20/07/05 dia 33 quarta
Tchê! Que noite mais fria! Amanhece gelado, mas sem vento, preparo o kinojo para esquentar dentro da barraca. Faz tempo, encontrei uma régua de alumínio e ela está servindo de talher, ficou tão boa que não quis comprar uma colher. O sol aparece fugazmente, o suficiente para mostrar a beleza do lugar. Vejo os ferozes tucunarés dando saltos atrás dos peixes menores e um bando de araras amarelas e azuis. O sol se foi fica uma espécie de neblina, viajo com o casaco de chuva para manter o calor do corpo. De cara vejo uma capivara que mergulha assustada ao me ver.
Com o auxílio da bússola e do mapa ora ia à direção de Goiás e desta ponta seguia para outra em Minas Gerais, eram travessias longas e eu não me sentia confortável com esse tempo esquisito. Eram travessias entre 1 e 2 h, chegava num lado que não dava para desembarcar por causa da vegetação de capins. Encosto em uma bóia de sinalização de bombordo (vermelha) para tirar fotos e filmar. Finalmente avisto com nitidez a foz do rio Aporé, tenho diante de mim três estados: para a direita, Goiás, de quem me despeço agora.
Terra de gente boa e onde permaneci por mais de trinta dias. Do outro lado Mato Grosso do Sul que vai me acompanhar até o Paraguai. Para a esquerda fica Minas Gerais. Sigo para MG, estou no caiaque direto remando por 03h40minh, suado e cansado. Parei na sombra de uma gameleira que tem as raízes submersas e tenho que descer ali mesmo, dentro d´água. Almoço em pé, assistindo aos milhares de peixinhos nadando ao lado do Maktub que flutua sobre as raízes. Ficou frio, desisto do banho, ainda mais que sou atacado por marimbondos.
Um corno me acertou, mas matei uns sete e fiquei ali até comer tudo, não vou ser expulso por uns veadinhos. Atravesso de um estado para outro, o final da tarde se aproxima e começo a ficar nervoso, São travessias longas que se sucedem e vou seguindo sobre os troncos perigosamente perto da superfície e que quando vejo, já passei. Na última travessia sou interceptado por uma lancha que passa entre os troncos, são Antonio e Marcos e me oferecem um revigorante café que aceito com muita alegria!
Foram mais quatro horas dentro do caiaque, passo por uma pequena ilhota e avisto uma enorme ponte ao longe com dois arcos. Passo ao lado de um barranco avermelhado e o sol projeta minha imagem e a do caiaque no barranco, que legal, é a primeira vez que me vejo remando. Paro do lado mineiro são quase oito horas remando hoje. O local é de cinema, uma floresta de bacuris e gameleiras, água espelhada e o sol se pondo, show! As folhagens se mexem, é um bando de macacos que se retira e fica me olhando do alto.
Agora são 05h30min, estou escrevendo desde as 04h48minh, não tem vento, armei a barraca sobre fundo de cascalho, mas dá para encarar. Cara, que espetáculo! Fui lá na rua e a lua cheia quase no horizonte formou um reflexo prateado desde o outro lado até encostar no caiaque aqui na beira. Está amanhecendo, o café está pronto, as corujas, morcegos, grilos e outros cedem espaço para os bichos do dia.
21/07/05 dia 34 quinta
Parti e segui até a ponte. Desço para pegar água e descubro que ela foi inaugurada em 2003, pelo Presidente Lula. Segui em frente, cansado de ontem, a moral da tropa está baixa. Nestas situações o comando deve tomar medidas drásticas para reverter o quadro:
- Tenente Issi!
- Sim senhor!
- Encoste naquele barranco, tome um banho e faça a barba!
- Senhor, hoje é quinta...
- Sem contestações, ninguém na companhia agüenta mais o seu cheiro. Aproveite e lave estas roupas de viagem.
- Sim senhor!
E assim, de banho tomado sigo em frente, uma longa reta de mais de 10 km, menos mal que o vento está favorável. Nem vejo onde é o fim. Vejo uma torre ao longe, do lado de MS. Enquanto sigo para lá, nestas longas travessias, entro em alfa, deixo o corpo remando e viajo pelo tempo, passado, presente e futuro. Passo por uma fazenda lindíssima e mais tarde chego na torre. Desço para descansar e leio a placa da frente com o binóculo:
- Farol de Formigas
Não iria cruzar mais hoje, mas não vejo local adequado e sou obrigado a cruzar no final do dia. Então sou obrigado a remar com muita força até chegar em MG, num mato alto e Escuro enquanto o sol se põe. Mais de sete horas de remo e sempre remando forte no fim. Achar local a partir das 17 h está complicado. Escurece, um bicho late próximo da barraca, deve ser graxaim. Uma coruja berra estridentemente. Pelas minhas contas hoje é o último dia em MG, amanhã chego na foz do Paranaíba (depois de andar 456 km), junto com a foz do Rio Grande, terei andado 956 km. O R. Paraná tem 2739 km até B. Aires, depois é só subir o mar por mais 1500 km... Tudo isto dá mais de 5000 km, que Deus me ajude!
