23/10/05 quinta-feira 6º dia: A “Praga” do Aldo
Agora são 00h46min, que dizer do dia de hoje?O mais pavoroso/ O maior pesadelo? Olha, se eu disser que quase morri duas vezes, não estarei exagerando.Estou abalado psicologicamente, apavorado e sem confiança. Vou transcrever o diário:
A morte pede carona
O lugar mais lindo onde acampei até agora foi deixado para trás às 09h30min. Cruzei umas corredeiras fáceis e depois entrei em uma parte bem tranqüila por cerca de uma hora. Escuto um estrondo forte, deve ser a cachoeira que seu Euclides avisou. Era muito forte e extensa, mas em linha reta, menos mal! Embiquei a proa bem no centro dela e fui na direção do bicho. O caiaque corcoveava e era tragado pelas ondas doidas que cobriam até a mim. Era muita força de água e na metade da torrente ela fez o caiaque girar, acabei descendo o resto de ré, quase ficando com dor no pescoço ao olhar para trás. Encharcado e cansado, cheguei no remanso certo de que havia cruzado por um trecho bem ruim.
Fui em frente, na esperança de que o pior houvesse passado. O rio apresentou mais algumas corredeiras, mas sem importância. Bueno como eu sempre começo o dia num ritmo lento, parava de remar e fazia alongamentos enquanto o caiaque deslizava pelos remansos. Ficava só curtindo os sons da mata, observando os pássaros e a beleza do lugar. Adiante, vi uma coisa maravilhosa: Dois tucanos de bico alaranjado sobrevoaram o rio e me deixaram paralisado, que coisa linda! Pousaram numa árvore adiante, tentei filmá-los, mas são muito ariscos e se foram.
Garganta do Diabo
Às 11h30min cheguei numa corredeira forte e passei pela primeira parte, onde havia um pequeno remanso. A segunda parte era diferente, em “S” e o rio todo passava em um vão com pouco mais de 4 m. Havia uma grande rocha do lado direito e outras do lado esquerdo. Era muito forte, mas achei que conseguiria e fui. Quando o caiaque despencasse na queda, teria de virar rápido para a esquerda, para fazer a curva. Travei com tudo pela esquerda e remava forte pela direita, mas o barco não obedecia mais. O bico foi se aproximando da rocha percebi qua a água seguia por baixo dela e o choque era inevitável. Fui gritando:
- Não, não, não!
O bico do Maktub bateu forte e o barco virou de lado. Tentei livrar o rosto da rocha, pois a pressão da água estava virando o caiaque de lado e contra a rocha. Meu corpo foi raspando e girando para baixo junto com o barco. Acho que gastei a ponta dos dedos e “aparei” as unhas. Tchê, caiaque trancado por baixo da rocha e eu dentro... A força da água me desnorteava e eu não via mais nada, submerso e desnorteado. Minhas mãos procuravam desesperadamente a alça que me liberaria do barco. Consegui encontrá-la e, desesperado, consegui sair dali. Sem querer, soltei o barco. Talvez a força da água o tenha liberado ou meu corpo deve ter batido nele ao sair. Nunca mais vou esquecer: o turbilhão de água, eu enfiado no caiaque e trancado por baixo da rocha...
São puros momentos de pavor, tu não sabes o que pode acontecer, a força da água te desorienta e te joga contra as rochas. Na descida rio abaixo ainda levei uma porrada no queixo, ao chocar contra outra rocha. O pavor não me deixou sentir dor. O caiaque ficou a meu lado e fui tentando direcioná-lo para que não chocasse direto nas rochas. Fomos descendo assim por 200 m, até chegar no remanso. A meu lado apareceu boiando a lona que se desprendera. Perdi o boné do Grêmio e uma garrafa de água mineral. Consegui nadar até a margem, esvaziei o caiaque e voltei para filmar o local. Foi aí que identifiquei o local, Heitor havia descrito bem no 1° dia, era a Garganta do Diabo! Que sufoco! Eu sempre tive medo disto, de ser levado para baixo de uma rocha e ficar preso. Meu queixo ficou com uma “bola de gude” no lado esquerdo, podia ter quebrado o dente! Melhor de tudo foi ter saído com vida!
