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De caiaque pela América Latina 2005 - Still Alive, Amigos

No dia 16 de junho de 2005 André Issi iniciou a aventura de caiaque pela América, onde percorreu aproximadamente 5.000 km com local de partida em Brasília. Confira Still Alive, Amigos.

STILL ALIVE, AMIGOS

Depois de ficar o dia todo no Hospital ficou constatado pelas radiografias que não houve nenhum deslocamento de vértebra, deve ter sido uma forte distensão. O Dr. Renato receitou antiinflamatório, mas isto eu já vinha tomando. Decidi que partiria no dia seguinte, mesmo com dores, pois o medo maior era ter deslocado algo. A dor eu posso suportar.

É o décimo segundo dia de viagem, estou nervoso, vou enfrentar corredeiras de novo sem saber se consigo superar a dor. Dormi dois dias na segurança de uma casa e agora me vejo de frente para o rio Corumbá sem saber o que vai ser. Despeço-me dos amigos que carregaram o caiaque para mim até a beira do rio, coloco o colete as luvas, engulo em seco e me despeço dos amigos. Pois é seu André, agora é só tu e Deus de novo. E lá se vai nosso herói estropiado: perseguindo horizontes ou moinhos de vento? Logo se aproxima a primeira corredeira, o barulho alto da água vai se aproximando, tu tentas ver por onde é o melhor caminho, mas só percebe nos instantes finais. Tento desviar das rochas, mas não dá para fazer força e acabo raspando o fundo. - Merda! Acho que estou ficando bom, pois já estou reinando. Aprendi a não lutar com o rio, deixo o caiaque escolher por onde ir, ele segue por onde a correnteza é mais forte, mas o meu instinto de auto preservação quer evitar estes locais.
 
Antes de chegar às pedras o rio forma um “v” invertido, é ali onde devo colocar a proa, por ali passa sem bater nas rochas e, ao longo do dia, assim vou seguindo. Tu passas uma corredeira e já começa a ouvir o som da próxima, é agoniante! Passei por três pontes que ligam Pires do Rio e vou seguindo. As corredeiras estão cada vez piores, é uma colada na outra, está difícil de escolher o caminho certo, por enquanto vou me dando bem. Só dá uma fisgada mais forte quando forço um pouco mais o remo.
 
Driblando a “Véia da Foice”
Às 13h sou obrigado a parar, o estrondo é forte demais, meu coração bate rápido, ainda não superei o pavor de quase morrer duas vezes nos redemoinhos. Há uma torrente de água que se afunila numa garganta entre as rochas e se torce com força, não dá para ver se ali no meio tem rochas, pois se entrar ali, naquela velocidade, despedaça o caiaque e eu junto. Paro num remanso, procuro um caminho alternativo, não tem. Carregar o caiaque sobre as rochas é impossível para mim sozinho. A princípio estou calmo, mas o pavor vai crescendo quando eu começo a falar para mim mesmo: -Cara, não tem jeito, tu vais ter que subir o rio contra a correnteza, fazer a volta e descer pelo meio daquela violência, tem que entrar lá do outro lado, bem junto das rochas do lado direito para ter uma chance de não bater nas rochas da esquerda. - Eu não acredito que tu vais fazer isto comigo! - Sinto muito brody, é por ali! - Deus me ajude! Faço sinal da Cruz, Deus é minha única companhia, peço seguidas vezes que me ajude enquanto sigo para o caiaque.
 
Encho um flutuador dentro da mochila da proa para que o caiaque não afunde se virar. E lá se vai o condenado, senta no caiaque, posiciona a capa e se prepara para subir o rio e fazer a volta antes de entrar na correnteza. - Pronto virei, e agora? -Tenta levar ele bem pela direita e não deixa entrar de lado, pelo amor de Deus! A velocidade aumenta pavorosamente, não tem mais volta. - Trava bombordo seu desgraçado, trava! Travo com todas minhas forças, o bico endireita, estou quase batendo nas rochas da direita. Acho que meus olhos estão vidrados, só vejo a espuma e as ondas revoltas onde vou cair em segundos e aquelas malditas rochas da esquerda que podem sugar eu e o caiaque para uma viagem sem volta para o fundo. - DEUS ME AJUDA, DEUS ME  AJUDA! O caiaque mergulha de bico, as ordens são para puxar a alça ejetar e dar um jeito de agarrá-lo ao mesmo tempo. Tudo passa por cima o caiaque pula como um cavalo doido, as rochas da esquerda se aproximam.
 