22/07/05 sexta dia 35
Entregue às feras!
Saí e logo ao cruzar a ponta vejo ao longe uma ponte que não tem no, meu mapa. A solução é tocar reto pelo meio do rio. Passam 4 lanchas, elas vêm próximas da margem. É chato tu veres um objetivo de longe, remar por horas e nunca chegar. Depois de quase duas horas encosto em uma ponta onde tem uma casa no alto de um barranco. Vejo gente, desembarco para pedir água, mas os bugres se escondem. Vou em frente assim mesmo e quando vejo, um enorme fila se aproxima. Para piorar, há um canil com um baita rotweiler. Pior, o portão está aberto e ele sai e vem na minha direção.Estou sem o punhal, olho para a casa para ver se alguém chama as feras, nada.
- Te vira cara!
O fila não parece tão feroz, então desvio meu olhar X-45 para o rotweiler que rosna, mas não se aproxima muito. Fiquei invocado com os donos que me deixaram para ser devorado e vou até a área da casa encho as garrafas com água e volto na direção dos bichos. Fiquei com raiva dos “bugres”, que mania de se esconder! Agora tenho que retornar e passar pelos dois cães, mas a tática é não tirar o olho deles, nem ficar de costas! Cruzo pelo fila, o rotweiler entra no canil e avança lá de dentro, acho que quis mostrar serviço.
Depois de passar pela foz dos dois rios, tem o bico de MG onde tem outro farol em forma de torre (o km Zero) e um barco de turismo encostado ali. Agora as divisas são: São Paulo à esquerda e Mato Grosso do Sul à direita. O vento está forte agora, a ponte liga SP a Aparecida do Tabuado (MS). Ela é rodo-ferroviário sendo que o trem passa na parte inferior. Foram três horas de viagem. Encosto em um restaurante rodeado de coqueiros peço um belo prato a base de carne para comemorar a chegada no Rio Paraná. É o bar arara azul, muito lindo e rústico. Converso com João e Benê enquanto devoro a carne e tomo três águas de coco para arrematar.
Fiquei parado por três horas, mas valeu a pena. Parto às 15h e vou remando forte, passo por uma ponta, vou a direção de outra passando pela sede de uma imponente fazenda cuja sede é um sobrado enorme e envidraçado um pouco mais adiante. Tem uns caras pescando tucunarés, falo com eles e não acho local abrigado. Avanço sobre capins flutuantes e arrasto o caiaque até a margem. Armo a barraca sob um solitário pé de goiaba. Os caras chegam depois, pescaram um enorme tucunaré. Escurece e vejo a lua nascendo lá do lado de SP, parece uma bola de fogo que projeta o reflexo desde o outro lado. Que coisa linda!
23/07/05 sábado dia 36
Parece que vai chover, amanheceu com muito vento contra que balança a barraca. Aqui está abrigado, acho que não vou partir:
- O quê?
- Não descende o fraco do forte, filho do Rio Grande não és!
- Chorastes diante da morte?
- Não, Senhor!
- Então vai a luta!
É verdade, ficar que nem galinha, chocando os ovos, não é comigo.
Agora eu tenho um caiaque que anda contra o vento e as ondas. É ruim eu sei, mais esforço, menos avanço, mas é bem melhor que ficar esperando no campo embaixo de um pé de goiaba o tempo mudar. Parti às 08h55minh, seguindo paralelo a costa desabrigada, uma neblina parecendo tempo nublado, ondas e vento contra. Tudo mais ou menos, até que chego numa ponta e tenho que fazer uma travessia que vai durar uma ou duas horas. O vento cada vez mais forte e ondas gigantes:
- Soldados!
- Sim General Bento Gonçalves!
- Primeiro eu quero dizer que é uma honra lutar ao lado de homens com tamanha valentia. O campo de batalha está aí em frente. Não há testemunhas, esta será uma luta solitária.
- Apenas peço dignidade na hora da morte, pois a bravura é esta medalha que vocês tem dentro do peito, forjada a ferro e a fogo nos pampas do Rio Grande.
- É fácil a missão de comandar homens livres, basta ensinar-lhes o caminho do dever!
