Depois de ter ficado de fora da etapa de Três Coroas e do fiasco na etapa da Miraguaia, eu e o Márcio resolvemos que tínhamos que fazer bonito na última etapa do campeonato metropolitano. O Márcio vendeu a DT-200 e para não ficar de fora, emprestei a minha querida Tornado Bigorna, que tanta alegria já me deu (inclusive um ombro deslocado).
Preparamos as motos na semana e no sábado levantamos cedinho e fomos rumo à localidade de Rodeio Bonito. No caminho já dava para ver que o dia prometia ser de sol, depois de muitas provas com tempo molhado. Desta vez, o Márcio estava confiante em um bom resultado, pois a moto era confiável e ele está andando muito bem depois de todas estas provas e agruras no campeonato.
Chegamos cedo em Rodeio Bonito, preparamos o material e conforme prometido para o pessoal, fiz um monte de fotos para o Inema antes da largada. Largamos no horário e fomos até o deslocamento para a largada. Mais umas fotos que quando dei por conta, já estava atrasado para a prova.
Subi rápido na moto ajustei o trecho e larguei fincado para buscar o tempo. Desci a primeira ladeira de pedras acelerando forte, passei no primeiro PC 13 segundos atrasados e continuei acelerando para enquadrar o horário. Mas não tem jeito. Corpo frio, mente ainda fora da prova e lá me vou para o chão num belo de um pialo, moto para um lado e piloto para o outro. Mas não dá nada, calcinha floriada, que levanto ligeiro antes que alguém veja e continuo firme na prova.
A parte da manhã foi de muita navegação e médias altas. Num trecho quase chegando a São Francisco tinha uma subida de pedras com média alta e eu fui acelerando forte morro acima, quicando por cima das pedras e mantendo o Compass próximo do zero. Foi uma subida alucinada onde eu me achei que era o tal, visto a velocidade que consegui subir e sem cair (tá certo que houve vários “quase” tombos).
Outro aspecto que dificultou a prova foi que fiquei sem curso no freio traseiro e praticamente só usava o freio motor. Quando cheguei ao neutrão, no Posto Charrua, tratei de melhorar o freio traseiro, sem muito sucesso, mas ficou melhor do que estava.
O Márcio chegou no tempo e estava empolgado com o resultado até o neutro.
Larguei para a parte da tarde, que conforme o Lazaretti, prometia muito. E ele estava certo. Passamos por uma trilha de campo, onde no Enduro dos Pampas tinha um enorme atoleiro, onde o Márcio mergulhou com moto e tudo (lembra?). Felizmente, o famigerado atoleiro estava seco e acelerei firme pelo campo e pelas pedras. Para não correr riscos, desci rapidamente da moto na hora de cruzar a ponte sobre o riacho e fui embora.
Alguns pilotos passaram pela água. Quer dizer, nem todos. O Ovídeo Zimmer resolveu dar água para toda tropa de 25 cavalos da sua DT-200 e mergulhou com tudo no riacho. Parece que a região vai continuar com seca, pois dizem as más línguas que ele bebeu quase toda a água do riacho e teve que abandonar a prova.
Na saída do campo, tinha uma encruzilhada com muitas opções de traçado e o pessoal estava que nem barata tonta de um lado para o outro. Errei a primeira tentativa e dei de cara com o Hugo Zimmer que estava no caminho certo. Porém, ao me ver, pobre coitado, achou que estava errado e me seguiu para também ficar perdido. Anda daqui, anda dali e finalmente me achei na prova depois de dez preciosos minutos perdidos . Nesta altura da prova, o Márcio já tinha me alcançado e passou um trecho na minha frente. Numa subida deixei-o para trás, e depois da prova ele me disse que a Tornado estava falhando e apagava sem forças (provável sujeira no carburador).
O trecho dentro dos pinus foi alucinante, com referências curtas e como eu estava atrasado, em velocidade maior que a da planilha. Quase passei reto no PC, mas uma rápida olhada para a esquerda e vi uma camisa branca escondida e dei meia volta, passando um tanto atrasado.