O rio calmou de novo e resolvi parar às 12h30min para comer algo. Ainda estou nervoso, pois o trecho de hoje alterna partes calmas com corredeiras perigosíssimas. Eu nem falo mais daquelas que consegui passar sem virar, embora fossem violentas. Foram centenas nestes 6 dias. Muitas eram pavorosas, mas consegui cruzá-las apenas me encharcando ou chocando com as rochas. O caiaque está que é um risco só e todo trincado, mas não faz água. Às 13h fui em frente, muito cansado e fazendo alongamentos a todo o momento, quando o rio permitia. Eram 14h30min quando cruzei com uma balsa toda esquisita, montada sobre dois tonéis gigantes e com as extremidades bicudas.
O corredor da morte
Daí para frente o “bicho pegou”, entrei por um canyon com corredeiras fortes se sucedendo uma após outra, fazendo turbilhonamentos terríveis e sumindo na curva do rio. Era um barulho ensurdecedor e não havia mais como parar, muito menos saber se haveria alguma cachoeira fatal depois das curvas. A mim só restava lutar desesperado para não ir de encontro às rochas e não virar. Desci uma muito forte e o turbilhonamento me pegou de lado, não havia o que fazer e o barco virou. - Puxa a capa, puxa a capa! E de novo fui sendo arrastado nas pedras por muito tempo. Tentava parar diversas vezes, me agarrando em cipós, galhos e assemelhados. Tudo inútil, a força da água aliada a meu peso e ao peso do caiaque, fazia tudo se romper.
Logo, havia uma ilha flutuante formada por uma infinidade de galhos nos acompanhando na inexorável descida. Estou viajando com luvas que deixam os dedos à mostra e as pontas deles estão com uma infinidade de cortes e espinhos por baixo da pele. Tentei parar várias vezes, mas nada detinha o caiaque que teimava em permanecer emborcado. Finalmente, quando a correnteza diminuiu um pouco, consegui estancar a descida agarrado em galhos pendurados do alto dos barrancos. Junto a nós, uma barafunda de paus e galhos que arranquei pelo caminho. Meu Deus! Que fria que estou! Não vi ninguém o dia todo, apenas casas que pareciam abandonadas. svaziei o caiaque e continuei a descida, já não tão seguro como antes. Segui por outro trecho de remanso e depois cheguei a outro canyon.
Quantas vezes (quase) se morre por dia? Essa foi a pior de todas...
Muitas rochas, rio estreito e perigoso. Havia muitas rochas pontiagudas a flor da superfície e troncos submersos... Seja o que Deus quiser! E me fui de novo, corredeiras pavorosas sucediam-se até que cheguei num remanso entre o corredor de rochas. Dali pude observar (assustado) que havia uma pavorosa corredeira em curva. Não daria para manobrar, pois o “corredor” era estreitíssimo, por volta de 4 metros. Pensei em descer, mas não tinha como, teria que enfrentá-la. A curva seria para a esquerda, pensei em seguir o mais pela tangente possível para poder contorná-la e assim não chocar-me com as enormes rochas da curva. O problema é que ali havia pavorosos redemoinhos além da incrível força de água em local tão estreito, em curva e extenso.
E mais uma vez meu caiaque de 5,20 m não fez a curva! Entrei de lado nas rochas o caiaque virou e foi sugado para o fundo junto comigo. Desesperado, tentava achar a alça, pois o turbilhonamento nos jogava contra pedras e o medo era de ficar entalado lá embaixo.Encontro a alça, demorei muito para conseguir sair. Tento nadar para a superfície, mas continuo girando lá por baixo, batendo em rochas e com os pulmões querendo explodir. Mais um pouco e nem sei mais onde fica a superfície. Solto o ar, não agüento mais: - Meu Deus! - Vou morrer! Vou morrer!
É só o que penso, tenho consciência de que estou morrendo afogado. Não vi Jesus, não passou minha vida na frente, apenas desisti de nadar, não tinha mais o que fazer. Estava pensando apenas nas coisas dali, não “viajei” na hora da morte, como muitos dizem! Mas o rio não queria me ver em paz e me joga para a superfície, não sei como! Chegava a berrar, na ânsia de encher os pulmões de ar enquanto vomitava água que eu nem tinha me dado conta que havia bebido. O redemoinho fdp começou a me carregar para o local onde afundei e o caiaque aflorou a meu lado. Passei o braço sobre ele e meus olhos se injetaram de ódio. Chutei aquelas desgraçadas das rochas com todas minhas forças e assim saímos dali, girando no redemoinho corredeiras abaixo.
