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Confira o relato do navegador Aleixo Belov, direto da sua 4ª viagem de volta ao mundo, num veleiro. Atualmente, o explorador se encontra a caminho da Austrália, depois de passar pela rota Salvador-Natal-Granada-Galápagos-Polinésia Francesa-Tahiti, dando início à 2ª etapa da viagem, que também terá duração de 6 meses.
Saímos de Galapagos com a primeira luz do dia e fomos navegando por entre as ilhas, nos afastando para que quando escurecesse de novo o Fraternidade já estivesse em águas livres. O vento continuava fraquinho, mas como nas outras vezes, ele foi melhorando à medida que nos afastávamos e terminamos fazendo caminho.
A turma estava ansiosa, pois, pela primeira vez na vida estavam se preparando para atravessar a parte deserta do Oceano Pacífico com 3.100 milhas de extensão. Recomendei cuidado no consumo da água, principalmente no banho, mas era muito difícil. Estavam todos acostumados a gastar, e por mais que eu os doutrinasse, contando que no Concorde, em 33 dias de Salvador a Cape Town só tomei dois banhos, e o comandante francês 1 (fazia frio), a maioria deles continuava gastando, tendo cuidado com os cabelos crespos, regando-os como se fossem plantas.
Eles não tinham assumido, com raras exceções, o espírito do marinheiro de alto mar. Eles gostavam de navegar, mas, fazer sacrifícios do conforto em prol da segurança, não tinha se incorporado a sua consciência. Explicava que podíamos quebrar o mastro e ficar boiando meses até sermos resgatados. Mas, neste instante criava-se uma espécie de sindicato. Eu explicava, eles ouviam, mas muitos deles já tinham suas idéias formadas, e iam criando um clube entre eles. Vieram mais pelo turismo, pela aventura, ou para ter o que contar enquanto tomassem cerveja com os amigos, depois que voltassem para casa. Poucos leram sobre os grandes navegadores do passado, ou os consideravam seus heróis. Viciados também em computador, iam secando as baterias do barco, obrigando-me a ligar o gerador constantemente. Se eu reclamasse, mudavam de humor.
Queria ensinar-lhes como fiz minhas viagens solitárias, com muitas restrições, e que deram certo. Que na primeira volta ao mundo, fui sem rádio, sem balsa salva-vidas, apenas com um sextante velho que recuperei de um navio naufragado. Que quase nem ligava a luz de navegação para não gastar bateria. Mas os tempos tinham mudado. E se assim fiz, foi por opção própria. Eles estavam em outra.
Compreendia, que a escolha de cada aluno convidado, por mais cuidadosa que fosse, era uma tarefa muito difícil. Talvez nem existissem as pessoas que eu procurava. Pois quem no Brasil, estava tentando fazer a quarta volta ao mundo. Parece que só mesmo eu, e nem sei explicar por quê.
Os dias foram passando e o barco avançava, mas ia devagar. Desta vez, era uma época diferente, e não tinha encontrado os mesmos ventos de outrora. Com ventos bem mais brandos e bastante gente a bordo, passamos a içar a geniker e o balão com bastante freqüência, e terminamos chegando com 22 dias nas Marquisas, exatamente em Nukuhiva, depois de boiar uma noite inteira nas imediações do porto de Taiohae, para só entrar de manhã, com a luz do dia. Tínhamos chegado na Polinesia Francesa. Para muitos, a realização de um sonho, para mim, a conclusão da primeira etapa, dando como pronta a primeira turma. Mas, nem todos queriam voltar para casa. A maioria, com um bom atestado do Veleiro Escola Fraternidade na mão, procuraram embarcar em outros veleiros, e quase todos conseguiram. Só mesmo Marcelo Caetano voltou para casa.
Em Taiohae, fiz muitas amizades e conseguimos dar muitos passeios. Teve gente que tirou uma semana de férias só para nos levar para passear. A turma se maravilhava com o povo muito comunicativo e amigo destas ilhas. Conseguimos participar até da caça ao porco selvagem, indo em duas camionetes com amigos, quatro caçadores, eu, Alexey, Osvaldino e Paulo filmando alem dos seis cães. Os cães farejavam os rastos dos porcos e saiam em louca disparada e os caçadores iam atrás. A caçada foi um sucesso e no dia seguinte foi o churrasco com todos os alunos do barco convidados, mas ficou estampada na memória que a caçada não deixa de ter um que de crueldade. É mais fácil comer na churrascaria sem ver o boi morrer. Alexey aproveitou também para fazer mais uma tatuagem, que ficou grande e bonita. Depois de oito dias fomos para Atuona, na iha de Hivaoa, onde Lara também fez a sua tatuagem. Só eu venho resistindo.
Em Atuona começou a chegar a nova turma. Chegou Rafael Coelho, um engenheiro naval do Rio de janeiro, e dentro de três dias chegará Helio Almeida, de Brasília, trazendo inclusive peças de reposição para o motor. A intenção é não encher o barco como antes. Muita gente a bordo dá muito problema. Vamos ficar com sete por enquanto. Inventei o veleiro escola, mas, fui muito mais feliz em solitário.
Daqui queremos ir para Fatuhiva, depois provavelmente para Rangiroa, um atól dos Tuamotus, e finalmente Tahiti. Mas nada posso dizer com certeza. O futuro não nos pertence.
Fonte:
Via Press Comunicação & Marketing Cidade:
Galápagos-EX-Oceano Pacífico Fotos: Via Press Comunicação & Marketing Publicado: Andressa Dorneles da Silva Date: 29/06/2010
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