O trecho depois dos pinus foi de pura adrenalina. O Hugo Zimmer, que também estava atrasado, acelerava forte e eu ficava comendo poeira uns 30 metros atrás. Tinha horas que eu chegava junto, mas como diz o Galvão Bueno, passar é outra coisa. Quando ele escutava o ronco da minha moto, acelerava mais (e como ele acelerava). Resolvi ficar atrás e deixei-o ir à frente como “boi de piranha”, mantendo uma distância segura para qualquer imprevisto.
Era lindo de ver. Ele acelerava, eu acelerava. Ele freiava e eu, já sem freio, tentava freiar, num balé em alta velocidade pelas estradas cercadas de hortências e cheias de pedras. Teve um trecho que atingimos 92 km/h. Realmente foi uma experiência inesquecível pilotar nestas condições com um piloto de primeira.
Saímos do estradão e entramos numa trilha escondida do lado da cerca e eu perdi o meu “boi de piranha” de vista, pois na trilha ele era muito mais rápido que eu. Segui sozinho, no tempo e entrei numa da melhores trilhas que já fiz em uma prova. Era uma trilha longa e estreita, de 9 km, com média alta de 36 km/h onde o piloto tinha que mostrar toda a perícia nas curvas fechadas para manter a média.
Baixei a viseira do capacete e com o olhar concentrado em um campo de visão não maior que cinco metros fui acelerando forte, ora descendo, ora subindo, ora passando por baixo de tronco de árvores, ora fazendo curvas fechadas. Pelo caminho, via as entradas no mato que muitos pilotos deram na tentativa de manter a média de velocidade. Finalmente cheguei ao final da trilha, onde tinha um PC e um providencial neutro, para recuperar o fôlego e baixar a adrenalina.
Depois passei por mais uma trilha danada, onde as cavas fundas obrigavam a levantar as pernas quase na altura do guidão, tirando o restinho de energia que ainda sobrava neste pobre e maltratado corpo.
Nesta altura da prova o Márcio vinha pagando os pecados. Primeiro foi a Tornado que engasgava com alguma sujeira na garganta. Depois foi o mini Compass que ficou sem bateria, de forma que ele vinha navegando pelos desenhos e pelo rastro dos outros pilotos. Por duas vezes quase bateu de frente. Primeiro com um piloto que vinha perdido, depois com um trilheiro solitário que vinha usinando pelas trilhas.
Mas como diz o ditado, Deus pilota certo por trilhas tortas. No fim da prova, errou uma referência e foi reto, perdido no estradão. Em uma curva fechada encontrou um piloto que passou reto na curva e despencou barranco abaixo. Para a sorte dele, o Márcio errando o caminho encontrou o pobre coitado em uma situação que lembrou a dele no Enduro de Três Coroas, onde o pessoal teve que voltar para buscá-lo. Com muito esforço, conseguiram tirar a CRF-230 (ainda bem que era uma CRF e não uma Tornado) do fundo do barranco e voltaram para a prova completamente atrasados e exaustos. No final, fiquei em 4º lugar e o Márcio em 7º.
Depois veio o almoço e a festa de entrega dos troféus da prova e do campeonato, onde foram sorteados muitos brindes para todos os pilotos.
Este campeonato chegou ao seu fim. Sem dúvidas teremos muitas histórias para contar para os nossos netos. Para o ano que vem, o Márcio está preparando uma surpresa. Já vou adiantar. Está comprando uma CRF-230. Se cuidem pilotos da Categoria B.
A todos os velhos amigos e os novos que fiz este ano fica o meu sincero agradecimento pelos momentos de camaradagem e alegria que passamos junto. E tenham a certeza que no ano que vem tem mais fo-fotos e histórias para contar. Um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de saúde e de trilhas.
Um grande abraço e até o ano que vem com mais um Campeonato Metropolitano.
ronesio@superig.com.br