Dito isto os homens encheram o peito de orgulho e uma batalha épica se travou nas águas do Mato Grosso. O soldado Maktub, guerreiro gaúcho com alma castelhana, lançava sua proa tal qual uma lança contra os inimigos. O tenente Issi recebia no peito o sangue do inimigo perfurado e comandava o cabo Remo. A legião de inimigos se perdia no horizonte e o vento assassino fustigava nossos heróis que avançavam mesmo assim. Os soldados Bíceps e Peitoral garantiam a vanguarda enquanto que Tríceps e Trapézio garantiam a retaguarda. Foi uma peleia bruta e feia! Tão braba que muito homem calejado virava o rosto de lado. As ondas se torciam, mudavam de forma, mas os tauras gaúchos ginetearam e pelearam como nunca e atravessaram o campo de batalha em duas horas e tomaram a colina que havia do outro lado.
- Muito bem homens, vamos em frente!
Fui seguindo agora paralelo a outro campo e tive que parar para filmar cinco emas entre um rebanho de cavalos. Alguns cavalos vieram até a beira e batiam a pata, desafiadoramente. - Calma amigos, venho em paz. Estou cansado de batalhas e vocês não estão no meu caminho. Agora tem outras travessias, mas menores. Depois de quase oito horas remando, parei junto a uma gigantesca árvore cuja copa deve ter mais de 10 m de circunferência. A noite toda o vento balançou forte a barraca, ele virou, agora vem de SE, antes vinha de SW. Talvez amanhã seja pior que hoje, mas meus soldados estão preparados para a peleia. Não podemos entregar pros homens, amigos e companheiros, pois não está morto quem peleia.
24/07/05 domingo dia 37
Parti só às 09h40min e resolvo tocar direto para a barragem de Ilha Solteira (quinta barragem). É um misto de barragem e ponte. Chego lá quase duas horas depois, encosto próximo das turbinas, desço e vou a pé na direção da guarita. O segurança vem e me intercepta de moto. Está surpreso de como cheguei aqui.
- De barco!
- Que barco?
Aí ele vê o caiaque entre as pedras, é gente boa e quer me ajudar.
Hoje é domingo, não tem caminhão, Zezinho disse para eu cruzar para uma praia do lado de SP.
Ele vai avisar os bombeiros de que estou a caminho e eles me transportarão.
- E as turbinas?
- Pode passar, estão desligadas.
Estou chateado, acho que apenas fui “despachado” com a estória do domingo. Chego na praia, mal desembarco, dois soldados dos bombeiros já me esperam com viatura e reboque, nem acredito! Eles me levam para o porto depois da usina. Os soldados me deixam na rampa e se vão. Resolvo almoçar no restaurante ao lado. Está ventando forte e tem muitas ondas, já estou acostumado. Alguns vêm perguntar de onde venho e outros, como Bilu e Cabelo vão mais além. Eles me presenteiam com uma gorra de lã e dão boas dicas de como será para frente. Parti só às 15h35minh, depois de ter falado com os sobrinhos, a cunhada, o brody e a mãe. Fui orientado a seguir pelo lado paulista. Logo ao partir, passo por uma pequena ilhota cheia de garças que se abrigam do vento.
Sigo em frente, a barra não está fácil, vento de rajadas contra e aumentando. À medida que avanço a situação piora, pois além das ondas e do vento muito fortes, percebo que estou entrando em uma região de mata muito fechada que se debruça sobre as águas e não permite desembarque, é uma trama de galhos que não deixam ver terra firme. A ilha da Ferradura, que eles indicaram, está muito longe e no contra vento; acho que não chego lá de dia. - Cara, na próxima brecha que achares no mato entra, pois a coisa está ficando feia pro teu lado e vai piorar! Duas lanchas avançam com muita dificuldade e isto que elas vêm a favor do vento e das ondas. Está cheio de mulheres e crianças, algumas gritam de medo, dá para ver que todos estão tensos e o piloto manda as crianças abanarem para mim. Todos abanam, quebra a tensão deles por uns momentos.
Está próximo das 17 h e não achei brecha nenhuma se forçar para entrar entre os galhos certamente irei virar com a força das ondas. É melhor nem tentar. É muito estressante! - Acho que terás que cruzar para a ilha neste mar, pois lá tem rancho de pesca. Vejo um bambuzal e uma pequena brecha que permite ver que entre eles dá para montar a barraca.
- É ali, é tua única chance! Concordo plenamente, aproximo, mas está brabo, recuo e tento mais duas vezes. Coloco o bico da proa entre um tronco e uma barra de ferro próxima do barranco e consigo. Ali é raso e consigo descer e puxar o caiaque antes que as ondas o inudem. Felizmente foi tudo perfeito, nem acredito que deu certo, estou em segurança. Agradeço a Deus, estava em situação muito difícil, bem agoniado.