O caiaque estava emborcado e o resto da corredeira descemos assim, batendo em rochas, girando em redemoinhos e vendo a lona plástica flutuando mais adiante. Vou dizer uma coisa: eu já estive para morrer várias vezes, mas posso dizer que esta foi a pior de todas. Estava consciente o tempo todo e sabendo que estava morrendo. Nunca mais quero passar por isto, é desesperador, apavorante e agoniante! A corrente te puxando para o fundo, teu corpo rolando como um doido nas rochas e tu querendo subir, sem saber exatamente onde fica o subir... Eu entrava nas corredeiras apenas pensando em conseguir passar, sem deixar que o caiaque, ou mesmo eu, nos quebrássemos nas rochas. Mas agora eu tenho medo, pavor, instinto de sobrevivência animal! Só de ouvir o barulho sinto um pavor interior quase incontrolável. Traduzindo: Medo de Morrer! Acho que estou chegando no meu limite psicológico!
Bueno, a vida continua e minha capa vai deslizando corredeiras abaixo, tenho que alcançá-la antes que afunde. Esvazio o caiaque pela milésima vez e saio atrás da lona corredeiras abaixo. Melhor não pensar muito no que aconteceu. Passei por várias corredeiras, menos mal que eram em linha reta. Caso virasse, não entraria por baixo de nada. O que ainda permanece são os pavorosos redemoinhos que fazem girar o caiaque quando passo por cima. Não achei mais a lona, ela se foi! Só me restava seguir em frente, agora pedindo ajuda a Deus a cada nova corredeira.
O Rio Corumbá
Às 17 h cheguei num local super estranho: parecia ser um afluente barrento e eu não sabia se seguia para a direita ou esquerda. Que droga, onde estou? Isso aqui parece outro rio... Acabara de sair do “corredor da morte”, havia uma enorme ponte de trem mais para a direita. Atravesso para o outro lado e encosto no barranco para achar os mapas e tentar descobrir onde estou. Ainda estou tremendo! Eu quase morri, foi por questão de segundos... Que sensação horrível! Abro o compartimento e filmo meu próprio depoimento, tenho que escutar isto mais tarde, valerá a pena! Descubro que o rio corre para a esquerda e que o “afluente” vem da margem direita... Então estou no rio Corumbá! Que gozado! Foram 170 km e seis dias, mas não estou me sentindo vitorioso.
Consegui passar, mas o São Bartolomeu roubou minha autoconfiança!
Subo o barranco para ver lá de cima. Para onde terei que ir há um barulho ensurdecedor de corredeira. Nem entrei direito no Corumbá e já tem pedreira pela frente! Lá do alto traço uma rota para cruzá-la, é mais fácil de ver por onde seguir. Tenho que seguir bem rente da margem esquerda. O Corumbá se abre e tem entre 100 a 200 m de largura (ancho). É grande e correntoso, estou com medo de seguir. Quero acampar antes, mas não há local, melhor passar de uma vez. Escuto o trem e volto correndo para filmá-lo ao cruzar o viaduto.m- Vamos embora cara, vai anoitecer! E lá vou eu, rumo ao meu destino. Quando chego próximo da corredeira senti muita força de água, fiz a volta e percebo que para retornar está mais difícil ainda, é muito volume de água. Tenho que redobrar os cuidados, pois numa cachoeira... Bobeou, dançou!
Enquanto não chegar a Caldas Novas, terei corredeiras e cachoeiras; tudo porque queria iniciar a viagem na capital do Brasil. Fiquei observando e resolvo cruzar onde a correnteza é mais forte, diferente do que havia planejado. Ali tem menos pedras. Felizmente deu tudo certo e às 17h30min não tive muita escolha, acampei no remanso logo após a corredeira, em um local úmido onde havia um barco preso na corrente. Vou passar frio, mas não importa. Para quem quase morreu, nada mais importa. Entrou muita água no compartimento de popa, penduro o que dá para secar, monto a barraca e inflo uma das bóias do Paulo para utilizar como isolante térmico e absorver as irregularidades. Ela esvazia aos poucos e passo o resto da noite inflando quando encosta-se ao chão e o frio aperta. Agora são 02h29min da madrugada e vou me rolando o que resta da noite. Coloquei os isqueiros molhados na vela e eles voltaram a funcionar, eu não trouxe fósforos e fiz fogo com meu fogareiro a gás que acende sozinho.
Agora escuto outro trem de carga passando. Esse Rio São Bartolomeu quase me matou várias vezes, nunca mais quero descer por ali... Ainda não era a minha hora! Buenas Noches! Obrigado Senhor!