- TRAVA BORESTE, REMA BOMBORDO, RÁPIDO! Eu nem tenho tempo para pensar,apenas grito comigo mesmo:- REMA DESGRAÇADO, SAI DAI SEU MERDA! Estou de lado, vou bater, mas uma corrente salvadora me tira dali, o caiaque rodopia e gira ali no meio, parece se desviar sozinho das rochas, remo quando dá, mas o mais incrível acontece, não virou! - NÃO VIROU, OBRIGADO SENHOR! Cara é muito stress, que adrenalina! Sigo em frente, mas as corredeiras se sucedem, passo por várias, lugares belíssimos e algumas ilhas. Depois de 4 h de viagem escuto um estrondo forte demais.
 
A mais impressionante
- Cara! Parece uma cachoeira, sai dai tu estás entrando na corredeira final. Que dor nas costas que nada, tenho que salvar minha vida. Faço uma força incrível e entro num remanso bem ao lado da mais pavorosa corredeira gigante ou cachoeira até aqui. Desço e vou filmar o local, é apavorante! Uma força descomunal de água, rochas pontiagudas bem no meio da torrente. Entrar ali é suicídio, pois é imprevisível e tem tudo para despedaçar o caiaque ou rachar a cabeça se virar e bater nas rochas. - Mas e se for por ali? - Vai te fuder, quer me matar seu corno? - Nem pensar, nem tente pensar em passar por ali. - To ficando com raiva de ti! Tudo bem, por terra não dava, havia casas rio acima, só que do outro lado. Teria que subir o rio contra a corrente e dar um jeito de atravessá-lo sem cair na corrente. Tentei no remo, mas a corrente foi mais forte e ele veio com tudo na direção da queda: - NÃO DEIXA VIRAR, NÃO DEIXA VIRAR! - REMA DESGRAÇADO, REMA VAI PARA O REMANSO!
 
Ainda estou tremendo, só me resta subir por dentro da água arrastando o caiaque com uma corda. A correnteza é muito forte, estou num ponto crítico enfiando os dedos em saliências nas rochas com a mão direita e a corda na esquerda. Se soltar a corda agora o caiaque se vai na queda. Não é que escorreguei? Não podendo soltar as mãos de jeito nenhum, fui obrigado a aparar a queda com a testa na rocha. Resultado: um tremendo “ovo” na testa, mas felizmente não cortou e não larguei nem a corda nem a saliência. Consegui passar dali e finalmente subi o rio fazendo o sinal da cruz entrando na corredeira de lado e fui atravessando ao mesmo tempo em que descia para a cachoeira. Se o caiaque vira ali não se salva nenhum dos dois. Cheguei do outro lado e subi para chegar na casa, atravessei outra corrente, mas não havia ninguém. Resolvi descer o rio de novo até a cabeceira da queda, só que agora pela margem direita.
 
Não é que o corno virou ao passar na corredeira que eu já tinha cruzado? O corno já se foi entrando para a cachoeira, alcancei-o com a mão esquerda e meti a mão direita numa saliência de rocha. - Não seu desgraçado! Acabei esmagando a unha do dedo da mão direita. Consegui descer até a cabeceira, arrastei o caiaque para cima e armei a barraca, era cedo mas dali não dava mais para seguir. - Ufa que dureza! Isto é que eu chamo de tratamento intensivo para a coluna detonada! Recém eram 16 h, esvaziei o caiaque para transportar as coisas por terra no dia seguinte. Enquanto os borrachudos me atacavam, lavei as roupas e depois tomei um banho com sabonete Liguei o radinho, escutei o Brasil meter 4 x 1 na Argentina pela decisão da copa das Confederações, he, he! Eles aprontaram muito em B. Aires e mereceram o “chocolate”. Como é doce o sabor da vingança! Lo siento mis amigos Argentinos pero este fué el vuelto de Buenos Aires!
 
Saldo do dia: dedo esmagado e um baita “ovo” na testa! Fiquei ali, nas pedras, já com meu quepe com mosquiteiro, estudando por onde iria passar no dia seguinte. Vejo um rapaz subindo pelas pedras com uma tarrafa nos ombros, é Quico. Ele mostra um caminho alternativo que inicia ao lado daquela casa que não tinha ninguém, aonde virei na corredeira que esmagou o dedo. Realmente diminui o trecho, só que terei que remar rio acima de novo e lá fazer inúmeras idas e vindas com as coisas e depois dar um jeito de transportar o caiaque sobre as rochas. Quico diz que dará uma mão nesta parte, legal! Acho que levarei o dia todo fazendo isto, mas a cachoeira da Prainha é o último grande obstáculo intransponível. Nas corredeiras seguintes posso utilizar minha tática “kamikaze”.Mais dois dias de viagem e saio das corredeiras, acho!
Esta noite as capivaras ficaram “latindo” aqui ao lado.

Fonte: André Issi
Cidade: Goiânia-GO-Brasil
Fotos: André Issi
Publicado: Fernanda Cristina Gonzales Ferreira
Date: 20/09/2005 <%insert_data_here%>


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  Evento 11817 - Aventuras de caiaque pela América Latina 2005

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