invenção desde a roda.
Tudo na vida é uma questão de decisões e de preferências. Muitos preferem uma vida bem organizada com todas as vantagens e desvantagens como um apartamento, rendimentos regulares, família e pouco tempo livre. Nós preferimos uma vida na estrada, com todas as experiências únicas, todas as incertezas e dificuldades que isso traz consigo. Esta é a nossa decisão.