24/06/05 sexta-feira 7° dia - Os canyons de rocha negra
Pois é, eu tenho que colocar o que passou na “lixeira” do meu computador e só recuperá-lo quando o pior tiver passado. Não será fácil esquecer! A noite foi longa. Se dormir de costas, gela os pulmões, então tem que dormir de lado, sobre o braço. Aí dói na cintura e nos ombros, só que gela menos o corpo. Tapo a cabeça com a manta de lã e com o capuz do saco de dormir. Assim, junta ar quente o suficiente para dormir sem tremer, fica apenas frio. O sol nasceu e coloquei várias coisas para secar. O papel higiênico não tem mais recuperação. Espero as roupas secarem e vou secando o compartimento de popa que estava cheio até a metade. Parto só às 11h30min. Vou ajeitar o caiaque e percebo que o leme se foi, quebrou! Bueno, se meus irmãos argentinos viajaram sem leme, no mínimo tenho que seguir em frente. O rio está bem largo e isto me tranqüiliza um pouco, chega de “corredor da morte”!
Vejo dois tucanos, pombas e um parecido com siriri, que emite um silvo longo e lamurioso. Escuto seriemas e curicacas. Uma hora depois, penetro num canyon formado por imensas rochas negras e ilhas de pedra com aspecto fantasmagórico. O rio se enche de corredeiras e fico com medo de cair em alguma cachoeira, pois não sei onde ficam. Começo a descer nas corredeiras, mas um estrondo forte faz meus cabelos arrepiarem e o coração disparar. Encontro um remanso e vou investigar a pé. Desembarco em praia de lama, cheia de cocô de capivara e sigo pela margem. Vejo o que não queria: o rio, que já teve mais de 300 m de largura passa em uma garganta de apenas 4 m, imaginem a força da água! É impossível passar ali sem virar, pois mal cabe o caiaque e serei jogado de lado nas rochas, até parece filme de terror, isto não tem mais fim.., Até para remar não tem espaço, é uma coisa quase incontrolável.
Não tem como voltar e subir o rio, não tem ninguém para me ajudar ou incentivar. Escalo várias rochas tentando achar caminho alternativo, mas não existe! Terei que enfrentar meus maiores medos e entrar naquilo ali, sabendo o que pode acontecer, menos de 24 h depois de quase ter morrido... - É cara, não tem jeito, terás de passar por ali! Retorno para o caiaque como um condenado, acho que já “assisti a esse filme“ e verei a “reprise” muitas vezes. Peço ajuda a Deus e ao meu pai (com quem converso durante a viagem). O pai (faleceu há pouco mais de um mês) sempre foi contra estas indiadas e esta seria a primeira vez que a gente iria se encontrar durante uma. Seria em Foz do Iguaçu e agora ele é obrigado a viajar comigo, pois estou sempre o chamando para um “bate papo”, he, he! Quem sabe a gente não se encontra de vez?
- Cara, se o caiaque virar, te ejeta, mas não te larga dele por nada deste mundo, a menos que a Iara seja muito gostosa... Pelo menos é uma reta cheia de redemoinhos, mas é uma reta. Subo um pouco o rio, faço a volta e retorno bem pelo meio. É muito pavor! Entro no fluxo principal e consigo passar, mas os inúmeros redemoinhos jogam o caiaque de lado contra as rochas. Tento afastá-lo com as mãos, mas o turbilhonamento vira o barco. - Puxa a alça, puxa a alça! Não é tão fácil de achá-la, mas encontro-a e ejeto do caiaque.
- Te agarra nele, cara. Te agarra!
Apesar de utilizar o colete salva-vidas (que tem mais de 20 anos), vou para o fundo igual, a força da água é muita.Caiaque emborcado e eu agarrado nele, assim descemos até o remanso. O medo é passar do remanso e enfrentar a próxima corredeira nestas condições. Estou no limite psicológico, o físico até está bem. Não agüento mais corredeiras, antes o mar cheio de ondas do que isto aqui! Antes de chegar ao remanso, vi um barco de alumínio destroçado entre as rochas. Ele está rasgado e torcido como uma folha de papel na lixeira. Esvazio o caiaque ao lado de uma rocha e, pela primeira vez, vejo uma lancha de alumínio circulando por aqui. O cara deve ser muito bom, pois meter uma lancha aqui é quase uma façanha.
Eles param para conversar. O piloteiro é muito bom, chama-se Venerando, igual ao outro ocupante, mais Elísio que tira algumas fotos. Seu Venerando fala que para baixo é violento, mas diz que o pior eu já passei. Ainda tem três cachoeiras para cruzar, tenho que conseguir ajuda, caso contrário, meu barco irá ficar igual aquele de alumínio, retorcido entre as pedras e não vai viver para ver o mar. Elísio fala que seu pai, Aquiles está pescando mais para baixo e que tem um pessoal pescando numa ilha. Eles têm uma camionete e conversando com eles, poderiam me levar até Caldas Novas, onde não tem mais corredeiras... Está decidido, vou colocar o caiaque e transportá-lo. Está todo trincado, arranhado e de leme partido. Tenho mais de 5000 km pela frente e não serão 100 km por terra que farão a diferença.
Eles sobem o rio e eu vou até a lancha partida e retorcida entre as pedras. Fiquei impressionado com o quê a força de água pode fazer. Enquanto filmo, comento:- Não é isto que eu quero para o meu barco. Seu Venerando disse que têm corredeiras brabas para frente, que eu devo descer sempre pela direita. Sigo o conselho de Heitor, sobre o “V” invertido para penetrar na corredeira. Ali a corrente e a turbulência são mais fortes, mas é por onde não tem rochas ou paus submersos. E assim me fui pelo longo canyon de rochas negras, superando corredeiras sem fim. Umas maiores, outras menores, sempre descendo pelo lado direito. - Porra, tu não viste aquela rocha? - Porque tu não desviaste antes?
E assim fui indo, me auto puteando por não prestar atenção e desviar antes. Por duas vezes mais o caiaque virou; fora uma curva onde o bico dele se chocou violentamente contra um tronco, chegou a doer. Depois de mais de 1 h de lutas, o rio se abriu de novo, cheio de árvores lindas, sol gostoso e sensação de tranqüilidade. Fui em frente, tentando encontrar o acampamento de seu Aquiles. O rio ficou tão sereno e bom que já estou revendo a idéia de ser transportado, não gosto disto! Parei em duas balsas de mineiração que faziam um barulho terrível. Pergunto a um deles se conhecem seu Aquiles. O cara ficava olhando o caiaque e perguntava a respeito da viagem e não respondia o que eu perguntava, parecia retardado: Ele fazia perguntas sempre que eu perguntava. ô, cara eu te pergunto e tu não responde!
Ele me olha atravessado e eu encaro o corno, estou cheio de ódio e não precisa muito para eu fazer porcaria. Melhor sair dali e deixar o chifrudo chupando pedras, tomara que encontre “ouro de tolo”, combina com ele! Passei por duas casas, chamei e ninguém apareceu. Desisto, vou seguir o meu caminho e parar com essa frescura de ser transportado. Às 16 h encontro um senhor de cabelos brancos e bigode da mesma cor, parecidíssimo com Dorival Caimi (cantor baiano). Pergunto se não é o Sr. Aquiles, ele diz que sim. É uma pessoa super simpática, oferece de tudo. Diz que até uma ponte de concreto mais para baixo o rio estará bom, quer dizer, não será pior do que já foi, talvez seja até melhor.
Então prefiro seguir em frente, as cachoeiras (3) estão localizadas a partir desta ponte. Sabendo onde estão e encontrando ajuda, talvez consiga cruzar. Ele diz que ao lado da ponte há uma estação ferroviária e que ali o pessoal lhe conhece e que eu posso colocar o caiaque no trem. Fala dos caras acampados na ilha, mais para baixo (cerca de 19 km), mas agora mudou, prefiro ir mais adiante e só ser transportado se realmente não der de passar. Segui em frente, passando por lugares maravilhosos e diferentes, como uma parte onde havia formações rochosas ao lado das árvores do cerrado, ouvindo o canto das seriemas e deslizando no rio espelhado. Coisa linda! Tive que filmar ali do rio mesmo, que paz!
Às 17 h, depois de uma corredeira, avistei a tal ilha onde os caras estavam acampados. Cumprimento a todos, vejo a camionete estacionada lá na margem, mas eles não me convidaram para descer e nada pedi, segui em frente, cruzando com um barco de alumínio que revisava as redes que eles colocaram por ali. Encontro uma pequena elevação ao lado da água onde daria para colocar a barraca ao lado do caiaque. Vi o trem de carga passar pela linha que corre paralela ao rio, bem mais para cima. Há, também, uma estradinha de terra que não dá de ver direito, ambas são na margem direita.